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Um pouco de história

Lúcio Garcia

 

 

 

 

 

Parte 1A Europa

 

1981. Ronald Reagan governava nos Estados Unidos e Margaret Thatcher em Inglaterra. Foi o tempo de mudança dasC políticas económicas que nos conduziram aos dias de hoje. Adeptos fervorosos das políticas económicas de Friedrich Hayek e Milton Friedman, que personificavam o que veio a ser conhecido, pela Escola de Chicago.

Estas teorias, conduziram ao liberalismo e ao monetarismo, à total desregulamentação do mercado financeiro por acreditarem que o mesmo se regularia de forma automática.

 

Thatcher, acabou com o salário mínimo em Inglaterra. O serviço nacional de saúde, na altura talvez o melhor do mundo, sofreu um revés de que ainda hoje não recuperou. Os transportes e vários outros serviços de utilidade pública foram privatizados.

Os valores baixos destas privatizações, resultaram numa transferência líquida de 14 mil milhões de libras dos contribuintes para os acionistas privados, somados mais 3 mil milhões em comissões aos banqueiros que negociaram as mesmas, o total cifrou-se em 17 mil milhões de libras, aproximadamente 20,5 mil milhões de euros equivalentes ao produto interno bruto do Paraguai.

 

As parcerias público privadas ( PPP) nasceram nesta altura. Quem comprava, ficava com a garantia de que se algo corresse mal o Estado acarretaria com os prejuízos. Uma das primeiras medidas de Thatcher foi acabar com a distribuição gratuita de leite nas escolas.

As políticas socias eram para esquecer.

A ideia que rodeia esta atitude é a de cada um por si. Segundo explicações de Thatcher, disponibilizar, universalmente, a segurança social é um disparate, se os trabalhadores não estiverem desesperados, porque terão de trabalhar?

Esta ideologia económica, tenhamos presente, é a mesma do atual governo português de Passos Coelho e Vítor Gaspar.

 

Estas políticas trazem-nos aos dias de hoje.

A desregulação dos mercados financeiros e a escandalosa baixa de impostos aos mais ricos, acabou por dar voz a milionários americanos afirmarem que o Estado lhes devia cobrar mais impostos.

A alta finança hoje, não tem rosto. As agências de rating e os mercados financeiros sobrepuseram-se à política. Entraram em roda livre e sem qualquer controlo. A ganância tornou-se rainha. A crise do subprime, em 2007, nos EUA, levou à falência bancos gigantescos, como o Lehman Brothers entre outros.

A possibilidade de uma crise sistémica, entendida como uma interrupção de pagamentos a nível global, era evidente. Muitos economistas consideraram esta, a maior crise desde 1929.

Esta crise deu origem em 2008, a uma grave crise económica que ainda hoje se mantém. Para obstar a esta crise, foram feitos enormes investimentos para salvar os Bancos e a economia.

Obviamente com o dinheiro dos contribuintes.

 

Na Europa, a ordem inicial foi a do investimento para salvar a economia e o emprego. Toda a Europa seguiu estes passos. Acontece é que os países com economias mais vulneráveis, quando tiveram que enfrentar a crise, padeceram fortemente. A falta de um tecido empresarial forte e pouco industrial foram determinantes. Os especuladores, que perderam tanto dinheiro com a crise anterior, secundados pelas agências de rating, atacaram as dívidas soberanas dos países europeus e não só.

A crise das dívidas soberanas instalou-se.

Já antes destas crises, que a Europa é liderada pelos partidos da direita conservadora. No Parlamento Europeu, e em todos os órgãos de decisão, é a direita que mantém o poder. De um dia para o outro, as dívidas soberanas tiveram que se pôr em ordem. Melhor dito, a Alemanha que se fartou de vender produtos e armamento aos países do sul, aumentando-lhes a dívida, quis meter na ordem as finanças públicas dos países do Euro através de uma política de austeridade selvática, custe o que custar. (onde é que eu já ouvi isto?).

Com a cumplicidade da França de Sarkozy, foi possível ,até agora, impor esta política. O resultado está à vista.

 

O desemprego grassa na Europa, os egoísmos nacionais aumentam a cada dia. O Euro encontra-se em sério risco e com a sua derrocada a própria união politica europeia. Os extremos políticos ganham cada vez mais força na Europa, atente-se ao que se passa na Grécia.

Sem qualquer vislumbre de crescimento, nunca será possível a Europa sair da crise e muito menos os países que estão sobre assistência financeira. Os juros usurários que lhes são cobrados tornam impossível cada vez mais, honrar compromissos.

A continuar esta política, o abismo será inevitável.

É do mais elementar bom senso.

As instâncias europeias não foram capazes de se impor à vontade do eixo franco-alemão. Estes decidiram e decidiram mal. Cortaram à Grécia a possibilidade se reerguer, atrás foram a Irlanda e Portugal, na calha está a Espanha, a Itália, a própria França e por arrastamento toda a Europa.

 

Corrigir as contas públicas é um imperativo de bom senso, mas para tal, é necessário e, em paralelo, políticas de crescimento e de emprego, caso contrario como se vai pagar o que se deve e como se gera riqueza para o fazer?

É tempo de por cobro a esta situação insustentável. O povo europeu tem que se livrar desta politica e desta direita, agora sim, custe o que custar.

 

 

Parte 2O Tratado de Versalhes e suas consequências.

