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Memórias

 

José Manuel Tavares Rebelo

 

 

MEMÓRIA DA INFÂNCIA

 

1947. 1 de Outubro. Desces, passo rápido, bata branca, coração apertado, sapatos novos, desces até ao portão da casa branca, cercada de cameleiras, onde vives com teus pais e avós, no Cerrado da Pedra, parte alta de S. Vicente Ferreira. Sabes que lá em baixo, junto ao portão, espera o teu amigo Luciano, filho da caseira Alexandrina, pé descalço e teu companheiro diário de brincadeiras no jardim da casa. “Mamã, posso andar descalço? Está bem, filho, depois lavas os pés antes do jantar”.

Por isso, os teus pés já têm as solas grossas e calejadas, como os outros. Luciano espera-te, encostado ao portão. Não te diz nada, nem tu a ele. Cada um sabe do seu papel. É o teu primeiro dia na escola (dos rapazes) e Luciano, 2ª classe sabida, está compenetrado do seu papel protector e conselheiro.

 

s.vicente ferreira - 01abr13

 

Papel combinado quase sem palavras, na véspera à tardinha, só tu e ele, no muro de terra com o mar ao longe, a sentir o cheiro da baleia morta nesse dia nos Poços. Agora descem juntos a rua da Arrenquinha, afastam-se instintivamente da casa-cor-de-rosa, à direita, depois da curva. Era a casa do Mariano Cabrita, que diziam ser um homem misterioso, que só andava de noite. Caminham sem pressa de chegar, brincando à bola com as pedras mais pequenas, que atiram com os pés para as valetas. Olhas, à direita, para a casa branca do João da Ponte. Estacas. “Luciano, vamos ver”. E param à porta da loja de baixo, observando atentamente o trabalho das raparigas ao tear, pancadas secas e certas com os pés, mãos hábeis a compor os fios de lã.

Conceição Terceira, tua colega da 1ª classe, olha-te amigavelmente sem nada dizer. Fazem cobertores. Lã das ovelhas de tua avó, que o José Vieira costumava levar para os pastos e matas. João da Ponte, rendeiro de D. Alice, era um homem bom, emprestava-lhe o cavalo branco e preto para nos levar à Missa do Padre Simão, no charabã preto de capota. “Zazé, anda daí”, chama Luciano impaciente.

Caminham mais depressa. À direita a casa de Julieta, filha da tia Marquinhas, que com a neta Dores, costumavam visitar tua avó. Dores emigrou. Anos depois, uma sua filha veio visitar-nos: uma lindíssima “americana”, elegante e bem vestida, que foi connosco ao Casino das Furnas, fazendo virar as cabeças dos rapazes.

 

Mais abaixo à esquerda, a casa da família Coelho, com cancela de madeira e galos a cantar. No ano passado tinhas estado na escola das raparigas, a pedido de D. Alice, para não aprenderes as malcriadices dos rapazes de S. Vicente. Caso único em Portugal continental, insular e ultramarino: em 1946, um rapaz frequentara, durante um ano lectivo, a escola das raparigas de S. Vicente Ferreira. Ias para a escola com tua irmã Menina e com tuas primas Amália e Isa, estas vindas do Torreão, da Conceição das Capelas. A pobre D. Virgínia, que vinha todos os dias dos Fenais da Luz no charabã do irmão, 40 anos de serviço e 60 de idade, nunca vira uma coisa assim: um rapaz no meio da sua sala de 28 meninas.

 

Mas agora, depois daquela 1ª classe envergonhada, ias descendo a Arrenquinha, novamente envergonhado, porque ias enfrentar os rapazes e a D. Carolina com a sua régua de osso de baleia. A sala ficava num 1º andar, na rua da Igreja. “Luciano, entra primeiro”, pedes-lhe a tremer. “Vou entrar e depois tu entras muito devagarinho”, responde ele.

E assim foi. Entraste, e antes de enfrentar a classe, ainda demoras uns segundos (benditos segundos) a fingir que te custava a fechar a porta. Voltas-te e olhas: Salazar, Carmona e D. Carolina, olhar severo, a ver o que fazias. Ouviam-se as moscas. “Vá, depressa, senta-te aqui à frente”. Para tua desgraça, Luciano ficara três filas atrás.

 

MEMÓRIA DA JUVENTUDE

 

 

jovem indiana -01abr13

 

 A uma jovem indiana

 

Passas e

olho

teu corpo grácil escuro.

Páras e

miro

teus olhos travessos que brilham.

 

Na tua mão vejo

um livro que mais ninguém lê

senão tu.

 

E estremeço.

