É das tais pessoas que não tem papas na língua. Maria Fernanda Oliveira é especialista em farmácia comunitária e, atualmente, diretora técnica da Farmácia do Bonfim, no Porto. Farmacêutica desde 1980, e responsável máxima pelo referido estabelecimento desde 1997, a nossa convidada trabalhou ainda na área da Saúde no Hospital de Santo António, no Instituto de Ciências Biomédicas e no Instituto Ricardo Jorge.
Com as farmácias em “jornada de luto”, prespetivando, a Associação Nacional das Farmácias, o encerramento, no próximo ano. de 600 estabelecimentos em todo o país, Maria Fernanda Oliveira traça um quadro negro para o mundo farmacêutico, mas também para a comunidade que dele depende.
Trabalhou muitos anos na Saúde Pública?
“Sim, na Saúde Pública. A Saúde Pública que, infelizmente, não tem segredos!”
Mas, por quê?
“Porque se estivesse bem, não havia tantos problemas. O problema é que a Saúde gasta muitos milhões, e onde gasta é mais dentro dos hospitais, e não sabe como, nem onde.”
Temos, contudo, um importante Serviço Nacional de Saúde Uma conquista do 25 de abril…
“Foi, pela “mão” do ministro António Arnaut. Mas, hoje, está em contestação…”
É um Serviço em cuidados “paliativos”?
“Quer com isso dizer que ele, o Serviço Nacional de Saúde, está em fase terminal?! Penso que não! Vamos ter esperança que não! Mas, isto caminha para que as pessoas tenham, e cada vez mais, os seus seguros privados”.
Como farmacêutica tem um contacto muito direto com a população. Hoje em dia é uma tarefa difícil esse contacto devido à crise!?
“Muito difícil! E não falo só em utentes residentes na freguesia do Bonfim, porque à nossa farmácia chegam pessoas de diversos pontos da cidade e do distrito do Porto. As pessoas de uma certa idade, dividem-se em duas metades: aquelas que se deixam aconselhar, e são pessoas mais abertas e com um pouco mais de cultura; e aquelas que estão totalmente intoxicadas por alguns meios de comunicação social. Hoje, toda a gente sabe de tudo! Todos são médicos, engenheiros, arquitetos, economistas… dão palpites do que não sabem. Tudo por influência dos programas de televisão. Portugal não tem cultura! As pessoas nem sabem se expressar. Aplicam termos aberrantes e fazem comentários que deviam estar ao lado de tudo o que devem fazer, neste caso concreto, dentro de uma farmácia!”
“Não há razões para as pessoas deixarem de comprar medicamentos!”
Mas, devido à crise, e no que concerne a termos de índole social, são visíveis as dificuldades que afetam as pessoas?
“São muito visíveis. Mas as pessoas não devem deixar de comprar medicamentos devido à situação económica, porque, hoje, os medicamentos estão muito baratos e outros são dados quase de graça.”
Quer dizer com isso, que não há razão para as pessoas, com maiores dificuldades financeiras, deixarem de comprar medicamentos?
“Não há razão!”
Podem ir a qualquer farmácia e comprar medicamentos a baixo custo?
“A uma farmácia que esteja bem alertada! Hoje, com receitas passadas, pode dar-se o genérico ou a marca. O genérico é mais barato e o medicamento de marca mais caro. Há farmácias que vão pelo mais caro, porque se encontram em situação económica muito difícil, correndo o risco de fechar. Mas outras, ainda, não”.
Seiscentas farmácias em risco de insolvência
Aliás, a Associação Nacional das Farmácias disse que, no próximo ano, podem vir a encerrar 600 farmácias em todo o país.
“Não disse, diz! Somos duas mil e tal farmácias em Portugal. A situação é muito grave! Até acho que a medicação podia ser toda dada aos doentes, mas o Serviço Nacional de Saúde teria de pagar às farmácias. Quando veio a Troika, fizeram-se acordos com a APIFARMA (Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica) e começaram a baixar os preços dos medicamentos.
A partir daí, o utente começou a pagar menos ou a nada pagar, e o SNS, a nós – farmácias – a menos pagar!
Posso dizer-lhe que tive, recentemente, uma reunião na Associação Nacional das Farmácias – foi uma reunião de Círculo (40 e 41) – sabendo-se que o que a Troika pediu na poupança, as farmácias já cumpriram e até ultrapassaram esse objetivo.
Enquanto, isto, nos hospitais não se sabe por onde andam milhões e milhões de euros.”
Mas, farmácias há que não cumpriram…
“E já foram há falência! A margem de lucro que temos, segundo a Lei, é de 18 por cento. Temos um paracetamol, que já não é das moléculas mais vendidas, que custa 60 cêntimos para venda ao público; desses 60 cêntimos temos de tirar os tais 18 por cento; com esses 18 por cento, temos de pagar os nossos gastos, custos fixos e os custos imprevisíveis. ..”