 

 

1919 – 28 de junho, foi assinado o Tratado de Versalhes –  foi um Tratado de Paz na sequência do Armistício de Novembro de 1918 e que encerrou a  I Grande Guerra. O seu principal ponto, determinava que a Alemanha assumisse todas as responsabilidades pela mesma.

O eminente economista e filósofo John Maynard Keynes, foi nomeado delegado-financeiro para a conferência de paz que teve início em janeiro de 1919.

No seu primeiro memorando, Keynes apontava um limite para as exigências das reparações de guerra que a Alemanha teria que pagar. Era importante que a Alemanha se tornasse num país solvente e não se destruísse as capacidades produtivas, caso contrário estrangular-se-ia a fonte de rendimento que possibilitaria a Alemanha pagar.

Inicialmente falou-se de 4 mil milhões de libras, no entanto, a solvência da Alemanha foi estimada em 3 mil milhões, pelo que um pagamento de 2 mil milhões foi considerado correcto.

 

No entanto os Aliados e principalmente os Americanos, não aceitaram estes valores, o Tratado de Versalhes foi assinado e foi constituída uma comissão para estabelecer as indeminizações a pagar pela Alemanha. Keynes ainda tentou aliviar esta situação, mas acabou por se afastar, ninguém lhe deu ouvidos. Só em 1921, esta comissão acabou por estabelecer uma quantia. A Alemanha teria de pagar 132 mil milhões de marcos-ouro, aproximadamente o triplo do seu produto interno bruto antes da guerra.

Resultado: a Alemanha nunca pôde pagar esta quantia.

No final das reparações em 1932, em Lausanne, a Alemanha só tinha pago, entre 22 a 30 mil milhões de marcos-ouro, dos quais, apenas um terço foi pago em dinheiro.

 

1929, a crise financeira nos USA, alastra a todo o mundo, a Alemanha debilitada e humilhada, é palco fácil para os demagogos. Hitler apela ao sentimento de orgulho nacional ofendido pelo Tratado de Versalhes, inicia-se a sua ascensão ao poder. Em setembro de 1930, elege 107 deputados com 18 por cento dos votos.

Com o crescente desemprego e a destruição da classe média, tudo se conjuga.

Em 1932, com 234 lugares, o Partido Nazi é o maior partido da Alemanha. Em 1934, o presidente Hindenburg morre e Hitler apodera-se do lugar, fundindo os dois cargos: o de presidente e o de chanceler, autoproclamando-se líder, (Führer). A história seguinte, é a da Guerra, com um resultado de mais de 70 milhões de mortos.

 

 

Parte 3 – O pós Segunda Grande Guerra

 

 

1947 – No final da II Grande Guerra, os americanos parecem ter aprendido com o erro brutal que foram as exigências de reparações de guerra exigidas aos alemães na I Guerra Mundial. Desta vez, foi acionado o chamado Plano Marshall, conhecido como Programa de Recuperação Europeia.

Para esta reunião, também foram convidados a União Soviética e os países de Leste, mas Stalin não aceitou por ver nele uma ameaça.

Claro que a ajuda americana não foi de todo inocente, ela assentava no pressuposto de que a recuperação económica da Europa, afastasse o espetro comunista da tentativa de poder, o que veio a acontecer.

Nos anos seguintes, com ajuda americana associada a políticas de investimento público, políticas de emprego e planos nacionais de desenvolvimento dos países envolvidos, como foi exemplo o Plano Monnet para a França, trouxeram à Europa níveis de desenvolvimento e bem-estar social nunca atingidos.

 

 

Parte 4 – A Europa hoje

 

 

A maioria dos governos de direita, parece terem esquecido os exemplos da História. A teoria económica praticada hoje na Europa, é exemplo disso.

Com a eleição recente, em França, do socialista François Holland, parece ter-se aberto uma janela de esperança para politicas viradas para o emprego e o desenvolvimento.

O discurso parece estar a mudar na Europa.

Em Portugal, menos. Passos Coelho e o seu governo, continuam, ferverosamente, adeptos de uma política de austeridade custe o que custar.

A delapidação do património público continua em velocidade acelerada, o lema é; o que é público é mau. O desemprego assola cada vez mais o país. As empresas encerram às dezenas todos os dias. O tecido empresarial que era fraco está a desaparecer. A crise na Grécia ameaça a Europa e Portugal em particular.

 

Os especialistas económicos deste governo, armam-se e armam-nos de auréolas de saber. São uns grandes especialistas. Teoria de papel e gabinete, ideologia económica radical de mercado livre. Mas, a estes, pouco mais importa do que os números, não são capazes de olhar o que está à volta.

No final, nada bate certo, os números falham e vão continuar a falhar, não se pode ver a economia sem fatores que não dependem só dos números.

É essencial ver o quadro completo, já disso nos avisava Keynes há mais de um século. Essa verdade mantém-se incólume.

É necessário e urgente mudar esta política, sob pena de nos tornarmos a segunda Grécia.

 

Não consigo perceber a cegueira de muitos economistas e comentadores que pululam a nossa televisão, rádio e imprensa. Tentarem convencer-nos de que não existem alternativas, diz bem deles próprios, provavelmente não sobreviveram num ambiente mais adverso, fora da capa que hoje os protege e lhes garante o “taxo”. A sua falta de bom senso e continuada defesa desta política, raiam o fanatismo.

Penso não me enganar ao dizer, que a breve prazo o seu discurso vai mudar e num ápice dirão o contrário do que ontem e hoje afirmam.

A ver vamos.

 

 

 

(01-jun-12)

 

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