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(Des)encontro de Gerações

Maria de Lourdes dos Anjos

 

Com quinze anos eu era uma menina feliz, responsável e respeitada. Era a menina mais nova do senhor Armindo e da Adelaidinha. Vivia na casa onde nasci, na cidade do Porto e acreditava que o mundo era a minha rua ou apenas mais uma avenida ou um jardim.

Preparava a minha entrada para a escola do magistério do Porto e ansiava que o sábado chegasse para, no fim das aulas, correr pela rua de Pinto Bessa até á estação de Campanhã, para apanhar a automotora das 16h que me levava até Estarreja .

Depois nem olhava para trás com medo que a minha mãe se arrependesse da autorização dada e o comboio partisse sem mim.

 

 

 

 

Ao avistar os enormes tanques do “Amoníaco”, pegava no saco, apertava-o contra o peito para que o coração não saltasse com o comboio em andamento e colava o nariz no vidro até poder abrir a porta mágica da carruagem.

Da estação até Salreu era uma caminhada em passo largo para aproveitar o tempo de liberdade que a minha avó me dava. Uma liberdade condicional mas tão saborosa que começava logo no tirar os sapatos e ser cachopa da terra.

Beber um púcaro de leite diretamente das tetas da vaca com direito a bigode branco e uma sonora gargalhada da minha madrinha. Comer sopas de vinho muito docinhas, dormir com a minha avó e correr pelo “aido” como um potro selvagem que quer agarrar o vento.

 

Depois, tudo terminava quando, no domingo, ouvia o carro do meu pai parar em frente da porta e eu voltava  ser a menina com pulseira eletrónica que se devia de comportar como uma estudante  e ter por isso muito mais responsabilidade em todos seus atos.

E lá encontrava sempre os olhos cheios de azul, de cumplicidade, de silêncio, de ternura, da minha avó nos momentos mais difíceis. Quinze anos de alegria para mim e de esperança num futuro menos escravo que os meus pais me ajudaram a construir.

No tempo dos medos e das palavras por dizer, tudo era, à minha volta, um jardim que havia de florir em cada dia do ano.

Com trinta anos, era uma mulher feliz, com um filho de olhos cheios de luz e uma Pátria renascida para a liberdade.

Trabalhava numa zona muito difícil da cidade do Porto e acreditava que o futuro estava nos homens e nas mulheres que eu preparava para viverem sem algemas, com obrigações e direitos escritos nos muros da cidade e assinados com todas as letras de Verdade e Paz.

Já não era a menina vestida de sonho, mas a mãe que trazia consigo a palavra que valia como uma escritura feita no tabelião e os braços prontos para pegar nas armas que tinha e lutar por um país onde as cédulas pessoais das crianças não tivessem aquela frase que magoava a ouvir e a ler: Pai Incógnito.

 

Lutei por um país que não tivesse que ver partir os seus jovens para uma guerra por explicar e depois receber alguns deles numa caixa de pinho. Lutei contra a droga, a violência, qualquer  que fosse, contra o trabalho infantil, contra o poder que, instalado na capital, fazia do Norte um gueto de escravos, saloios  e analfabetos. Lutei, lutei, lutei!

 

Aos quarenta e cinco anos era avó.

Segurei nos braços aquele pedaço de mim e jurei que, um dia,  ele teria tantas saudades minhas como eu ainda tinha da minha avó de olhos azuis e alma branquinha.

Sei que consegui quase todas as metas que me propus atingir, até essa…de ser uma avó de cumplicidades e saudades.

Hoje, aos sessenta e dois, com pouca saúde mas muita vontade de viver e morrer lúcida, continuo, como aos 15 anos, a ser responsável, como aos30, a ser feliz e, aos 45, a abrir os braços para os outros netos que, entretanto, foram chegando.

 

Mas, porque  despedaçaram o meu país, roubaram o futuro dos jovens, rasgaram  o lençol remendado dos velhos, destruíram as palavras que com tanto sacrifício escrevemos nos caminhos de Portugal.

Hoje, começo a temer que as creches dos meninos e os lares que acolhem e mimam as velhas raízes das nossa vidas, não possam continuar de pé.

Temo que o meu filho não tenha direito a uma reforma no fim da sua vida de trabalho, temo que os novos continuem a partir  e os velhos fiquem sós e sem lenços para acenar na hora da partida. Temo que a guerra financeira que vivemos nos sufoque sem dó nem piedade e nem sequer nos permita um último suspiro.