E os funcionários?
“Tenho-os mantido aqui com muito custo. “
“Fazemos muito serviço gratuito de promoção da saúde à população”
Com a experiência que tem, pensava, algum dia, passar por dias assim?
“Não! Quando saí do Instituto Ricardo Jorge, a Saúde Pública tinha meandros fantásticos. Veio muito dinheiro para Portugal, verbas que ainda não sabemos muito bem para onde foram. Já se sabia que o País iria ter muito envelhecimento, e como tal, era precisa mais medicação, e pela medicação é que há mais envelhecimento, porque as pessoas conseguem ultrapassar doenças e assim têm o seu projeto de vida mais prolongado, o que é excelente e é só de louvar.
Agora, as farmácias fazem muito serviço de promoção da saúde ao utente. Nós fazemos aconselhamento; fazemos observação da terapêutica; verificamos se os doentes estão a tomar os medicamentos às horas convenientes…
Por vezes, as pessoas têm essa preocupação, mas, ao mesmo tempo, muita dificuldade, confundindo as coisas?!
“Pois, porque a própria doença não os deixa discernir. Culturalmente, pensam que o que se toma ao almoço se pode tomar ao jantar e o que se toma ao pequeno-almoço se pode tomar ao lanche… enfim! Os medicamente têm de ser tomados, rigorosamente, às horas estipuladas. Nós vamos controlando estas situações, e vamos dando muitos conselhos aos doentes hipertensos, aos doentes diabéticos, e por aí fora…
Há, com certeza, muitos doentes que antes de irem ao seu médico de família – se o tiverem! – se dirigem à farmácia?
“Quando as pessoas estão muito aflitas é aqui que recorrem.”
Isso é uma mais-valia para a farmácia?
“É, na verdade, uma mais-valia! Só que esses são serviços, que estamos a prestar, com muito gosto, à sociedade, custam dinheiro! Se tivermos uma sala à parte para atendimento, temos de a ter em condições; se fizermos a aplicação de injetáveis – como agora será, aquando da vacina da gripe – temos de ter kits próprios para urgências, em caso de haver alguma anomalia na sua aplicação – Kits que têm custos e, por acaso são bastante onerosos -; temos que ter os nossos funcionários, quer os técnicos, quer os farmacêuticos, com cursos permanentes de atualização e formação, que são obrigatórios, e que são pagos! Os laboratórios não facilitam!”
“Tenho o meu suporte particular. Caso contrário já tinha dispensado funcionários!”
Pelo que me conta, hoje em dia, é, extremamente, difícil gerir uma farmácia?
“Muito difícil!”
Mas, a Maria Fernanda Oliveira, tem-no conseguido ao longo destes anos?!
“Porque tenho o meu suporte financeiro particular! Caso contrário, já tinha dispensado pessoal. O que não poderia ser! Dispensando-os, eles iam para o grande volume de desempregados, e, depois, ficava com menos pessoas para fazer o atendimento, isto tendo o mesmo número de utentes, os tais que têm de ser pesados; que precisam de ser aconselhados; que precisam de ser alertados quando é a altura das praias para a prevenção de sol, ou para a época de frio, para andarem agasalhados… Até para a higiene! Isto são serviços grátis!
Temos que ter tempo, e temos que ter a tal formação, o tal entendimento e a tal sabedoria que vem de trás, para passarmos este nosso conhecimento ao utente.”
“Para o ano, no Porto, só estarão cinco farmácias de serviço todo o dia e toda a noite”
Disse-nos, quando combinávamos esta entrevista, que a Faculdade de Farmácia corre – como quem diz – o risco de encerrar portas…
“Ah! Pois disse! Não sei o que estão a fazer aos estudantes. Eles têm currículo, mas as farmácias, neste momento, não estão a meter pessoal, e os serviços permanentes, na cidade do Porto, são cada vez mais reduzidos.
Posso já adiantar-lhe que, para o ano que vem, só vão estar de serviço cinco farmácias, durante todo o dia e toda a noite, porque não há receitas; não há doentes… não há serviço noturno que justifique a farmácia estar aberta. Como sabe, há uma farmácia hospitalar, outras que estão abertas 24 horas, e as outras duas para apoiar a parte oriental e ocidental da cidade. A Farmácia do Bonfim apoiará a zona oriental.”
Uma zona enorme em termos populacionais.
“Sim. Mas não vem ninguém, nem para a venda livre. Eu sei, porque faço as noites.”
É estranho!
“As pessoas quando têm uma doença grave vão ao hospital e de lá já saem medicadas.”
