Menu Fechar

15 de setembro de 2012

 

Lúcio Garcia

 

 

O 15 de Setembro de 2012 ficará marcado na história do nosso país como o dia em que os portugueses de todas as condições sociais, de forma livre, sem condicionamentos de partidos ou organizações sindicais, vieram juntos para as ruas dizer basta a uma política que nos está a destruir, como sociedade e como País.

Estive lá, e testemunhei as vozes e palavras de ordem onde foi fácil perceber que, nesse dia, se juntaram pessoas de todas as sensibilidades políticas, da extrema-direita à extrema-esquerda.

 

Foto: Érico Santos

Todos reclamavam uma inversão da política de Passos Coelho e seu governo. É obra! Nunca um governo em Portugal conseguiu, por seu demérito, unir tanto os portugueses numa causa comum, o País. Fiquei satisfeito pela tomada de posição e o despertar do povo para a cidadania, pela defesa dos seus legítimos direitos, pela diversidade de opinião. Confesso, no entanto, que me preocupou uma certa unanimidade contra a classe politica como se todos fossem iguais. Em todos os setores da sociedade, há competentes, incompetentes, oportunistas, vigaristas, pessoas que dedicam muito da sua vida aos outros e os que se servem dos outros.

É uma questão de olhar a realidade de frente, somos humanos e não podemos fugir à nossa natureza, às nossas diferenças, em que cada um de nós é um Universo com vontade própria que decide com a educação e a informação que possui.

 

Em crónicas anteriores, manifestei, na minha opinião, que a Democracia, tem que passar pelos partidos ou por organizações de cidadãos que, de forma organizada, preparem o debate politico e façam exercer a política. Tudo o que sair fora disto, é o primeiro passo para a derrocada da democracia, para a chegada do salvador, do aparente herói do povo que, rapidamente, se tornará um ditador.

A história está cheia de casos assim, por golpes militares e até através do voto. Lembremo-nos da Alemanha nos anos 30. Estejamos pois atentos, porque o que parece, por vezes não é.

É certo, que os políticos que temos, não têm servido bem o País e são eles próprios os principais culpados pelo espirito que acerca deles se gerou. Também não se pense que muito do que nos ajudou a pensar assim, não fez parte de uma estratégia.

Programas de televisão em que, continuadamente, se denegriram os políticos em favor dos tecnocratas. Quando o que mais precisamos de momento é da política… da política com ética, da política sem demagogia e ao serviço do Povo.

 

Os comentadores e os fazedores de opinião, vulgarmente conhecidos por “ opinion makers”, nos últimos anos, têm tentado convencer-nos da inevitabilidade das soluções apresentadas por este governo, fervoroso adepto das políticas da Srª. Merkel como se não houvesse alternativa.

Mal do Homem quando pensar que não há alternativas! Se as não houvesse o Homem já teria perecido há milhares de anos. Há sempre uma alternativa!

Dizem-nos que estamos na bancarrota, mas o que é isso da bancarota?

 

No site INDEX MUNDI, http://www.indexmundi.com/map/?l=pt&r=eu&v=94 )   encontra um gráfico das principais dívidas externas da Europa 2012 em função do PIB, Portugal posiciona-se em 17ª lugar com uma divida externa de 548 bilhões de dólares. Nos primeiros três lugares aparecem: Reino Unido com 9,836 Bilhões/dólares em segundo a França com 5,633 Bilhões/dólares e, por fim, a Alemanha com 5,624 Bilhões/dólares.

Sendo assim, porque é que Portugal está na bancarrota e estes três países não estão?

E por quê? Porque a Inglaterra tem um Banco emissor de moeda que, quando precisa pagar os seus compromissos, e em caso de necessidade, emite moeda. Já no caso da França e da Alemanha estes países pedem dinheiro emprestado a juros negativos, isto é, ainda lhes pagam para emprestar dinheiro.

 

Claro que há uma razão para isso e ela resulta da capacidade de criar riqueza, principalmente do seu tecido empresarial, estes são países com empresários que investem e pagam aos seus trabalhadores, ao contrário de Portugal onde não temos empresários, ou temos muito poucos. A grande maioria são patrões, que nada sabem gerir. Não temos investidores no setor reprodutivo, verdadeiros empresários, mas, vejam lá, se não aparecem milhões de um dia para o outro para a especulação, basta olhar em redor, para ver como brotam, em cada esquina, casas de compra e venda de ouro.

Querem melhor exemplo?

A especulação sobre as dívidas soberanas que assolam, principalmente, a Europa e não só, tornou o financiamento dos países como – primeiro a Grécia, depois a Irlanda, Portugal e agora a Itália e a Espanha- totalmente insustentável. Os juros cobrados pelos mercados, são um verdadeiro assalto aos povos destes países, tornando, praticamente, insustentável o seu pagamento. Só os juros dos empréstimos ultrapassam em muito a capacidade de cumprimento da divida.