 

Olhos vendados,

não vislumbro o

provável tesouro que

te rodeia o pensamento.

 

Transponho pontes

passo muros e rios

no

encalço da tua imagem branca.

 

Não descortino

a luz

que do passo ligeiro

sai

salta

e brinca

escondida na noite.

 

Súbito

uma leve aragem

faz-te voar

black and white

pela

janela fora,

 

Ali ficou

um rasto,

um gosto doce,

num sorriso de menina.

 

MEMÓRIA DE HOJE

 

contemplando - 01abr13

 

Sinais de primavera na temperatura que subiu, nas ávores com rebentos novos a despontar, no jogo de luzes do sol reflectido no Douro grávido de tanta água caída neste inverno.

Levanto-me da esplanada onde acabara de tomar um café e caminho vagarosamente pela margem direita em direcção à ponte D. Luís. Estranhamente, naquele fim de manhã de sábado, havia pouco movimento de carros, de tal modo que até se ouviam vozes e conversas.

Dois amigos olhavam o rio sem falar, serenos, aspirando o ar matinal e captando a força gigantesca do rio que passava em baixo. Sento-me perto de ambos para colocar as habituais gotas nos olhos e, ao fazê-lo, num movimento desastrado, deixo cair os óculos que ficaram perigosamente perto do declive que vai dar ao rio. Num salto, João apanha os óculos e entrega-mos com um sorriso. Dali nasceu uma conversa a três. João, empregado numa fábrica de móveis em Gaia, onde trabalhara 17 anos, tinha sido despedido após falência da empresa. Luís, com uma licenciatura em design gráfico e estágio profissional concluído há ano e meio, ainda não conseguira qualquer trabalho, vivendo com a mulher e um filho pequeno em casa dos sogros. Participavam em todas as manifestações, não “para se divertirem”, mas para darem força aos que pretendiam derrubar a gentinha sem carácter, sem paixão e sem espírito de serviço que nos (des)governava por essa Europa fora.

Todos concordámos que o mal espalhado por alguns nas sociedades tinha quase sempre origem  no facto de haver pessoas que não estavam colocadas  nos sítios  certos . Pedro Passos Coelho, por exemplo, podia ser um óptimo plantador de batatas em qualquer aldeia transmontana e até presidente da banda de música local, animando e divertindo a malta da freguesia. Vitor Gaspar até podia dar um bom treinador de futebol em Cabeça Gorda (desde que não fizesse contas nem previsões).

É tudo uma questão de colocar as pessoas certas nos lugares certos. Não vale dizer que essas pessoas são a personificação do mal. Não encontraram ainda foi o seu lugar certo! Temos de as ajudar…

E há coisas boas nesta crise. Por exemplo, em Portugal, em que durante anos os museus estiveram abandonados e às moscas, formam-se ultimamente grandes filas para entrar nos museus, principalmente aos domingos, com entradas gratuitas. É o caso do Museu Nacional Soares dos Reis.

E olhando para fora, outra boa notícia foi a de Francisco, novo Bispo de Roma, com sinais tão fortes de mudança radical na simplicidade, na modéstia e humildade, na opção pelos pobres e  até no bom humor. E reflectimos neste apelo  que dirigiu aos líderes mundiais presentes: à paz e fraternidade entre os homens mas também à fraternidade universal, envolvendo nesta última palavra tudo o que existe, aquilo que foi criado e que não deve ser destruído: plantas, animais, ar, água, solos, etc., tudo o que contribui para o equilíbrio, a justiça e o cuidado a ter entre o homem e a natureza.

Muito mais se falou. E muito nos rimos com algumas coisas como essa de ter sido instituído o Dia Mundial da Felicidade. A felicidade não se cria por decreto! A felicidade sai do interior de cada ser humano e transmite-se, se ele ou ela quiserem, para o ser que está a seu lado, seja próximo ou desconhecido, podendo criar-se assim uma rede universal de unidade, fraternidade e felicidade, não num dia, mas todos os dias. Quase sempre os dias mundiais são para vender alguma coisa…

Quanto aos nossos dois amigos tinham criado o hábito de vir, em cada sábado, para junto do rio, para encherem o corpo e o espírito da força e serenidade emergentes das suas águas. E isto com uma finalidade: uma vez que não pretendiam ser simples contestatários, indignados ou revoltados face à situação existente em Portugal (e noutros países), queriam fazer nascer em si uma força tranquila e serena, que, transmitida a outros, levasse todos à insurreição pacífica.

Não queriam ser revoltados, mas revolucionários, de modo a mudar efectivamente a(s) sociedade(s). