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Fala-lhe de mim…

 

Maria de Lourdes dos Anjos

 

Tive a honra e o privilégio de ser convidada para estar presente no “I Congresso de Investigação Criminal”, que teve lugar na cidade do Porto, em março de 2006 e que foi pensado ao milímetro e magistralmente organizado pela  Associação Sindical dos Funcionários da Investigação Criminal (ASFIC).

Durante dois dias andei por dentro da Polícia Judiciária. Vi rostos; ouvi intervenções de gente que sabe o que quer e para onde devem dirigir os passos da sua Polícia; filtrei gestos mais ou menos ansiosos de quem quer fazer melhor, porque para isso tem capacidade, espírito de sacrifício e profissionalismo. Finalmente, observei alguns olhares. Olhares ansiosos vagueando à procura do Poder que tanto lhes deve e de quem apenas vão recebendo, amiudadamente, uns presentes envenenados.

O Poder que lhes pede proteção e sujeição – simultaneamente.
O Poder, sem pudor, que lhes exige segurança para serem livres e depois os quer amordaçar.
O Poder que, à boca de cena elogia os êxitos da investigação e, nos bastidores, inventa leis que não permitem à P.J. utilizar a “via verde” da Justiça por onde se passeiam os prepotentes, e pseudo-salvadores da democracia, que mais não são do que “gatos pingados” fazendo o funeral do Portugal livre com que sonhamos.

O Poder que culpa e responsabiliza a Polícia, bem como a Justiça e o Funcionalismo Público em particular, de tudo o que de mau vai acontecendo neste País.
Este Poder que é bem pior do que merecemos e se esquece que as polícias não podem ser o filtro de tanta injustiça social, tanto descalabro económico, desemprego, imoralidade e más e indecorosas decisões políticas.

Este Poder, que irá legislar a seu bel-prazer quando as máfias dos países de leste, as chinesas, brasileiras e outras de caráter transnacional criarem raízes mais profundas e mostrarem o que sabem e do que são capazes; quando a alta criminalidade económico-financeira asfixiar a Democracia, tratando-a como uma sua coutada; quando os africanos que sobrevivem um pouco por todo o país sem terra, sem pão e sem trabalho lhes chamarem colonialistas e xenófobos, então as polícias vão ter, finalmente, meios humanos suficientes, meios legais adequados e meios técnicos sofisticadíssimos para tentarem controlar a complexa criminalidade emergente, porque o Poder e os seus Senhores correm perigo.

Sem racismo nem formalismos, o Poder irá à procura da Polícia e do Povo. 
O Povo, berço nobre de tantos polícias.
O Povo que respeita sobretudo a “Judite”, cuja farda é a competência e a coragem, sem vedetismo, sem holofotes. Silenciosamente.

O bom Povo, anestesiado com os “mitos” da ascensão social, da democracia, da felicidade dourada das novas “socialites” televisivas, hipnotizado por uma certa comunicação social intelectualmente desonesta, amestrada e ao serviço de interesses inconfessados, baralhando sondagens e consciências, não desmascarando a promiscuidade entre os decisores políticos e os grandes empresários “lobistas”, fanáticos do tráfico de influências e geradores do crime de “colarinho branco”, tarda em perceber que existe “Justiça” apenas para quem tem dinheiro para a pagar.

A “Justiça” dos ricos e poderosos, inatacáveis e cada vez mais inatingíveis, protegidos por leis imaginadas por uma classe política viscosa e em completa falência moral e ética que, inibem uma intervenção demolidora da Polícia Judiciária nestas suas práticas nefastas para uma Sociedade Humana que se pretende cada vez mais justa, solidária e desenvolvida.

Mas, o povo que ainda não esqueceu outras polícias e outros poderes, ouve incrédulo a notícia de mais um Inspetor assassinado em serviço. Ouve-se, então, a voz desse povo no silêncio ensurdecedor da revolta. A voz é apenas um cerrar forte de dentes.

A Polícia Judiciária fez-se respeitar. O Povo confia nela. Sabe que é a única instituição capaz de “engavetar” os tais intocáveis que ocupam e dominam as cadeiras do poder. Por isso ELA incomoda.
Razão, muita razão tinha a minha avó Adelaide quando, do alto dos seus 85 anos de vida e com 13 filhos no currículo dizia:
– «Vão as coisas de mal a pior, quando o criado amedronta o seu senhor». (E fica tudo dito).
Trinta e dois anos depois de ter nascido, a Liberdade já passou por aqui mas, já aqui não mora.