Daqui a uns tempos será injustificável a abertura das farmácias durante a noite?
“Exatamente! As pessoas também não andam na rua à noite. Têm medo porque a cidade está muito deserta e não tem segurança. Nós, a partir das 22 horas só atendemos através do dispensador que está inserido na montra. Como sabe, houve um surto muito grande de assaltos a farmácias”.
E os fiados?
“Isso é todo o dia! Até me incomoda, porque não posso abrir exceções para uns e para outros. Depois, na altura, todos me prometem pagar a tempo e horas, mas, passam-se meses e meses, desligam os telemóveis; recebem as cartas para virem à farmácia, e não vêm. De um amigo criamos um inimigo! Num momento somos bestiais, dois minutos depois: somos bestas! Falta seriedade a esta gente. Se este país fosse de gente séria, não tínhamos os governos que nos puseram nesta situação”.
Está desiludida com o País…
“Estou, estou! Se fosse hoje não ficava por cá a trabalhar”.
Já tinha emigrado, ou seja, aceite o convite do nosso primeiro-ministro?
“Já tinha! Mas não me interessa o que o Passos Coelho diz. Não me interessa rigorosamente nada. Os políticos estão lá porque o povo lá os pôs. Mas, o povo está muito sem cultura”.
O “cancro” da prostituição
Esta farmácia existe há quanto tempo?
“Há mais de cem anos! Esta farmácia era da Liga, depois a minha avó, que era farmacêutica e médica ginecologista, comprou o alvará, depois ficou por cá o meu pai.”
Uma farmácia de referência na freguesia do Bonfim, a qual poderá perder a sua Junta.
“Pois. Esta Junta também não foi, recentemente, muito visível. Quem está lá trabalha muito com os idosos, mas o resto: é terrível! A Junta deixou a população esmorecer. Temos aqui um grande cancro a partir das 20 horas, que é a prostituição na rua de Ferreira Cardoso.
Cada faz da vida o que quiser. Agora, senhoras que estão ali, à noite, com umas peças de roupa super-reduzidas, não devem estar a tomar banhos de sol!
Elas falam língua estrangeira, com aspeto provocatório, e, depois, com pensões abertas… aquilo é um chamariz.
Assim sendo, as pessoas que podiam morar na zona, porque aqui há prédios excelentes dos anos 50 do século passado, por um preço muito módico, não o fazem. Isto ancoraria população – antigamente aqui viviam juízes e médicos – pois os filhos e netos dos antigos habitantes poderiam regressar a esta área, mas com esta prostituição, quem tem filhos ou maridos, não gosta, é normal!”
Como é que vê a cidade do Porto na sua generalidade?
“Vejo uma cidade lindíssima em comparação a outras que conheço lá fora; com uma estrutura de edifícios muito bonitos – não tivemos guerra e isto conservou-se –, mas está tudo muito degradado. E depois não há limpeza! Se cada um limpasse o seu passeio, a sua rua e a sua casa…
Mas os serviços camarários são obrigados a fazer tal serviço, pelo menos, nas ruas…
“Pois. Se tirassem as comidas dos contentores e limpassem-nos como deve ser…mas não! Depois aparecem os ratos e as baratas”.
Também há muitos cãezinhos a passear e a deixar “presentes” por tudo quanto é lado…
“Os cãezinhos podem passear, mas os donos deviam levar o papel para fazer a higiene do cão. Também tenho um cão e limpo onde o bicho vai.”
“A farmácia devia ser exclusiva do farmacêutico!”
E por falar animais, a Farmácia do Bonfim tem um espaço muito próprio para os bichos?
“Sim. A nossa farmácia aderiu ao “Espaço Animal”. Temos à venda produtos veterinários, e como as grandes superfícies não podem vender medicamentos a animais, só nas farmácias é que as pessoas os podem adquirir. Os preços são baratos, e já os ponho mais baratos, para que as pessoas, hoje com mais dificuldades, não abandonem o animal de companhia – o que para os idosos é benéfico porque têm um ser vivo com quem falar, que os obriga a sair de casa.
O importante, no meio disto tudo, é que ninguém abandone o seu animal, uma vez que os animais abandonados transmitem aquilo que é, na realidade, a sua população em termos de educação civil. ”
Os farmacêuticos estão unidos numa perspetiva de futuro?
“Há um problema! As farmácias começaram a fazer descontos aquando da liberalização. Depois apareceram esses escândalos das falsas receitas e de determinadas exportações. Atribuo muito isso, ao facto da farmácia não ser exclusiva do farmacêutico. Eu estou aqui porque gosto muito de saúde pública; gosto dos meus utentes, dos meus doentes, e gosto da prevenção. Quem não é de farmácia tem mais objetivos de lucro.
