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António Fernandes: “O Porto está a perder a sua identidade!”

 

António Fernandes tem 70 anos, é natural da freguesia do Bonfim (Porto) e um dos fundadores do Rancho Folclórico do Porto, sendo, hoje, o responsável do grupo.

Grupo que é um verdadeiro embaixador da cidade do Porto no mundo e que, agora, comemora os seus 30 anos de existência, depois de ter “vindo ao mundo” em dia de S. João.

Tripeiro, portista e defensor dos mais elementares valores da cidade Invicta, António Fernandes diz de sua justiça… sem papas na língua.

 

 

António Fernandes. Um bonfinense de gema?

Sim. Nasci no bairro da China, na freguesia do Bonfim, no Porto, e passei praticamente toda a minha vida aqui, à exceção de quando fiz 19 anos, quando o meu pai teve de sair do Bairro da Polícia, porque os polícias quando se reformavam tinham sair do bairro.

Depois fui para Gaia e, entretanto, para a guerra do Ultramar, em Moçambique, e depois quando casei o meu objetivo era o de regressar à minha freguesia do Bonfim, o que, na realidade, veio a acontecer.

 

Uma ligação muito forte com o Bonfim?!

Claro, é a minha vida.

Não sei se o Bonfim é meu, se eu é que sou do Bonfim.

 

Também no Bonfim, surge o Rancho Folclórico do Porto, do qual é fundador.

Sou um dos seis fundadores.

 

Como surge a ideia de criar um rancho folclórico?

Eu, a minha mulher e outros fundadores estávamos ligados ao folclore. Ou seja, praticámos folclore em vários sítios: na Caixa de Previdência, na “Mundial Confiança” etc.

Apareceu, então, a necessidade de se criar um rancho próprio… um rancho do Porto que pusesse de pé as antigas danças, cantigas e tradições da cidade.

Surgiu a ideia. Pusemos pés ao caminho e mãos à obra, e começamos a fazer pesquisas, reconstituições…

 

…o que não foi, e ainda não é, tarefa fácil?

Nada fácil!

Em determinada fase da nossa vida, quando temos um certo nome há abertura por parte das entidades que protegem ou apoiam as associações, mas enquanto não se tem nome é complicado! Tem de andar dinheiro do nosso bolso; temos que pedir aqui e ali para fazer ensaios, enfim… foi um percurso bastante duro.

A nossa primeira sede – digamos assim – foi no Patronato do Bonfim, junto à igreja. Só que as capelas mortuárias estão lá pertinho do salão e os familiares dos mortos reclamaram do barulho que nos fazíamos nos ensaios, o que se compreende. E tivemos que sair de lá…

 

… os mortos não reclamaram.

(risos) Não. Por certo gostariam de ouvir, bater palmas e dançar connosco. Mas, os familiares reclamaram e com a sua razão.

Fomos depois para uma associação que se fundou ali na rua de Álvares Cabral – Federação Democrática do Trabalho – que já acabou, como aliás acabaram muitas outras associações que se formaram pós-25 de abril…

 

…mas foram para lá como Rancho Folclórico do Porto?

O Rancho já existia, já estava oficializado, mas ainda não se tinha apresentado à cidade.

 

Então, o Rancho Folclórico do Porto surge em que ano?

Surge em 1982. A 24 de junho de 1984, no dia de S. João, é que se faz a apresentação à cidade, na Casa do Infante, por gentileza do dr. Manuel Real que era, ao tempo, era diretor do Arquivo Histórico, e que, hoje, já está aposentado.

Entretanto, recebemos também o apoio da Junta de Freguesia do Bonfim, quando era presidente o professor Vítor Amado…

 

…e foram ensaiar para o Salão Nobre da Junta?

E fomos para lá ensaiar. Debaixo do palco tínhamos lá as nossas coisas. Entretanto, o tempo foi andando, tentamos arranjar uma sede, o que era difícil; a Câmara cedeu-nos um terreno para construir, mas nós não tínhamos dinheiro e, assim, nada pudemos fazer.

