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Santos ou Pecadores?

 

Maria de Lourdes dos Anjos

 

Há mais de vinte anos, quando senti a vida do meu pai a esgotar-se rapidamente, resolvi saber as condições de compra de uma sepultura perpétua numa irmandade religiosa da cidade do Porto.

Falei com a minha mãe e com a minha irmã e acertámos o negócio na secretaria da igreja a que o cemitério pertence. Levei todos os documentos e disse que ficaria em nome das duas irmãs. Escritura feita, terra paga e pronto.

Quando informamos que queríamos fazer as fundações, preparando tudo com antecedência, sem necessidade de aumentar as dores do luto a toda a família, para nada ser feito em cima de uma dor grande, tivemos  a primeira surpresa: as obras só podiam ser feitas por este ou aquele marmorista conhecido e apadrinhado pelo sacerdote e a irmandade, porque eram as regras da casa aprovadas em  assembleia geral.

Pois assim seja.

Fomos à procura  de orçamentos dos eleitos de Deus e pimba…eram iguais entre si, mas mais caros que outros. Muito mais do dobro. Porquê? Olhem, porque sim. Porque cumpriam os regulamentos e nunca havia problemas. Pois, eu até percebi!

 

duas de letra 01 - 01mar13

Um dia, quando em família, se discutia este catecismo a cheirar a mofo por todos os lados, o meu pai apercebe-se da nossa compra e diz, assim como quem não quer a coisa, que não tinha vontade de ficar eternamente no Porto, porque a cidade tinha servido para dar às filhas tudo o que a ele tinham negado. A sua raiz estava na sua terra e era para lá que queria voltar, para junto dos meus avós. Foi ainda dizendo que se podavam os ramos, caíam as folhas, colhiam-se os frutos mas… cortar a raiz  da árvore era matá-la.  Sentia-se  muito orgulhoso do chão donde viera e nunca ficaria em paz  se lhe negassem a sombra da árvore onde fizera o seu ninho.

Homem de um só querer, sem deuses nem rezas, de uma só palavra e um amor único, pai e avô de pulso forte e sorriso franco, com duas mãos calejadas pelo trabalho e um coração enorme pulsando pela liberdade e pela justiça, nada mais precisou dizer para que  se cumprisse o seu desejo.

 

E agora? O que vamos fazer ao novo “apartamento”? Já não se justificava continuar na irmandade apesar das obras quase adjudicadas a um dos tais “abençoados por deus”.

E aí vai a Maria falar com o senhor abade, expor a situação e pedir autorização para vender a sepultura pelo mesmo preço de compra apesar de sabermos que até já eram mais caras.

Aqui quase caíram o Carmo e a Trindade. Fui informada que primeiro se vendiam as sepulturas que  eram propriedade da igreja, depois, bem, até podiam fazer-nos o favor mas apenas pagavam pouco mais de metade daquilo que nos fora exigido.

Mas afinal, que raio de padre nosso era este? É então que surge a última facada. Sou avisada que a minha irmã, sendo divorciada (como constava em todos os documentos que foram apresentados) nunca poderia ser enterrada naquele cemitério como irmã da santíssima ordem porque não cumpria os mandamentos da santa madre Igreja.

Pois! E se eu der abrigo, como última morada, a uma prostituta, será que Jesus, o doce Jesus me castiga ou me abençoa? Nem pensar, disse o senhor prior, aqui só pessoas de família, com laços de sangue devidamente comprovados. Pelos vistos só senhoras bem casadas e maridos secretamente bem corneados podiam habitar aquele condomínio fechado.

 

Depois de algumas batalhas verbais, alguns santos ofícios e muito tempo de espera, um armador, amigo comum e acostumado a dar umas esmolas aos santos da freguesia, conseguiu que o negócio se fizesse com um pequeno abatimento no preço estabelecido e lá nos vimos livres do “apartamento” com vistas para o campo dos caladinhos, mesmo no centro da cidade do Porto.

O meu pai foi para a sua terra e as filhas sentiram que cumpriram a sua última vontade. Ficou apenas mais um motivo para eu pensar que realmente  ainda há muitos crentes que fumam muito ópio e que quanto mais ignorante é um povo mais seitas e religiões crescem e florescem.

