José Manuel Tavares Rebelo
Nos últimos 300 anos, a história da Europa está entremeada de picos de grandes revoluções, grandes ideias transformadoras, grandes esperanças, seguidas de grandes desilusões, grandes decepções. Basta recordar a Revolução Francesa, no séc. XVIII (onde pára a igualdade/égalité e a fraternidade/fraternité, tão propaladas?). Basta lembrar as grandes esperanças trazidas pelos liberalismos (séc. XIX) e socialismos (séc. XX). Basta reflectir aqui, na implantação da República (1910), na restauração da Democracia (1974), na integração na União Europeia (1985).
É óbvio que não estou a criticar os grandes teorizadores das grandes propostas de transformações das sociedades e os homens e mulheres que deram o seu contributo para melhorar as condições de vida das populações. Eles e elas reflectem a necessidade de mudança. Mas a história está cheia de pessoas que atraiçoam esses ideais, que pervertem as metas que estavam planeadas, desprezando os objectivos sociais previstos, simplesmente porque colocam em primeiro lugar os seus próprios interesses pessoais e corporativos.
Urge reencontrar um caminho novo, que não passa por golpes, por visionários sem escrúpulos ou por sebastianismos melancólicos.
E este caminho está hoje presente nesta cidade do Porto (e em tantas outras cidades e países): tem a ver com dar e receber e é conhecido pela palavra solidariedade, uma palavra que faz lembrar mãos abertas e estendidas para o outro ou outra. Estamos a defender o assistencialismo, existente nas sociedades injustas, corruptas e que desenvolvem um capitalismo selvagem? Sim, estamos! E estamos porque não somos débeis mentais! E estamos porque é esta a realidade que temos presente no nosso país em 2012. E será que o assistencialismo é a forma mais justa de resolver as injustiças sociais de qualquer país? É óbvio que não, mas temos neste momento, de nos render à realidade que nos rodeia, enquanto não houver uma verdadeira revolução em que prevaleça a fraternidade.
No meio desta informação diária enjoativa em que prevalece o estafado conceito “bad news are good news”, ninguém deu importância devida à empresa de papel de Vila Nova de Gaia, com 30 anos de existência na mesma família, que divide os lucros pelos seus trabalhadores e está de perfeita saúde financeira. E ainda mais: quando os outros andam a fazer despedimentos geradores de desespero, a Papelarco tenciona admitir mais umas dezenas de funcionários em 2013…
Regressando agora à solidariedade e ao voluntariado, continua a haver realidades nesta área que a maioria das pessoas desconhece, como é o caso da ATACA (Associação de Tutores e Amigos da Criança Africana), de que sou membro. Os destinatários da sua acção são as crianças de Moçambique. Surpresa para um país europeu em crise? E que vai tratar das crianças dos outros países? Qual é o sonho duma criança portuguesa? Ter um equipamento do FCP pelo Natal, por exemplo… Qual é o sonho duma criança de Moçambique da área de Ocua? Ter uma torneira para ir buscar água limpa? Ter uma sanita? Ter uma cama para dormir? Ter livros e cadernos para estudar?
A ATACA está centrada no auxílio aos pobres de África. Esta atenção pode suscitar dois tipos de reacções: aqui, na Europa, ao observarem esta forma de voluntariado específico, e sabendo que os nossos pobres têm diferentes circunstâncias sociológicas, mas são pobres à mesma, esta atitude da ATACA pode fazer renascer o brilho no olhar de tantos homens e mulheres, velhos e crianças, que deixaram de acreditar em qualquer futuro.
Há que seguir o vosso exemplo. No continente africano, em que a luta pela sobrevivência é diária, estas referências às crises europeias, podem suscitar sorrisos, quando não indiferença. Quando faltam os mais elementares meios de subsistência no que respeita aos cuidados primários de saúde, quando faltam escolas medianamente apetrechadas, quando faltam alimentos e medicamentos…
Chegou a altura de falar das pequenas esperanças e não das grandes esperanças, dos pequenos gestos solidários e não das tiradas demagógicas de populistas interesseiros. São esses pequenos gestos, essas pequenas esperanças que, juntas, poderão transformar-se numa onda gigantesca de grande Esperança, mobilizadora das energias escondidas que existem dentro de cada ser humano e que irão transformar o panorama social e humano de Portugal.
O que tenho estado a tentar dizer aqui não é só teoria. Há pequenos factos que comprovam que já está a acontecer algo de novo. As pequenas esperanças, as coisas pequenas tornadas grandes já podem ser observadas por quem estiver atento.
Como podem ver a seguir, já existem alguns a dar pequenos passos, dispostos a percorrer grandes distâncias. Solidário é aquele que se irmana, que sente do mesmo modo que o outro. Solidário vem de sólido, isto é, aquele que é firme, seguro, capaz de resistir. De igual modo, uma palavra tão usada e abusada, mas tão esquecida do seu significado autêntico – compaixão – sentir como sua a dor, a paixão do outro, de tal modo que vais agir, mover-te, activar energias para acabar com essa dor.
Estas palavras, estes conceitos, estes valores constituem uma força gigantesca que, quando desperta, pode causar transformações inesperadas e súbitas, como tem acontecido ao longo da nossa história. Portugal sempre contou com a força granítica e solidária do Norte, transformada em pequenos gestos, pequenos passos, pequenas esperanças que, nas crises como a presente, se agigantam para alcançar metas insuspeitadas.
É assim que se constrói uma “grande esperança” neste tempo de pobreza. Mas outras haverá, por aí escondidas, pequenas luzes que iluminam este país do poente. Dizia António Lobo Antunes em crónica dedicada a Eugénio de Andrade que “quando o coração se fecha faz mais barulho que uma porta”[1]Ele (o coração) pode fechar-se em Lisboa, em Bruxelas e noutros corredores do poder.
Enquanto houver corações portugueses como o de Isabel Fernandes, jovem voluntária da ATACA que há pouco ganhou o prémio europeu de “Melhor Voluntária do Ano”, haverá razões para acreditar que os homens e mulheres deste país não são números, as pessoas. Mas vamos lá a ter ideias claras: a força do voluntariado não impede que continuemos a encher as ruas de gritos de indignação, de protesto e de revolta para obrigar governantes a executar medidas próprias dum Estado Social pelo qual devemos lutar.
Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a ortografia tradicional portuguesa.

Excelente artigo este. Parabéns ao seu autor.