Depois, começamos a pensar nesta escola, e falámos com o professor Arlindo Miranda. Os meninos que andavam nesta escola foram transferidos para a do bairro de Fernão de Magalhães, e nós habilitamo-nos a todo o edifício, altura em que a professora e vereadora da Cultura da Câmara Municipal do Porto, Ernestina Miranda, prometeu-nos que ia fazer todos os possíveis para conseguir este espaço, e assim aconteceu. Isto há, sensivelmente, 15 anos.

 

 

 

“A juventude é agora muitíssimo mais ocupada que a do meu tempo”

 

 

Era uma altura em que se conheciam os vereadores? Havia com eles uma certa relação de proximidade sem grandes e desnecessárias burocracias…

…penso que, agora também se sabem quem são, só que o modo de viver nesse tempo era diferente do de agora. Havia, na realidade, muitos contactos; muita atividade das coletividades em colaboração com a Câmara…

 

… havia uma cidade com vida!

Havia uma cidade cheia de vida.

Por exemplo: a grande manifestação que se fez em prol da limpeza! Porque a limpeza não é só o trabalho da Câmara! O povo não tendo educação , não tendo instrução, não tem limpeza e havia campanhas de sensibilização para tal. Era na altura vereador o senhor Luís Oliveira Dias, que pertenceu ao executivo do dr. Fernando Gomes.

Também houve grandes espetáculos de teatro amador! Fez-se, uma altura, no Palácio uma coisa grandiosa, o “Animar o Associativismo”.  O “Cantar das Janeiras” foi retomado na cidade por nossa iniciativa. Agora não sei se há. Se há, não fomos convidados.

 

Mas vocês ainda percorrem as ruas da freguesia do Bonfim?!

Neste momento só percorremos as artérias da freguesia do Bonfim, depois de uma iniciativa do atual executivo da Junta em recrear esta tradição.

 

A juventude adere às iniciativas do Rancho Folclórico do Porto?

A juventude de agora é muitíssimo mais ocupada que a do meu tempo. É curioso, não é? Depois é uma juventude desmoralizada, porque essa história do desemprego é dramática. Aliás, não só o desemprego, mas também o emprego precário! Isso tira motivações…

 

…mas o Rancho poderia ser o tal “cano de escape”.

Seria e eles poderiam e deveriam enveredar por aí, porque é libertador. Temos dois mocinhos com menos de vinte anos e de resto é de vinte e muitos para cima. Já há uma grande quantidade de 60 e 70 anos.

 

 

Um “embaixador” sem dinheiro

 

 

O Rancho Folclórico do Porto é, no fundo, um grande embaixador da cidade um pouco por todo o mundo.

Presentemente não, porque não há dinheiro para ir a qualquer lado! Mas, já estivemos no México, no Brasil, na Rússia, na China, no Egito, na Grécia, Itália, Alemanha, França, Inglaterra… uma quantidade de países onde levamos a nossa mensagem, mensagem essa que era muito apoiada por quem nos via e ouvia.

 

Mesmo pessoas que não entendiam a língua, que não estavam ligados a países lusófonos?

Sim. Em países da lusofonia só estivemos no Brasil. Mas eles percebem a nossa mensagem, porque quando vamos a algum país, levamos o nosso programa traduzido na língua local. Cada número é explicado antes de ser executado.

 

Isso dá muito trabalho?

Dá trabalho. Um trabalho que tem de ser pago!

Por exemplo, da última vez que fomos à Grécia, foi uma pessoa da embaixada grega em Lisboa que fez a tradução.

 

E a Grécia pagou nessa altura?

(risos) Quando vamos a algum lado não nos pagam! A dormida e a comida é garantida pelo país que recebe, já o transporte tem de ser da nossa conta. Presentemente, não há dinheiro. Há dois anos que não há contratos e não vamos a qualquer lado.

 

E, muito mais difícil, será viver tendo em conta a atual crise?

Não é difícil é frustrante! Uma associação qualquer tem sempre momentos altos na sua vida e se não os realiza fica… frustrada.

Nós temos o momento do nosso aniversário – que para alguns pode ser um luxo, mas não é! É o momento em que convidamos os nossos amigos; aqueles que ao longo da nossa existência sempre nos apoiaram – , mais o convívio anual dos componentes – que não fazemos há uns anos por falta de dinheiro -, e digressão cultural.