Não teria sido necessário estar no “I Congresso de Investigação Criminal” para compreender que Dona Judite é, para alguns poderosos, uma senhora de mau porte que os incomoda quando para na porta das suas residências; sem aviso prévio e em recatado silêncio.
Mas, foi importante respirar a palavra e o sentir destes Servidores do Estado para avaliar o mau estado moral e cívico deste Estado.
É urgente dividir para reinar, e a divisão só é exata se o resto for zero. Por isso, os Inspetores e a instituição que servem são o alvo de todas as críticas. Assim, reinar é menos difícil.

Há tempos, um Inspetor da P.J. partia, pela madrugada, para uma missão, mais uma, de alto risco. Ao sair de casa ouviu, do quarto ao lado um – “Boa Sorte, vai com Deus”. Teve, então, tempo de dar dois passos atrás, agradecer e pedir: “se me acontecer alguma coisa, não te esqueças da minha filha. Fala-lhe de mim!”
A filha desse Inspetor ainda é muita criança, mas já sente muito orgulho na “Polícia do pai”.

Espero nunca ter que cumprir o desejo do homem que, como tantos outros polícias, não sabe, nunca sabe, se no fim de mais uma tarefa difícil, às vezes, quase impossível, poderá voltar a dar colo à sua filha e falar-lhe “dela”, do dia que passou com “ela” e dos riscos que correu por “ela”, lutando pela vida e pelos direitos de todos nós.
P.S. Já agora, Senhores Inspetores da Polícia Judiciária, se porventura, encontrarem por aí a Alma da Minha Pátria mesmo retalhada, por favor unam esforços, deem as mãos e entreguem-Na a quem provar amá-La, respeitá-La e dignificá-La. Se eu já cá não estiver, Falem-Lhe de mim! Obrigada.

(Porto, 20 de Março de 2006)

Publicado no Livro de Atas do I Congresso de Investigação Criminal e na Modus Operandi n.º 1

 

PRESENTES E JUSTOS

Olhares demasiado presentes,
Profundos, perspicazes, insistentes
Mãos cheias de largos movimentos
Nervosos, cúmplices, atentos

Rostos tensos, sombreados
Vidas, sem dias medidos
Justos, que a Justiça ignora
Gente livre onde a liberdade não mora
Justos de voz quase silenciada
Gente sem certeza da partida ou da chegada
Justos que vigiam a balança e o fiel
Gente doce com gosto amargo de fel
Teimam em ser servidores dum Estado
Que esquece o Futuro e ignora o passado
Gente solidária, corajosa e sã
Que adormece a noite ao sol da manhã
Homens e Mulheres com lágrimas e glórias
Com medos e raivas fazendo vitórias
Mulheres e Homens orgulhosos da sua área
Que dão alma e rosto à Polícia Judiciária

(Porto, 17 de Março de 2006)

Em novembro vamos andar por aí, semeando poesia…

 

DIA 2- Junta de Freguesia de S. Nicolau-21h30

DIA 3 – Casa da Cultura de Paranhos-15h30

DIA 3 – Junta de Freguesia de Vermoim-21h30

DIA 7 – Casa do Infante-16h00

DIA 10 – Estudos Luso-Brasileiros, Edifício Pinto Leite – 6.º andar – 16h00.

DIA 14 – Casa do Infante-16h00

DIA 16 – Casa Barbot-21h30

DIA 17- Galeria Vieira Portuense-17h00

DIA 17- Biblioteca de Vizela-21h30

DIA 21- Casa do Infante-16h00

DIA 24 – Universidade Sénior de Gondomar-21h30

DIA 28 – Junta de Freguesia de Lordelo do Ouro -15h00

DIA 29 – Espaço VIVA CIDADE-17h00

DIA 30 – Associação de Pais da Senhora da Hora-21h30

 

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1 Comment

  1. Maria Silva (Évora)

    Cara Senhora. Parabéns pelo seu artigo, e ainda há gente que diga mal dos nossos profissionais da Polícia, neste caso a Judiciária. Valha-nos Deus.Isto está tudo de pernas para oar.

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