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Deanna Durbin

José Manuel Tavares Rebelo

 

Na manhã cinzenta, céu de capacete, Janeiro húmido propenso a delírios, o rapaz vai descendo a rua da Canada. Tinha aula às nove, mas decidira sair de casa bastante mais cedo, ele lá sabia porquê. Vinha a pé dos Arrifes. Para trás ficaram os Quatro Cantos, o Paiol e a rua da Vitória. Vinha devagar e pensativo. O silêncio matinal só fora perturbado por duas ou três vezes (uma carroça que regressava, fazendo um barulho infernal, rodas metálicas na calçada, depois de ter descarregado beterraba na fábrica do açúcar, um vendedor de peixe apregoando “ei! Pêxe frêsque!”, uma mulher de preto com um cestinho de amoras que procurava vender).

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Reparava em tudo, até, disfarçadamente, nas caras bonitas de moças que assomavam à janela para ver quem passava. Ao chegar à esquina parou, olhando para a direita, na direcção do Coliseu, rua de Lisboa. Imóvel, recordava Deanna Durbin cantando Amapola, rosto amado, voz perturbante como ponto luminoso intenso que circundasse todo o seu ser, deixando-o, fervente e quente, noutra dimensão. Na véspera, o pai dera-lhe como prenda dos seus 17 anos, um bilhete para a 1ª matinée, onde vira extasiado aquela mulher que o fazia sonhar. O Carlos Wallenstein dissera-lhe há dias que tinha ouvido na BBC que a Durbin iria estrear naquele mesmo ano de 1945 um novo filme, “Lady on a Train”. Mas quando chegaria à ilha? Se calhar só dali a 2 ou 3 anos…

 

Oito e dez. Ainda tinha tempo de ir à porta do Bar Jade falar com o Armando Rocha. Ir ao Jade, mesmo com ele fechado, parecia mania. Mas parece que as ideias se tornavam mais claras nas imediações daquela espécie de túnel, debaixo da escadaria da antiga Câmara. E era necessário combinar uma estratégia para abordar o Dr. Agnelo Casimiro, com quem tinham aula no dia seguinte, por causa da exposição surrealista do Victor Câmara, que ia ter lugar no Museu. Não tinha sido difícil convencer o pintor, mas até se tinha espantado como o director do Museu se vergara perante os argumentos do Grupo. E a coisa estava feia. Já alguém tinha falado nisso ao Padre Rebelo que, nas aulas da semana passada, aconselhava a que ninguém fosse ver quadros de pintura escandalosa de “um pintor barbudo e de botas de montar” que andava por aí a conspurcar o ambiente com imoralidades. O homem até era boa pessoa, mas sempre receoso de ideias novas, ia pensando enquanto caminhava apressado. E era preciso analisar o projecto de criação do Círculo Literário Antero de Quental, que todos ansiavam que estivesse constituído no ano seguinte, quando se perfizessem 54 anos sobre a morte do poeta. A verdade é que, apesar da sua fama de carbonários já estavam a agitar a modorra micaelense com algumas pedradas que abriam portas na mornaça habitual.

 

Nisto, ia já a meio da rua Marquês da Praia, sente uma pancada afável nas costas. Diogo Ivens caminhando acelerado não se sabe para onde (homem especial, caminha depressa numa terra vagarosa, magicou para si) diz-lhe de passagem que o Armando ficara doente em casa.

Chegou a tempo à aula, mesmo tendo de atravessar a correr os portões de ferro do palacete liceu. Pensar noutros projectos acabara por atrasar os seus passos: um artigo para o Girassol (jornal do liceu), falar com o José Barbosa para a colaboração no jornal A Ilha, organizar uma romagem ao jazigo de Antero no aniversário da sua morte, em 11 de Setembro, delirar com a amada Deanna Durbin.

 

2005, Winnipeg, Manitoba. Novembro. Assembleia Geral do CMCA terminada. Voo de regresso a Lisboa. Antes de adormecer, o rapaz, passados 60 anos, dá uma pancada na testa e exclama para si: isto é inacreditável! Estive uma semana na terra de Deanna[1] e não me lembrei dela…

 

Só um

som

sem

sen

tido:

 Fré

mito

 d’asa?

bito

passa.

(Fugi-

dia.)[2]

        

 praca da liberdade 01 - 01mar 13

 

COMO CAMÕES DESCREVEU UMA MULHER

Perguntas ao Leitor

 

Luís de Camões faz uma saborosa descrição de uma mulher bonita, numa “Carta a um Amigo de Lisboa”, antologiada por Eugénio de Andrade (in: Versos e Alguma Prosa de Luís de Camões, Campo das Letras, Porto, 1997, p. 171), na qual diz que ela “…tem uma testa de alabastro, uns olhos de mordifuge, um nariz de manteiga crua, uma boca de pucarinho de Estremoz…”.

Deixo à imaginação de quem me lê conceber uma bela mulher com estes atributos (e Camões era experiente nesta matéria, como sabemos…).

Para elogiar este ser admirável, Camões distingue as diversas partes de um todo – a “testa”, os “olhos”, o “nariz” e a “boca”, substantivando-as como se viu.

Muito a sério: cada um dos leitores e leitoras tem testa, olhos, nariz, boca, sensibilidade, maneira de ser e de estar diferentes. Ninguém pretende que sejam todos iguais, nem seria possível ou verdadeiro que assim fosse.

Todos diferentes, mas todos iguais, homens e mulheres desta comunidade leitora do “Etc eTal Jornal”, tentem descobrir que mulher é esta descrita pelo nosso poeta maior:

 

“uma mulher ter olhos de mordifuge” serão para morder e fugir?

 

uma mulher ter nariz de manteiga crua”  – será nariz para lamber?

 

“uma mulher ter boca de pucarinho de Estremoz” será boca para beijar?

 

 

 

 

Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a ortografia tradicional portuguesa.

 



[1] Deanna Durbin nasceu em Winnipeg, 1921

[2] E.J.,Anunciação, Os Silos do Silêncio, p. 221 (pedindo desculpa pela abusiva utilização do poema neste  contexto)

1 Comment

  1. R ui Luís F (Luanda)

    Excelente artigo do senhor José Manuel Tavares Rebelo, relevando uma bonita mulher, que também fez parte dos sonhos da minha juventude. Sonhos, e que sonhos.
    De momento, encontro-me em Luanda, mas, para se saber, sou português da Póvoa de Varzim.
    Quanto ao desafio que coloca aos leitores, penso que será um nariz para lamber.
    Esteja certo ou errados, os meus parabéns pela sua peça.

    Mais: Falta alguma publicidade do “Etc e Tal Jornal” no Google, eu encontreio-o por acaso, mas sei que algumas pessoas da comunidade portuguesa aqui em Luanda, o lêem. Parabéns a todos os dos jornal e ao seu diretor em especial.

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