São momentos de entusiasmar .

A digressão cultural já há dois anos que não fazemos. Temos muitos convites só que não há dinheiro para pagar as viagens.

Se fosse para Europa, tudo bem, sempre se conseguiria, mas, presentemente, o que se passa com o folclore na Europa é que os grupos convidam e nós temos que pagar…. tudo! Para isso íamos de férias!

 

 

Mas, não se resignaram?

Não! Não nos resignamos. Nós temos esperança que esta crise que o mundo atravessa irá passar e o bom tempo voltará.

 

 

“O Porto está porco!”

 

 

E se uma das referências do Rancho do Folclórico do Porto, que é a freguesia do Bonfim, como autarquia, deixe de existir ao abrigo do Documento Verde, sem que ela obedeça a todas as exigências do Memorando da Troika?

Espero que não acabe. Mas se a freguesia do Bonfim acabar, para mim, acabam todas freguesias. Serei sempre da paróquia do Bonfim!

Mas, não acredito que a freguesia do Bonfim seja extinta.

 

E como está o Porto, o Porto de que tanto gosta?

O Porto cidade?

 

Sim?

O Porto que eu sinto não está mau de todo, porque temos uma projeção internacional fantástica. Agora, em termos de atividades culturais, no que concerne às coletividades, está fraco. Não há!

 

Não será também por culpa das próprias coletividades?

Não sei. Sabe que as coletividades não tendo apoio… morrem! A nossa Câmara nada subsidia. Antigamente, tínhamos bastante apoio. Aliás, só com esse apoio é que foi possível editarmos os CD que já editamos…

 

…mas, o Rancho Folclórico do Porto nunca foi uma instituição autista. Esteve sempre aberta à comunidade.

Deu tudo à comunidade. A nossa razão de ser é a comunidade!

 

Só que há coletividades que não são assim. São autistas, vivem entre quatro paredes e a olhar, permanentemente, para o umbigo…

Pois, mas não é o nosso caso.

 

 

Independentemente desse facto, e regressando ao Porto de projeção internacional, a Casa da Música, de Serralves e outras instituições do género ajudaram a essa boa imagem além-fronteiras…

Pois, são grandes ícones e só temos que nos sentir felizes por isso. Mas, há outras coisas muito tristes de ver: a porcaria nas ruas! Não quero culpar ninguém estou somente a constatar um facto!

O Porto está porco!

A culpa não é só da Câmara é também das pessoas.

Tinha-se que fazer campanhas para a limpeza, como se fez no tempo do engenheiro Oliveira Dias, e nas escolas a ensinarem os meninos pequeninos a serem civicamente limpos.

 

A propósito repugna-me quando alguém cospe para o chão. Não sei se a “agressão” é direcionada a mim. Indiretamente é!

É verdade. A primeira coisa é não cuspir para o chão!

 

 

“O fado não é de Lisboa. É de Portugal!”

 

 

Quais são as perspetivas do Rancho Folclórico do Porto para futuro?

Permanentemente, preparamos trabalhos. É um motivo para estarmos vivos! Neste momento estamos a preparar as comemorações do nosso 30.º aniversário, que se intitula “O Porto no Canto da Música e do Teatro dos 30 anos do Rancho Folclórico do Porto”. Vamos fazer um trabalho em que reunimos tudo aquilo que fazemos, desde o folclore às reconstituições históricas – os casos das invasões francesas, das Lutas Liberais e da Implantação da República e, depois, a reconstituição do Fado do Porto, que é algo que muita gente não sabe que existe. Toda a gente pensa que o fado nasceu em Lisboa, e não nasceu coisa nenhuma! O fado nasceu em Portugal!

 

Ai sim?!

Claro que o fado, em Lisboa, teve uma dimensão que não teve em mais lado algum, até por uma questão de interesses materiais. Há muitos anos que muita gente vive do fado de Lisboa.

O que é o fado? O fado, disse um especialista, é a melancolia dos romances feita melodia. O que é que isto quer dizer?

Os romances eram aquelas histórias que, normalmente, os cegos contavam de terra em terra, acompanhadas de música. Eram, quase sempre, coisas tristes e há muitos e lindíssimos fados:  “O Conde Alberto” ou “Nau Catrineta”. Há muitos romances.