É um círculo vicioso, em que nos meteram e que no nosso país tem adeptos fervorosos do neoliberalismo assassino, como Passos Coelho, Vítor Gaspar, António Borges, Ferraz da Costa e tantos outros.

 

Assim, quando Portugal não teve forma de fazer face aos juros que lhes estavam a ser cobrados teve que recorrer à Troika para que esta lhe financiasse um empréstimo. Mesmo assim, usurário, para Portugal fazer face aos seus compromissos de tesouraria. Em abril de 2011, Portugal foi obrigado ao pedido de ajuda evitando a bancarrota. Quem beneficia com isto? O grande capital internacional e os maiores bancos da Alemanha, Holanda, França e Áustria.

 

Toda esta situação, retirando obviamente os ajustes importantes a fazer por nós próprios na arrumação da casa e num modo criterioso da gestão publica, com a qual concordo e repetidamente tenho afirmado, deve-se a uma politica que tem por fim, o empobrecimento do País, a redução drástica do preço do trabalho, o assalto ao que de melhor o país tem, o aniquilamento do já pobre tecido empresarial. Da destruição do estado social, da educação pública e do Serviço Nacional de Saúde para caminharmos “cantando e rindo “para um ideal tipo Partido Republicano dos EUA, ultra liberal, onde como diz o seu mais recente líder Mitt Romney: “47 por cento dos norte-americanos vão votar de qualquer maneira em Obama porque se consideram vítimas do sistema e dependem excessivamente da ajuda governamental”.

 

O candidato diz que os norte-americanos mais pobres deveriam “cuidar das suas vidas”. Onde é que temos ouvido frases parecidas? Que podemos esperar se os EUA elegem um presidente que não percebe porque se não podem abrir as janelas dos aviões? Elucidativo.

Após o 15 de setembro, depois da reunião do Conselho de Estado, de toda a pressão dos sindicatos e da sociedade civil, do interior do próprio PSD e CDS, o Governo foi obrigado a recuar na Taxa Social Única (TSU). Não por vontade própria, mas porque se não o fizesse, o Governo caía.

É, no entanto, curioso ver-se a estratégia de propaganda montada logo de seguida pelo PSD, bem patente na voz de Marques Mendes que, juntamente com Filipe Menezes (que não quer perder o apoio de Passos na candidatura à Câmara do Porto), foram os únicos a defender Passos na reunião do Conselho de Estado.

 

Disse Mendes, nos Açores: “O primeiro-ministro e líder nacional do PSD tomou a decisão de ouvir o povo, em vez de ser teimoso”. Deve andar distraído digo eu.

Ouvir o Povo?

Há meses que Passos não houve o Povo, aliás penso que nunca o ouviu. O maior mentiroso que já governou este País, que fez uma campanha assente em tudo o que agora rejeita, que nem ouve o seu partido e se dá ao luxo de determinar medidas como a TSU, em que nem o seu conselho de ministros foi ouvido, um teimoso que insiste e está de acordo com uma politica que já todos viram para que futuro nos arrasta, não é teimoso?

É preciso ter lata.

 

Mais disse Marques Mendes: “se o engenheiro José Sócrates tivesse ouvido o povo e o que lhe diziam, às tantas, o povo não passava hoje pela austeridade que passa”.”Se querem falar verdade, temos de dizer a verdade toda. O erro maior foi do Governo anterior, que deixou o país na bancarrota”, afirmou.

“Quem criou esta situação terrível não foi Passos Coelho, nem o PSD, foi o PS, quando esteve no Governo”.

José Sócrates não está isento de culpas, a sua maior culpa foi ter seguido uma política ao jeito de António Guterres e que, pelo andar da carruagem, também segue António J. Seguro. Politica que, como já defendi em anteriores crónicas, sou muito crítico pela negativa. Essa política chamada da “Terceira Via”, é uma social-democracia muito perto do capital.

No entanto, comparar esta com a ultraliberal de Passos, é no mínimo ridículo, pois da “terceira via” até ao ultraliberalismo, vai uma distância imensurável. A prova está à vista.

 

Não se trata, aqui, de defender José Sócrates que já foi julgado em eleições pelo povo. O PSD e o CDS, têm de deixar de culpar os outros e assumirem as suas próprias responsabilidades. Trata-se sim, de repor a verdade. Não a verdade da mentira de Marques Mendes.

Esquece, este, que foi o seu partido e as pessoas mais perto dele e do CDS, que durante meses defenderam a vinda do FMI e da Troika para Portugal?