 

Lembrei-me de vos contar esta estória porque o Santo Papa deve estar metido numa gangada dos diabos, sem pachorra para tanto mexerico, com a cabeça cheia dos conselhos da senhora Merculina e coitado, velho e cego e cansado e já com direito a hotel de luxo com cama e mesa e roupa lavada, resolveu revolucionar a santa irmandade e vai dar de frosques. Deus lhe dê saúdinha e olhe, se precisar, eu recomendo-lhe uns médicos portugueses fantásticos a quem confiei a vida do meu companheiro e que mo devolveram novinho em folha. Fiquem em paz, amigos!

 

QUERO SER EU!

 

duas de letra 02 - 01mar13

Não quero ser ave, nem mar
nem nuvem, nem vento,
nem sonho, nem pensamento.
Nem luz pra te alumiar,
Nem lume pra te aquecer…
Nada disso quero ser.
Não quero deixar de ser  gente,
nem preciso ser diferente.
Quero apenas um pouco de céu
e quero ser Eu
Quero ser livre no meu país,
Quero gritar sou feliz
e quero ser Eu.
Quero ensinar e aprender
Quero semear e colher
Quero partilhar contigo o meu dia
Quero adormecer com alegria
Quero ser livre no meu país
Quero que também sejas feliz
E quero ser Eu!

Lourdes dos Anjos   in “Entre o Granito e a Neblina”

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5 Comments

  1. Lourdes dos Anjos

    Muito obrigada ao MANUEL JACINTO pelas suas palavras e sobretudo espero que se cumpram as suas previsões porque o ETCETAL é quase a vida do amigo JOSÉ GONÇALVES e todos o queríamos ver a respirar fundo mas com o bolso menos vazio.E se ele fosse candidato a qualquer posto político?BAMOS NESSA, CARAGO!UM ABRAÇO AMIGO E MUITO OBRIGADA.

  2. Manuel Jacinto (Porto)

    É verdade: Aqui ainda há palavras livres. Tem toda a razão. É assim que me identifico com os seus valorosos trabalhos, e com o jornal no qual os edita, isto graça, convenhamos, a um director que defende a liberdade, que é um democrata, um humanista e um jornalista de qualidade. Penso também que o admira. Eu admiro-a, a si Maria de Lourdes, pela coragem e frontalidade com que escreve os seus artigos. Penso que o nosso jornal – porque o leio desde a primeira série – vai dar um grande salto, e penso isso, porque a forma de progresso que o jornal estaá a ter – um tal de devagar, devagarinho vai-se ao longe -, um tipo de muito terra-a-terra, o não dar um passo maior que a perna, vai surtir os seus positivos efeitos e para muito breve.
    Comento isto, na sua coluna, poderia-o fazer na do José Gonçalves. Mas, não, preferi aqui, porque caso contrário não havia babas que chegassem para o senhor. E escrevo-o porque sei que você respeita a liberdade de expressão e porque gosto do que escreve e sou seu admirador. Neste Dia Internacional das Mulheres um abraço. Seria um beijinho se a conhecesse. As melhoras para o seu marido.

  3. Lourdes dos Anjos

    SENHOR JOÃO SANTOS, neste jornal ninguém combina o que vai escrever. O que aqui está escrito veio ao de cima, porque SIM…talvez por a igreja estar em cena por algumas cenas pouco católicas.Já aqui foi dada voz ao pároco da IGREJA DO BONFIM e tenho a certeza que numa situação de prós ou contras, o que o diretor recebe é exatamente igual.POR AQUI, AINDA HÁ PALAVRAS LIVRES E TALVEZ POR CAUSA DO NEVOEIRO DO PORTO, NÃO HÁ MACHADOS QUE CORTEM A RAIZ DO PENSAMENTO.

  4. João Santos Duarte (Lisboa)

    A Igreja tem de tudo um pouco, é como na nossa sociedade, mas há valores que devem ser defendidos e que Ela representa como poucos. Os missionários, a Cáritas e outras instituições do género não lhe merecem consideração?
    O vosso jornal parece que, nesta edição, virou-se contra a religião católica… não sei por quê?!

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