Isso evolucionou para um outro tipo, nada é estático… tudo vai caminhando e, neste caso, caminhou para o fado. O fado em todo o país e não só em Lisboa.

 

Por exemplo, aqui no Porto, o fado era muito marcado pelo canto lírico. Porque aqui, desde o século XVIII, havia teatro lírico que era no “Corpo da Guarda” , no antigo e já inexistente Palácio Visconde de Miranda. Depois como o teatro era pequenino e não satisfazia a crescente audiência, fez-se o Teatro de S. João. Não este, foi o anterior que acabou devido a um incêndio. Depois é que se fez o atual.

Portanto, no Porto houve sempre muitos teatros…

 

…um dos quais existia na atual Rua 31 de Janeiro, o “Baquet” que também incendiou-se, ou incendiaram-no…

Foi trágico! Sabe que o António Baquet, que deu nome a esse teatro, nasceu no Bonfim?! Portanto, tínhamos o “Baquet”, o “Príncipe Real” – que é agora o Sá da Bandeira -, o “Garrett”, no Palácio, e muitos outros.

E essa vivência de canto lírico na cidade influenciou o modo de cantar fado no Porto.

 

Interior da sede do Rancho Folclórico do Porto

 

Situamo-nos no século XVIII, princípios do XIX?

Sim. Depois há uns teóricos que o fado teve a influência do Brasil e de África. Não teve coisa nenhuma! E alguns ainda dizem que…

 

…teve a influência do tango da Argentina?

Não. Do tango, não! Dizem que teve influência do Flamenco, o que também não é verdade. O fado é, de facto, a evolução dos antigos romances.

 

Não está associado aos marinheiros?

Também, porque os romances contam essas histórias.

 

O fado está mais enraizado em cidades do litoral, não só Lisboa e Porto, mas também Coimbra.

Pois, e a canção de Coimbra também é fado, só que tem outras características!

Em Coimbra e Lisboa o fado caminhou por aí em diante e no Porto não.

Aqui, no Porto, a única entidade que se interessou pelo seu fado foi o Rancho Folclórico do Porto, que, a propósito, editou um CD.

 

E é um fado com guitarra e viola?

É. Inicialmente não era, mas depois acaba por ser. E também é melancólico, mas mais alegre que o de Lisboa, e não contava aquelas desgraças todas. Contava as coisas do dia-a-dia de modo mais alegre.

 

 

 

Os “Carcundas”

 

 

Acha que a cidade do Porto, a sua região, e sendo ela considerada capital do noroeste peninsular, tem perdido a sua identidade nos últimos anos?

Sim. Na medida em que o Porto vai perdendo as suas valências… vai perdendo identidade. Quantas administrações de empresas estão sediadas no Porto? Está tudo para Lisboa.

 

Há uns anos atrás, e não muitos, o Porto era o motor da economia nacional.

Ora bem! Deixou-se ir tudo para a capital, e Lisboa com aquela boca voraz… comeu tudo!

Não são os lisboetas! O lisboeta é capaz de ser mais infeliz que nós. Veja que eles têm de percorrer quilómetros e quilómetros para ir trabalhar. Nós, nesse aspeto, estamos melhor que eles. E a vida que há em Lisboa – aliás uma cidade muito bonita e da qual gosto muito – só é possível porque é a capital. Quem sustenta Lisboa é a população flutuante.

Você vai para Lisboa para tratar de algum assunto, não vai e vem, vai dormir lá. De noite não vai logo para a cama… vai, por exemplo, a uma casa de fado, ao teatro ou à ópera. É essa população flutuante que sustenta aquilo tudo!

 

E por falar no Porto como motor da economia nacional, não me posso esquecer da Revolução Industrial que, teve cá, em meados do século XIX, o seu berço, e que o Rancho Folclórico do Porto, como poucos, retrata isso…

…e a freguesia do Bonfim nasce disso.

 

Hoje, vemos todas essas indústrias, essas empresas, esqueléticas … só lhes resta, em alguns casos, a fachada, já que noutros já tudo foi demolido.