Sócrates sempre se opôs a esta alternativa, tal como hoje tenta resistir Rajoy, em Espanha, e não é certamente por teimosia. Só esta direita incompetente e demagógica aliada ao PCP e ao Bloco é que parecem não ter ainda compreendido as verdadeiras razões desta crise.

Falam da necessidade de o PS assumir uma postura construtiva e de Estado para ajudar o Governo? Mas, em que assenta esta moralidade? Quando Sócrates tinha o PEC IV aprovado pela comissão Europeia e pela própria Merkel, sendo o Governo de Sócrates minoritário, onde esteve o patriotismo?

 

Como diz Mendes, se tivessem ouvido Sócrates talvez não estivéssemos hoje nesta situação. Marques, não pode ignorar, que o aumento do défice nos dois últimos anos de Sócrates se deveu a uma política de investimento, decretada por Bruxelas, para defender a economia em Portugal e na Europa. A redução nos impostos pela quebra da produção nacional devido à crise externa foi brutal, e esta levou a uma forte quebra na receita de impostos. Esta foi a principal razão da derrapagem do défice.

A pressão dos mercados sobre as dívidas soberanas já se fazia sentir por todo o mundo, em Portugal, não foi por falta de credibilidade de Sócrates, mas por existir um governo minoritário que tinha todos os partidos contra ele, que votaram em conjunto medidas que faziam aumentar o défice. Que não apoiaram o PEC IV, e onde uma oposição contranatura derrubou o Governo.

 

Neste quadro, a pressão sobre Portugal aumentou forçando o pedido do resgate pelo Governo. O governo de Sócrates assinou o memorando apenas porque lhe competia como tal, no entanto, as negociações decorreram com todos os partidos e parceiros sociais. Será que já se esqueceram das “vitórias” anunciadas pelo então negociador do PSD, Eduardo Catroga, com pompa e circunstância na TV?

Agora, haja coragem de cada um assumir as suas responsabilidades. Foi esta postura que retirou, definitivamente, a confiança não no governo mas no País. A cegueira pela tomada do poder a todo o custo e a revanche do PR, minou todo um governo em que até Merkel acreditava, daí ter aprovado o PEC IV, oportunidade que foi desbaratada.

 

O momento que o País atravessa é muito grave. Tenho a esperança que com a remodelação que se avizinha no Bloco de Esquerda, seja possível um entendimento à esquerda. O PS tem que afastar as sombras pardas, os cinzentos, que estão muito perto do capital e demasiado comprometido com ele. Não me refiro ao capital em si, pois sou a favor de uma economia de mercado, mas do capital manipulador, interesseiro, especulador e que também tem amigos no PS, na verdade eles têm amigos em todo o lado, uns mais disfarçados que outros.

 

Do PCP, não espero nada, nunca esperei. O PCP, está delirante com a situação do País. Nunca, desde o 25 de Abril, viu tantas hipóteses de crescer, mas …nunca sai da sua margem. Ainda não perceberam porquê. O seu ódio ao PS é tanto, que ainda hoje, com a violência com que a direita nos oprime, não perde uma oportunidade para se voltar contra o PS, como se fosse esse o seu principal inimigo.

A Politica é a Ciência do Compromisso, e o PCP, não faz ideia nenhuma do que isto quer dizer, Nunca soube.

 

A esquerda democrática e europeia necessita urgentemente de abrir um dialogo forte, que faça frente ao ataque terrorista ultra liberal. Necessita de encontrar consensos em que a defesa do estado social esteja em primeiro lugar, que leve a Europa à criação de um estado federal, de uma política fiscal comum, de uma política direcionada para o crescimento e o emprego, à criação de um BCE com as mesmas características de uma Reserva Federal Americana, de uma política de justiça verdadeiramente ao serviço do Povo, e de um fortíssimo combate à corrupção e à evasão fiscal entre outras.

Esta política tem que ser posta em prática na Europa e pode começar de imediato no plano interno, pelo menos, em algumas dessas frentes. Uma estratégia consensual de desenvolvimento para o futuro é urgente. Já.

2 Comments

  1. Lucio Garcia

    Caro leitor Januário Santana, obrigado pelo seu comentário. Concordo consigo quanto a ser um socialista democratico. Quanto ao meu “adorado” Sócrates aconselho-o a reler bem o texto, com calma. Por ultimo, factos são factos.
    Cumprimentos
    Lúcio Garcia

  2. Januário Santana

    Caro sr.

    Vê-se que é um indefectível socailista. Tem razão em muita coisa que escreve, mas não se esqueça, que o seu “adorado” Sòcrates também cometeu muitos e muitos erros. Foi ou não foi?

    J.Santana – Lisboa

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.