Menu Fechar

Ana Maria Abrantes: “No Porto não existe uma verdadeira política de incentivo à recuperação do edificado!”

 

Diretora da “Galeria Porto Oriental”, à rua de Barros Lima 851, na portuense freguesia do Bonfim, Ana Maria Abrantes, professora na Escola Secundária de Soares dos Reis, prefere não falar muito de si. Foi professora.

O que a seguir vão ler é, digamos, como que um diálogo puro e duro, mas muito próprio, e que acaba por se tornar interessante, quiçá, apaixonante. Frio de início. Mais “quente” – interativo- no meio e no final.

 

Realça-se o espaço – leia-se galeria – que “pretende mostrar e divulgar a criação artística contemporânea em diversas expressões artísticas, pretendendo”, outrossim, “estimular e apoiar novos artistas e respetivas criações”, e que inaugurou, com natural orgulho, em julho de 2011.

 

A ideia de “construir” uma galeria surgiu há cerca de vinte anos e longo foi o processo para dar vida a uma antiga habitação de 1904, “objeto de uma recuperação e ampliação arquitetónica cuidada – projeto do arquiteto Óscar Lopes”.

O espaço é, na verdade, acolhedor, moderno, tradicional… muito próprio, por isso, diferente.

Ana Maria Abrantes falará, de seguida, na primeira pessoa do singular, com uma ligação intrínseca com a primeira do plural.

Ela é a nossa convidada…

 

 

 

Porquê este projeto e logo nesta zona da cidade?

“A ideia do projeto surgiu há muitos anos. Dir-lhe-ei até que surgiu há duas décadas. A concretização foi possível, mas mais tarde que aquilo que eu imaginaria que viesse acontecer. O projeto de recuperação desta casa entrou na Câmara Municipal do Porto, em 2004, e só em 2007 é que foi deferido.

Isso quer dizer que só em 2007 é que foi possível iniciar as obras de recuperação do edificado, e, como deve imaginar, para essa intervenção – ainda que com um projeto muito bem feito pelo arquiteto Óscar da Silva Lopes -, foram necessários fazer alguns acertos, isto em “convívio” com algumas surpresas nem sempre muito agradáveis”.

 

Bem. O que lhe posso dizer é que este foi um processo moroso e muito complexo. Tudo está legalizado. E tudo ficou pronto em julho de 2011.

O porquê de ter feito uma intervenção nesta zona da cidade? Tudo está relacionado com o facto de residir há muitos anos nesta freguesia (Bonfim) e, igualmente, por ter trabalhado durante décadas, precisamente, no… Bonfim!

 

… onde?

“…fui professora na Escola Soares dos Reis e, daí, ter conhecimento um pouco da freguesia e da zona oriental da cidade do Porto, e conhecer também um pouco as potencialidades desta zona.”

 

O Bonfim, em boa verdade, tem características muito próprias – não sou só eu que as relevo e revelo. Terá sido isso que a levou a “apaixonar-se” pela freguesia e dar vida a um edifício que estava, praticamente, ao abandono?

“Se calhar, o facto de viver aqui, e ter trabalhado aqui durante muito tempo, levou-me a tal”.

 

Mas, é natural do Bonfim, ou do Porto?

“Não sou natural desta freguesia, nem da cidade do Porto. Não interessa de onde sou natural. Estou no Porto há muitos anos! E também não interessa porque é que vim trabalhar para aqui! Aconteceu vir trabalhar para aqui! Gostei do local de trabalho.

Foi uma opção a partir de determinada altura, e, como gostei do local de trabalho, por cá me mantive durante bastante tempo.

Agora, poder-me-á é perguntar: quais são as potencialidades que me parecem existir nesta zona da cidade?”

 

Está feita a pergunta.

“É uma zona que tem bons acessos.”

 

 

Fachada da “Galeria Porto Oriental”

 

 

“Esta zona tem um património construído de qualidade”

 

 

Há vinte anos atrás as acessibilidades não eram as mesmas de hoje.

“Pois não! Mas, a minha ideia de criar uma galeria, não surgiu, propriamente, a pensar no Bonfim. Essa surgiu mais tarde. Portanto, quando as coisas se viabilizaram, a realidade do Bonfim já era, mais ou menos, a atual.

Bons acessos, bons meios de transporte, ainda que, na altura, não existisse o Metro.

É uma zona da cidade que tem um património construído de qualidade, embora muito degradado, e aí ser exigida uma recuperação urgente. São precisos verdadeiros incentivos à recuperação, que não existem!”

 

O potencial humano também é importante. De realçar que a população desta freguesia é, por natureza – e na sua maioria – filha de operários.

“Esta zona é, tradicionalmente, ligada à industrialização… é um facto! Foi nesta zona do Porto que ela começou e onde ela se concentrou no início do século passado, mas, como sabe, lado-a-lado viviam os trabalhadores e os patrões.

Esta sempre foi uma zona de alguma convivência entre gente oriunda de estratos sociais diversos e que aqui viveram pacificamente.