Felizmente que, em alguns casos, aproveitaram as fachadas para fazerem moradias por dentro.

 

Mas quem vive a cidade, que a estuda, como é que reage a esta situação?

Por um lado nostalgia. Por outro, penso que não podemos nos por diante do comboio quando ele vai em andamento.

 

Temos de estar num apeadeiro à espera que chegue o TGV?

(risos) Temos é de lutar sempre pela vitalidade da nossa cidade.

 

 

“Salazar não foi gatuno, mas atrofiou-nos”

 

 

Os tripeiros eram gente de fibra, não eram?

Eram… eram! Tudo está tão centrado em Lisboa que as pessoas vendem-se. No tempo das lutas liberais, de 24 de agosto de 1820 até 07 de setembro de 1847, as pessoas iam daqui para Lisboa e vergavam logo a cabeça. Chamavam-lhes os “Carcundas”! E hoje é o mesmo!

Mas, eles não têm alternativa: ou vão, ou, caso contrário, morrem na miséria. Por quê? Porque está lá tudo!

Um músico, aqui no Porto, para produzir tem muitas dificuldades.

 

E isso também não foi culpa do Porto?

Não sei se foi culpa nossa, porque as coisas são como são. Tenho um amigo político que me dizia que para crescer na política tem de se ir para Lisboa.

 

Aqui não há tachos?

Aqui há tachos pequeninos e lá há tachos grandes. Aqui há tachos nas autarquias, até nas juntas de freguesias há tachos.

 

É um regionalista ou um municipalista?

Sou um regionalista. Nós temos de defender a nossa Região!

Com a Regionalização, o número de tachos não aumentarão?

Não. A ideia não é a de aumentar os tachos. A ideia é ter mais verbas para desenvolver a região. Assim que concebo a regionalização.

É claro que há sempre os oportunistas que se aproveitam de tudo. Há pessoas para tudo. Há gente capaz de abraçar o amante da mãe! Mas, a regionalização nada tem a ver com tachos.

 

 

E o desenvolvimento cultural vinha por arrastamento…

…claro!

Repare nos dinheiros que se gastam em Lisboa, e os que se gastam no resto do país. Aquelas derrapagens que há em Lisboa… eles não processam.

Eles são muito mais bairristas que nós. Veja o apoio que as sucessivas câmaras dão ao Benfica e ao Sporting. E aqui no Porto? Isso passa-se? E em Braga? E em Guimarães?

 

Embora em Guimarães e em Bragas as coisas sejam um pouco diferentes, no Porto a situação, nesse aspeto, agravou-se. Isto é um facto.

Pois. Infelizmente!

 

O que falta ao Porto, tendo até em questão a ação de limpeza que há pouco falou? Não nos podemos esquecer que a cidade Invicta é, cada vez mais, procurado por turistas de todo o mundo, muito também à custa dos voos de preço baixo. O Porto é uma já uma referência turística mundial incontornável. Mas, os turistas deparam-se com lojas fechadas, com prédios devolutos… eles devem mesmo gostar muito da nossa cidade.

O Porto é um bom destino e melhor seria se se atacasse a limpeza e a segurança. Mais polícia e mais limpeza!

Repare o seguinte: eu não ando sozinho à noite na rua. No tempo do fascismo não havia medo de andar na rua. Mas, o fascismo que houve é bastante culpado da atual situação que vivemos.

 

Quando as pessoas vêm para aí dizer que precisávamos, não de um, mas de vinte Salazares, para por isto direito é de lamentar, mas há aí um fundo que é de respeitar, é que o Salazar não foi gatuno.

Ninguém aponta riquezas do Salazar ou da sua família. Não se governou, mas que diabo… atrofiou-nos!

A gente não poder falar… porquê?

Não haver liberdade de partidos… porquê?

Deus nos livre de um outro Salazar!

Mas que o homem foi sério… foi!

E tinha sentimentos patrióticos. Ele nunca largou mão das Colónias. O que foi uma coisa má, porque os povos deviam ter, como têm, direito à sua autodeterminação.

Mas, repare, a Espanha nunca perdeu de vista o facto de nos vir a anexar Portugal… de nos engolir!

