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As “Grândolas”, os figurões e os lóbis

 

José Gonçalves

(diretor)

 

Quando ler este artigo, e porque o mesmo estará on-line durante um mês, neste caso o de março, poderá já saber quem é o novo Papa, depois de a 28 de fevereiro de 2013, pelas 19 horas portuguesas, Bento XVI ter resignado, oficialmente, ao cargo. Também poderá saber como correu a ação a 02 de março de contestação popular à Troika e às medidas de austeridade luso governamentais.

Por mais estranho que possa parecer, há linhas que se cruzam entre estes dois acontecimentos. Um de projeção urbi et orbi e o outro a um nível mais doméstico, mas importante para as gentes das grandes urbes, vilas, aldeias e lugares deste desgovernado país e que, por curiosidade, professa, na sua maioria, a religião católica romana.

papa - 01mar13

No primeiro caso, o líder da Igreja de Roma, ao ser confrontado com graves casos de pedofilia e corrupção, teve a coragem de resignar ao cargo, para que alguém, mais jovem, possa dar dois murros na mesa e endireitar as coisas. No seio eclesial há quem questione essa “coragem”, mas isso é um problema de contornos muito mais complexos.

No segundo caso, o líder do governo português, mesmo sendo confrontado com outra falha (100 por cento) nas previsões de recessão para 2013 (de1por cento para 2 por cento, mas há quem diga que poderá chegar aos 2,5), do aumento do desemprego (16,9 por cento no quarto trimestre de 2012 e com tendência a subir até aos 17,5) e da quebra de receitas, não se demite e não demite, preparando, por cima ainda, mais um pacote de medidas de austeridade para o corrente ano, não se sabendo onde é que – ele e o seu “Sancho Pança” (leia-se Vítor Gaspar) – irá “buscar” (roubar!) 800 milhões de euros.

 

Por cá, pede-se à Troika mais um aninho para se cumprir as metas do défice. Em Roma, espera-se que o próximo Papa não ceda às pressões dos lóbis (gays?) e avisa-se, desde já, para as jogadas de bastidores tendo em vista aniquilar potenciais candidatos a postos de destaque na hierarquia da Igreja.

Veja-se o que aconteceu com D. Carlos Azevedo (ex-bispo auxiliar de Lisboa e, atualmente, membro do Concelho Pontifico da Cultura no Vaticano), que 30 anos depois – 30 anos! Não foram 30 dias! 30 anos – foi acusado, publicamente de assédio homossexual. Ou seja, o que é que andou a vítima de tais assédios a fazer durante esse tempo todo: três décadas? Porque será que, precisamente, quando a Igreja fica sem Papa, e irão vagar os bispados de Lisboa e das Forças Armadas, é que o capelão hospitalar do S. João, no Porto, lembrou-se de levantar publicamente este problema? Terá sido isto por mera coincidência, revolta, desespero ou canalhice? Os bispos, os padres, os “capelões” são homens, e como homens também podem cometer os seus … traiçoeiros pecados!

 

Por cá, ouviu-se a “Grândola” dia sim-dia sim. Acho que só mesmo em abril de 1974 é que se ouviu tanta canção de Zeca. O mais popular ministro deste (desgoverno) até entoou os acordes em Clube de Pensadores. Ele (Relvas) nem sabia a letra… foi para o gozo! Gozou com quem se manifestava num local público, que o não agrediu, e que transmitiu aquilo que muitos portugueses não transmitem mas que gostariam de transmitir: um “Basta” a esta política de austeridade, de ostracismo, de sublimação, de promoção à pobreza e à fome. É que há fome em Portugal!

Miguel Relvas visita à Loja do Cidadão das Laranjeiras

Relvas ia, na altura, dar uma lição sobre jornalismo, o tal jornalismo que ele ataca a torto e a direito, isto sem um pingo de vergonha na cara. Relvas, mais tarde, e numa tentativa, frustrada de vitimização (porque sabia que lá ouviria das boas e que poderia levar uns empurrões) foi a uma universidade (ISCTE), em Lisboa, numa iniciativa promovida pela TVI.

Os estudantes, que se vêm à nora para pagar propinas e que a maior parte das vezes não têm dinheiro para uma refeição, tinham pela frente um senhor que comprou um curso, e que foi lá à sua casa, à sua Universidade- para os “ensinar” discursando. O que queria ele? Levar na cara, para ser a primeira (ele quer ser primeiro em tudo) vítima do governo a ser fisicamente agredido?

O grau de inteligência de Relvas é tão elevado, que, enquanto outros seus colegas de governo – como o ministro da Saúde – ouviram os protestos calados e depois prosseguiram as suas intervenções, ele… não. Saiu à espera de levar um soco. Mas até nisso, o tiro saiu-lhe pela culatra.

 

Este senhor, quer ser mais papista que o Papa, mas não tem a coragem do Papa, pois, se assim fosse, já se teria demitido. Mas, não! Ele ainda tem o apoio do “conclave”, e enquanto o tiver vai brincando à política, fazendo constantes asneiras, e dando o dito por não dito, como por exemplo – e é só um exemplo – na questão da privatização da RTP.