O Bonfim, é de certa forma, uma área burguesa. Não é só uma freguesia marcadamente popular! E, não é por acaso, que o Liceu Alexandre Herculano está sediado nesta freguesia.

Outro dos aspetos a considerar, e que eu vejo como as tais potencialidades desta zona, é o facto de aqui existirem alguns estabelecimentos de referência, como as “Belas Artes”, a “Escola Especializada Artística Soares dos Reis”  e a Biblioteca Municipal do Porto.”

 

Como é que acabou por se interessar por esta casa, hoje “Galeria Porto Oriental”?

“Tudo aconteceu naturalmente, mas não de uma forma simplista. Tudo exige uma análise, um estudo, e depois as coisas são morosas.”

 

E a morosidade passou, se calhar, pelo “pensar” no investimento…

… “não pensei em nada de especial! Pensei, pura e simplesmente, que era aquele o projeto que me interessava e que tinha chegado o momento de o viabilizar”.

 

Convidou, então, o arquiteto Óscar Lopes?

“É assim: agradava-me contribuir para a cidade através da recuperação de uma casa típica do Porto do início do século XX. A partir do momento que a decisão foi tomada, houve que tomar as diligências necessárias para que as coisas pudessem ser concretizadas”.

 

 

“O Porto oriental é pouco conhecido e mal-amado!”

 

 

A Galeria “Porto Oriental” está aberta ao público, porquê?

“Porque a Galeria Porto Oriental pretende mostrar e divulgar a arte contemporânea, quer através de novos, quer de consagrados, em diversas expressões artísticas. E também contribuir para a dinamização cultural desta zona do Porto, a qual tem muitas potencialidades, mas que é pouco conhecida e mal-amada”.

 

O retrato que tira a esta zona resulta no de uma área desprezada?

“Esquecida!”

 

Sente isso?

“Sente-se! Se der aqui um passeio – se percorrer a rua de Barros Lima -, verá a quantidade de prédios devolutos; de prédios em franca decadência; e verá também bastante pequeno comércio, o que significa que, à noite, uma parte desta artéria fica completamente deserta. O que é uma pena!

E é uma pena porque estamos, praticamente, no centro do Porto, e as pessoas poderiam viver aqui com mais qualidade e contribuir também para uma certa dinamização da cidade, quer em termos económicos, quer em termos culturais.”

 

Qual foi a adesão das pessoas, neste primeiro ano de existência, à Galeria “Porto Oriental”?

“Se eu lhe responder em termos das pessoas que vivem aqui na rua de Barros Lima, com certeza que não estará à espera que lhe diga que tenha sio positiva, e que a mesma tenha tido curiosidade para vir conhecer o espaço.”

 

Tem dado a conhecer o espaço?

“Sim, mas, como deve imaginar, a arte é um bem essencial, mas só quando as pessoas já têm alguma preparação de base, ou quando têm uma formação que os leva a outras exigências, e um certo posicionamento crítico. Só aí é que as pessoas têm a curiosidade para vir até cá para ver coisas que são um bocadinho diferentes das telenovelas e dos programas a que estão habituados a ver na televisão, ou dos artigos que se publicam em certas revistas.

Não são essas as pessoas que entram aqui!

Em termos de público em geral, há estratos sociais muito variados, por isso, e de vez em quando, há pessoas que visitam a Galeria e ficam muito contentes pela mesma se encontrar nesta rua e nesta zona. Têm todo o prazer em estar, em ver e em conversar. Gostam. Dão-me os parabéns e até sentem que isto contribuiu para uma certa valorização da rua.”

 

A criação da “Porto Oriental” foi um ato de coragem da sua parte?

“Não sei se foi. Nem sequer pensei em tal coisa. Pensei, na realidade, dar o meu contributo para a requalificação da cidade e para disponibilizar algo com qualidade, que contribuísse também para uma certa dinamização cultural nesta zona do Porto. Onde, desde sempre me pareceu ser interessante a criação de espaços de cariz cultural”.

 

 

 

Interior da Galeria

 

“A Porto Oriental tem uma localização excêntrica em relação ao circuito normal das galerias”

 

 

E o Porto em geral? O Porto cultural?

“Não sei responder!

O que lhe posso dizer é que a “Galeria Porto Oriental” está aberta a novas ideias e a novos projetos. Está disponível para apoiar novas propostas artísticas, e que, sobretudo, apostem na interação entre as artes.

Claro que gostaria muito de ver aqui, muitos mais espaços recuperados, e ficaria muito contente se houvesse de facto uma verdadeira política de incentivo à recuperação do edificado. Política que não existe! Isso, eu posso afirmar!

Quanto ao resto? Deixo isso para os sociólogos… não me compete pronunciar sobre o que se tem passado, ou sobre o que se passa. Posso dizer-lhe é que a “Galeria Porto Oriental” tem uma localização excêntrica em relação ao circuito normal das galerias, mas não é excêntrica em relação ao centro do Porto, porque… nós estamos no centro do Porto! Isto pode ser uma singularidade da Galeria. A envolvente tem potencialidades por explorar, numa vertente patrimonial e cultural.