Assim, Portugal com as suas Colónias era uma força. Esse era o ideal de Salazar. Está errado? Não, não está!

 

E você foi para a guerra, em Moçambique, cantando e rindo?

Fomos cantando e rindo. Mas, quando cheguei lá vi a realidade, e tive logo a ideia que aquilo era uma questão de tempo.

 

E na tropa não punha aquela gente toda a cantar?

(risos) Não dava muito para isso. As preocupações eram de outra ordem! Mas não me esqueço de uma ocasião, em que estava a fazer um patrulhamento na minha secção – eu era furriel -, e no meio de uma “picada” estava um pau com um letreiro.

Vieram os estafetas para ver se havia qualquer tipo de emboscada, eles viram que nada havia, e eu peguei no papel que dizia o seguinte: “soldado português, vai-te embora! A Nossa Senhora de África zela por nós!”

Era um ideal.

Podíamos ter vindo de lá de outra maneira. Muito antes!

 

 

 

“Só a Câmara é que pode organizar uma grande festa de folclore na cidade do Porto”

 

 

Mudando de assunto. Quais sãos os autores das músicas e das letras do Rancho?

O Rancho Folclórico do Porto, propriamente, não tem autor. Bem, isto passa-se da seguinte maneira: na vida tudo tem autor. Diz-se: “o povo criou”, mas o povo não criou coisa alguma! Há sempre uma pessoa que cria, mas que, entretanto, perdeu identidade, e a cantiga vai passando de pessoa para pessoa.

 

E vocês preservam também a etnografia, e a cidade do Porto perdeu o seu Museu de Etnografia…

Ele ainda não acabou! O primeiro nome que ele teve foi o de Museu Etnográfico do Douro Litoral, funcionava no Largo de S. João Novo., em frente ao Tribunal, Depois mudou de nome, e depois houve gatunos que levaram o espólio para outros museus…

 

Gatunos?!

Pois, são gatunos! Os franceses foram uns gatunos que andaram por aí a roubar as nossas coisas para as levar para o Louvre. Mas também alguns portugueses nos roubaram e ainda andam a roubar… não foram só os franceses!

Esse museu está fechado, está a cair aos bocados e é uma pena!

 

O Rancho Folclórico do Porto também fez um atento e exaustivo estudo sobre os trajes…

…é a minha mulher quem o faz. A consulta parte pela documentação escrita. O Alberto Sousa fez um trabalho fabuloso, que se chama “O Traje Popular em Portugal – Séculos XVIII- XIX” , e é a partir desse e de outros livros que reconstituímos. Mas, com o passar dos anos verificamos que há erros, e temos que os retificar.

 

E, por certo, através de fotografias antigas…

… exatamente!

 

Tudo isto traduz-se numa verdadeira paixão?!

Sim, sem dúvida.

É uma fatalidade orgânica! A pereira dá peras, a videira dá uvas e nós damos isso.

Olhe!

Eu adorava, por exemplo, que, aqui, no Porto, se fizesse uma grande festa de folclore, mas com a organização da Câmara, porque é só a autarquia que tem condições para organizar um evento desses.

Quando vamos ao estrangeiro são sempre as câmaras que organizam os festivais… não é nenhum grupo!

Recordo-me – e não vou dizer nomes-, que estivemos, uma ocasião, na China, com um grupo russo, e esse grupo russo veio depois cá a Portugal. Nos estivemos com esse grupo e eles lamentaram as condições das instalações que tiveram em Portugal.

 

Eram fracas?

…sim.

Uma ocasião, convidaram-me para assistir a um festival, e a meio do percurso faltou a comida. Se fosse a Câmara a organizar, isso nunca aconteceria.

Nós já convidamos vários grupos estrangeiros, quando no Porto havia participação das coletividades nas festas de S. João; a Câmara dava-nos um subsídio, e íamos a vários freguesias levar os grupos. Agora não há dinheiro para isso…

Já imaginou o que era na Ribeira, durante os meses de julho, agosto e setembro, uma vez por semana, atuarem grupos folclóricos?

Nós já o fizemos no Mercado Ferreira Borges, quando era o Mercado Ferreira Borges!

 

Isso já foi há uns aninhos?