Resta-me a alegria de ainda ter forças para agradecer  aos que, respeitam os nossos velhos, dando-lhes  colo e sarando as feridas que as chicotadas sucessivas da vida lhes fizeram.

 

Não quero ser um fardo nas costas de quem amo, tenho direito a escolher o meu último espaço para viver com dignidade.

Confiei o dinheiro que me foram exigindo ao longo da minha carreira profissional, nas mãos do Estado, cumpri com todos os meus deveres, tenho por isso, direitos

Rejeito esmolas.

Exijo que cumpram o contrato que comigo fizeram no ano de 1968.

Temo o futuro, o meu, o vosso, dos jovens que hoje contam 15 anos e que falam apenas  das banalidades com que fazem o seu modus vivendi, dos que contam 30 e ainda não sabem com quantas tábuas se constrói uma canoa, dos que tem 45 e estão na vida sem conseguir viver e de todos os outros que nasceram livres e hoje estão algemados ao poder financeiro que sufoca os povos, e comanda  os dias amargos dos  portugueses.

 

Temo que este nobre povo tenha que voltar a pedir esmola para dar a sopa aos mais frágeis. A  minha geração ainda viveu, sonhou, provou o sabor de alguma felicidade.

Os outros, onde irão cair?

Talvez se fiquem pela escadaria de S. Bento pedindo esmola ou na porta de qualquer igreja com uma lata que lhes sirva de malga.

 

 

É tempo dos Zés, dos Silvas, dos Limas e comandita abrirem o manto e oferecerem rosas aos novos mendigos que fabricaram.

Talvez as novas gerações agora se encontrem com aqueles onde a sardinha se dividia por três.

 

 

 

Memória

 

 

Como quando era menina
Penteia-me, devagarinho, com a tua mão
Para eu adormecer, ensina-me uma oração
Fala-me de gente com feitiço que corria fado
Dos tempos frios e difíceis do teu passado
Dos filhos que carregaste no regaço
Do caminho percorrido passo a passo
Do pão azedo que o diabo amassou
E das lágrimas que o teu rosto enrugado secou
Enquanto falas, espreito para dentro dos teus olhos clarinhos
E, desfaço-te a longa e grossa trança de cabelos branquinhos
Dizes então, só para me experimentar,
Que não queres que te volte a abraçar
Porque cheiras a velhice e a bafio!…
E eu beijo-te muito enquanto tu ris e eu rio
Então, chamas-me baixinho, à tua maneira,
Cachopa mimalha, netinha tripeira.
Ai como sabe bem recordar,
A tua voz, o teu sorriso, o teu olhar.
Tão curto foi o meu tempo de criança,
Tão cedo carreguei a pesada herança
Da saudade que a minha avó me deixou…
O meu tempo d)envelhecer chegou veloz
E, nos lábios dos meus netos, oiço agora a minha própria voz

 

 

 

Em julho vou andar, por aqui, a semear poesia

 

DIA 4 – BIBLIOTECA DA MAIA, 21h30

DIA 6 – LAR DA FONTE DA MOURA, 21h00

DIA 7- A CASA ESTÁ EM FESTACASA DA CULTURA DE PARANHOS-16h00

DIA 7 – CENTRO RECREATIVO DE MAFAMUDE-21h30

DIA 20- FLOR DE INFESTA,21h30

DIA 21- GALERIA VIEIRA PORTUENSE LARGO DOS LÓIOS-17h00

DIA 21- CASA DE TRÁS-OS-MONTES, 21h30

 

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2 Comments

  1. Lourdes dos Anjos

    Muito obrigada Pedro Martins pelo seu comentário.Nunca pensei chegar aos 62 anos preocupada com tanta miséria moral e social e sobretudo tendo o gosto amargo de viver numa falsa liberdade, numa democracia feita de anões, num PORTUGAL sem rumo e sem identidade.

  2. Pedro Martins

    Isto tu me assusta. Se não fossem,em boa verdade, os pais e até os avós o que seriam hoje dos nossos filhos e netos, e o que a eles reserva o futuro?
    Estou com receio, quanto mais ao saber que não se sabe o que nos guarda o futuro.
    Isto vai de mal a pior.
    Parabéns pela sua peça.

    Pedro Martis (Seixal)

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