 

A Galeria “Porto Oriental” tem, no fundo, as portas abertas à comunidade. É isso?

“Com certeza! Tem havido atividades com bastante participação, e  com significativa presença de muitas pessoas que nasceram no Bonfim ou que aqui residiram.

A nossa última atividade foi um concerto pelo grupo “Canto Daqui”, que tem muita qualidade. Ainda não é muito conhecido, mas tem tentado divulgar e valorizar o património musical – que é de todos-, desde 1984, e que vai dar um concerto na Casa da Música, no dia sete de outubro, isto com alguns convidados.

No dia do referido concerto houve uma surpresa, com uma intervenção poética por parte de Ana Afonso, que faz parte da AJA (Associação José Afonso) Norte.

Eu não estou a individualizar, porque são muitos os elementos e corro, inclusivamente, o risco de me esquecer de alguns nomes, e não é simpático fazer referência a alguns e não fazê-la a todos.

Aquando da inauguração deste espaço, intervieram seis elementos, que fazem parte de grupos diferentes, mas que se juntaram de propósito para cantarem, para tocarem e para dizerem poesia.

 

E antes?

“Antes, tinha havido a apresentação de um livro de Luís Serrano, ilustrado por um artista plástico, Carlos dos Reis. Essa apresentação deveu-se ao facto de Carlos dos Reis ter, nessa altura, patente uma exposição dos seus trabalhos na nossa galeria.

E, ainda antes deste evento, houve aqui uma conversa com uma jovem brasileira, que está a fazer um doutoramento em “Intervenção Artística no Espaço Urbano” e propôs-me, através de uma amiga, vir cá para conversar sobre essa temática, apresentando uma série de diapositivos, e, exatamente, por isso se concretizou a conversa que foi, realmente, muito interessante.

Ela falou da realidade brasileira, na altura em que fazia um levantamento da intervenção artística no espaço urbano no Porto e em Guimarães, mas mostrando, aqui, intervenções feitas no Brasil.

No fundo, as iniciativas vão surgindo, ou interligadas com as exposições, ou porque alguém veio ver uma exposição e lhe pareceu que alguma iniciativa podia ser articulada com ele, e propõe a sua apresentação”.

 

 

 

“O Porto merece ter uma boa política cultural”

 

Um ano de muito trabalho?

“Tenho trabalhado muito. Um trabalho, contudo, gratificante porque conheci alguns artistas com qualidade. A Galeria está recetiva à apresentação de propostas com algo que acrescente qualidade a tudo o que aqui se expõe.”

 

Os jovens mostram-se interessados?

“Os jovens interessam-se, mas há outros menos jovens que têm qualidade, mas que não têm tanta visibilidade, e que aqui podem relevar as suas capacidades artísticas.”

 

 

 

Eu posso cá vir para ouvir música e ver pintura, escultura…

“…sim e até vídeos, diretamente, relacionados com a exposição, como já aconteceu! Tivemos uma exposição com um vídeo a projetar imagens de um livro de um artista, que estava aqui exposto, mas que não podia ser manuseado por razões óbvias.”

 

Volto à questão da juventude. Têm vindo cá?

“Desde o início, a nossa Galeria teve a preocupação de envolver gerações variadas. A participação tem, sido dos oito aos oitenta e oito… por aí!”

 

Mas os jovens mostram-se participativos?

“Eu não sei quem se mostra mais participativo, porque há jovens muito ativos, mas o inverso também é verdade!”

 

O Porto, culturalmente falando, está bem servido no que diz respeito a iniciativas?

“Acho que o Porto merece uma boa política cultural a todos os níveis”.

 

 

 

Quais são os seus projetos para a Galeria Porto Oriental num futuro próximo?

“Dar continuidade a algumas exposições, tentando que elas tenham a melhor qualidade possível; que atraiam o maior número possível de visitantes que conversem sobre o que está aqui patente, e, desejando, ardentemente, que esta rua tenha a valorização e a recuperação que merece, dentro de um tempo que não seja alargado para um futuro inimaginável.

A recuperação do espaço público, que é de todos, há muito que já devia ter sido feita. Esse espaço deve ser tratado condignamente para que todos tenhamos a qualidade de vida que merecemos, e, depois, os outros espaços e pelas outras intervenções: social e cultural.

Eu tentei fazer a minha parte – com muito esforço! – e gostaria que outras entidades, quer privadas, quer públicas, o fizessem igualmente, para que, de facto, pudesse haver alguma transformação.

Tem de haver uma verdadeira política de recuperação do edificado para que o Porto não passe a ser uma cidade fantasma!”

 

 

Texto: José Gonçalves

Fotos: Hugo Sousa

Partilhe:

1 Comment

  1. Carlos Teixeira

    Parabéns pelo projeto.
    Votos dos maiores sucessos.
    Fui dos primeiros alunos da Professora.
    Teria um grande prazer em voltar a vê – lá.

    Cumprimentos
    Carlos Teixeira
    Tel. 969 270 235

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.