Ainda era presidente da Câmara o doutor Fernando Cabral, veja lá há quantos anos vai.

 

Quais as melhores recordações depois de tantos anos de atividade?

Há tanta coisa. Uma sensação maravilhosa que tive, foi quando, uma vez, fomos a Paris, e estar debaixo da Torre Eiffel, e dizer: estou aqui! E outra, estar à beira do rio Nilo e ter entrado na pirâmide de Gizé. Foi uma sensação única! Na China fiquei impressionado com a muralha.

 

Você foi à “mu” porque a “ralha” é enorme…

…(risos) é verdade!

 

 

“O Porto tem de ser sempre atlântico…”

 

 

O folclore que vocês apresentam não é tão dançante?

É dançante, não é trepidante! Quando você vir um grupo de folclore aos pinotes em cima de um palco… aquilo não é folclore! A dança sempre foi suave… serena. Quem é que aguentava aquilo?

Uma ocasião tive a felicidade de conversar com duas grandes personalidades do folclore: Ernesto Veiga de Oliveira – já falecido – e Benjamin Enes Pereira – que ainda é vivo. Então o Benjamim disse; eu sou do alto Minho e quando vou a minha terra e vejo aquele tipo de folclore, fico arrepiado. Eles andam aos pinotes! Há cem anos atrás, quando o folclore foi inventado, as pessoas passavam noites inteiras a dançar, como é que aos pinotes, como eles agora fazem, se aguentava dançar uma noite inteira? Impossível!

 

Os trajes do Porto são comuns ao do Minho?

Há muita coisa que é comum. Portugal é pequenino…

 

Acha?

É. Se um dia se dedicar a ler os cancioneiros verificará que há coisas engraçadas. Por exemplo, na Alemanha uma cantiga que nasça com uma determinada letra pode ser cantada em cinquenta lugares, mas é cantada com a mesma música e com a mesma letra, em Portugal, não é assim, Você vai ao Minho, ouve uma quadra, cantada com uma determinada música, vai a Trás-os-Montes vai encontrar a mesma quadra com outra música, e por aí fora.

 

Isso é interessante…

…é engraçado! É a nossa característica! Nós fomos um povo de trabalhadores por fases sazonais. Muitas pessoas que residem no Porto vieram de fora. No bairro do Nicolau, na freguesia do Bonfim, e até na Lomba, muita daquelas pessoas vieram do Alto Douro e trouxeram as suas cantigas e as suas danças.

Quando ouvir folclore e lhe disserem que isto, por exemplo, é do Minho… não acredite! Ninguém sabe de onde é!

 

E há os contos…

Há contos lindíssimos.

 

Vocês estão também atentos a esse pormenor?

Claro. Sabe que o folclore vive da interdisciplinaridade de muitas ciências. Não se pretende saber tudo de tudo, mas quando se sabe um bocadinho de alguma coisa já uma felicidade.

Na verdade, o folclore obriga a pesquisas e a aprender muita coisa!

 

O Porto sempre foi uma cidade virada para o mundo?

Sempre foi. Lisboa ainda não era uma cidade em condições, e o Porto já fazia negócios com a Flandres. O Porto tem de ser sempre atlântico, não pode ser europeu.

O Porto sempre foi atlântico… teve de se expandir! Aliás, Portugal é Portugal pela sua ligação ao Atlântico. Nós perante a Europa fomos sempre pequenitos. Fomos sempre explorados pelos ingleses e sempre nos tivemos que aliar a eles, porque, caso contrário, os espanhóis comiam-nos…

 

…e os franceses.

E os franceses!

 

O Porto deve virar-se para o Atlântico!

Sim, mas também para a Europa, uma vez que o Porto é a primeira cidade europeia de Portugal. É preciso manter esse espírito aberto e aplaudir o FC Porto.

 

Texto: José Gonçalves

Fotos: António Amen

 

 

 

 

 

 

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1 Comment

  1. José M Tavares Rebelo

    Gostei da entrevista a António Fernandes. Dela transparece um homem e um grupo que colocam paixão e seriedade no trabalho pela sua cidade cultural, desprezando capelinhas.
    Que continue a sua luta por muitos anos.
    José Manuel Rebelo

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