A este espaço (farmácia) e sem nada pagar, pode vir cá qualquer pessoa, para saber o que deve fazer para a sua higiene pessoal; para a manutenção da sua saúde; como deve tomar os seus medicamentos; se deve ir ao médico; as jovens se querem engravidar e se antes de engravidar o que devem fazer; quando grávidas como se devem apresentar… nós tudo isso aconselhamos, e os aconselhamentos são gratuitos.”
“Não comam nas farmácias!”
Importantes conselhos…
“Sim. Conselhos sobre emagrecimento; prevenção na diabetes; não exceder o peso e o Índice de Massa Corporal (IMC), que está ligado com o peso e a altura da pessoa. Veja que, hoje, os jovens quase que só se alimentam dos fast-food. Estão encharcados de publicidade do MCDonald…e estão obesos!
E vem muita gente aqui?
“Vem. Há uma coisa que se vê nesta farmácia e que, há dez quinze anos, não se via: as pessoas comem dentro da farmácia. Acredite! Trazem bolachas, iogurtes e outras coisas do género e põem-se a comer aqui. É algo que peço para não fazerem, porque podem tossir, podem ter uma alergia e espirrar e os micróbios andam no ar…”
Essa é incrível!
“É. Há uns anos falou-se muito da Gripe A, e falou-se muito em lavar as mãos e falou-se muito numa higiene, e, nesse ano, desceu o número de doenças respiratórias e mesmo o de infeções pulmonares. Por quê? Porque a população estava em alerta e lavava as mãos convenientemente. Agora, já se desleixaram outra vez!
A higiene é muito importante. A parte dentária, por exemplo: nota-se que a nossa população está com os dentes, totalmente, estragados… é importante saber como lavar os dentes…”
Ir ao médico dentista é tudo menos barato!
“É caro… pois, mas a digestão começa na boca!”
“Esperemos que este país não caia no que caiu a Grécia!”
Estes serviços que as farmácias prestam graciosamente continuam a não ser reconhecidos pelo Ministério da Saúde?
“Nada paga!”
E não é importante a Escola estar a par destas prevenções?
“Claro que sim, e nós estamos disponíveis para colaborar com as escolas. Aqui, no Bonfim, antigamente, havia a Feira da Saúde, na qual participávamos. Há uns anos, o Colégio dos Órfãos pediu-nos colaboração, até na parte da sexualidade… agora deixaram de pedir! Quando quiserem… estamos recetivos!”
Mas, hoje na internet obtém-se muita informação.
“Pois, toda a gente tem acesso ao Google e a outras redes sociais, mas é preciso saber interpretar o que lá esta. As pessoas não entendem certos termos que lá estão colocados, e depois vêm cá aflitos para saber mais pormenores.
Digo-lhe a propósito: há pessoas que usam medicamentos para cães em gatos. Não pode ser: matam os gatos! Depois, usam tratamento de higiene para as partes íntimas, produtos de higiene corporal… e têm problemas!
Todas as segundas-feiras, vou ter, aqui, na Farmácia do Bonfim, esclarecimentos públicos, para aconselhar as pessoas que vão comprar medicamentos nas parafarmácias, ou então, nas farmácias hospitalares, tudo para lhes dizermos para que serve como se deve tomar o referido medicamento.”
Estão a pensar desenvolver mais atividades em prol da comunidade?
“Gostaríamos, mas lá está o binómio: dinheiro disponível-atividade.”
Prevê-se um ano muito difícil em 2013. As farmácias farão todos os esforços para continuarem ao lado dos mais carenciados?
“Esperemos que este País não caia no que caiu a Grécia, onde os medicamentos se encontram a preço livre. E os preços livres podem ser os escritos nas cartonagens, mas, como o farmacêutico tem de ter dinheiro para pagar ao armazém, a partir daí mete o preço que bem entender!
E nem caminhar para o que está a acontecer em Espanha, onde as farmácias da província já estão em falência total e o governo obrigado a dar 876 euros mensais para que elas não encerrem as portas.
Aqui, no nosso país, fica o aviso: venham às farmácias comprar, e ajudem o farmacêutico para ele os ajudar!”
Texto: José Gonçalves
Fotos: Érico Santos




PARABÉNS QUERIDA FERNANDA OLIVEIRA.Só uma mulher do Porto e do Bonfim tem a coragem de dizer tudo assim, desta maneira rasgada e franca ISTO É PORTO…SEM PAPAS NA LÍNGUA, DIZENDO TUDO O QUE DEVE SEM MEIAS PALAVRAS, E FAZENDO DAS TRIPAS CORAÇÃO PARA VENCER A CORRIDA .PARABÉNS, AMIGA!