Relvas sabe que é o “figurão” deste governo e sabe também que, em termos de inteligência e postura política, está “mil furos abaixo” dos seus colegas de executivo, e tanto é que Paulo Portas vai agora exercer determinadas funções que, à priori, a ele seriam destinadas.

Mas ele teima. Ele tem a consciência que Coelho – sabe Deus porquê –  está a ele algemado. Ou seja, se ele cair o outro também tomba do cadeirão.

 

Mas a verdade, é que isto não está para brincadeiras. Não é que o número de desempregados de longa duração aumentou 28,7 por cento em janeiro de… 2013?! Não é que, também no primeiro mês do ano, registaram-se nos centros de emprego mais 16,1 por cento?! Não é que 43 por cento dos desempregados, no final do quarto trimestre de 2012, recebiam subsídio?! Não é que a taxa de pobreza em Portugal é superior à média europeia, ocupando o nosso país o 20.º lugar na EU a 27?! E não é que o senhor Presidente da República nada diz sobre isto?! Está a borrifar-se para a situação?!

 

E depois não querem que cantem a “Grândola”?! Querem que o pessoal esteja calado, abananado, para dar à Europa o exemplo de pacificidade (passividade encoberta)? Canta-se protestando, mas, os outros vão cantando e rindo à sua petulante maneira.

Querem que as pessoas que não têm dinheiro para alimentar os seus filhos, fiquem caladas? Querem que os reformados aceitem o corte nas suas pensões? Ao fim e ao cabo, querem que o povo esteja calado, para quê? Para utilizarem os seus constantes tempos de antena, e a sua liberdade de expressão para dizerem mentiras ou nada que a gente entenda, ou que se entende sabe que sabe a falso?

Eles só podem agradecer a quem lhes interrompeu os discursos, já que assim, tiveram, pela primeira vez nos últimos anos, a oportunidade de não dizerem asneiras.

 

Diga-se, entretanto, que nem todos os ministros tiveram um comportamento idêntico ao do senhor Relvas. Diga-se, que  souberam comportar-se respeitando uma certa ética democrática. Mas isso já não chega, porque os portugueses continuam a não ver qualquer luz ao fundo do túnel. Por mais discursos, por mais tentativas de explicar o inexplicável, os portugueses querem resoluções concretas e imediatas para que, de uma vez por todas, possam respirar ou, pelo menos, preparar-se para um futuro mais tranquilo e promissor, isto sem terem de voltar a cometer alguns erros do passado, como o caso de votarem em enganadores programas eleitorais.

 

Certos comentadores, comentaristas ou paquetes do governo para a comunicação social pagos a peso de ouro, já dizem que o executivo de Passos Coelho resistirá até 2015, e que só há um problema: dificilmente o PSD ganhará as eleições!

Estas profecias vindas de quem vêm, valem o que valem. Não sei o que a Maya dirá de tudo isto, mas estas reações terão a curto prazo os seus custos, porque, pelo andar da carruagem, sabe-se que a paciência está a esgotar-se e, consequentemente, poderá algo passar-se mesmo em sede de coligação governamental. E depois, que dirão os futurólogos? Futurólogos que já se enganaram por diversas vezes na sua empírica e interesseira “futurologia”?

 

Vamos indo e vamos vendo, sabendo-se, por aí se dizer, que mesmo com uma oposição “meia perdida”, perdido se encontra o valor mais importante para que um português – como qualquer ser humano – se sinta bem consigo próprio e com os seus, por participante ativo na sociedade: o trabalho. O tal trabalho que milhares de jovens não sabem o que é. Que outros, que sabem o que é, estão desempregados à força por terem mais de 40 anos. Que outros que trabalham não recebem o devido ordenado. E outros que trabalham quase para aquecer.

Haja dignidade, tento na língua, menos profecias politicamente interesseiras e vergonha na cara.

 

Enquanto isso não acontece, aí vai mais umaGrândola” sem música, pois de “música” andamos nós cheios…

 jose afonso -01mar13

Grândola, vila morena

Terra da fraternidade

O povo é quem mais ordena

Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade

O povo é quem mais ordena

Terra da fraternidade

Grândola, vila morena

 

Em cada esquina um amigo

Em cada rosto igualdade

Grândola, vila morena

Terra da fraternidade

Terra da fraternidade

Grândola, vila morena

Em cada rosto igualdade

O povo é quem mais ordena

 

À sombra duma azinheira

Que já não sabia a idade

Jurei ter por companheira

Grândola a tua vontade

Grândola a tua vontade

Jurei ter por companheira

À sombra duma azinheira

Que já não sabia a idade

 

 

Façam por ser felizes

Cantem a “Grândola”

Mas tenham cuidado!

 

Até abril… e já com Papa e muitos sem papa…

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4 Comments

  1. Augusto Castro (Coimbra)

    A sinceridade. O sem papas na língua. A verdade dos factos. Parabéns José Gonçalves, diretor deste jornal que há 60 edições reúne uma equipa de gente maravilhosa.

  2. Marília da Conceição (Espinho)

    Subscrevo tudo o que disse acerca do caso relacionado com o D. Carlos … e com o resto também, mas principalmente com o D. Carlos e da cilada que, em meu entender, ele foi vítima

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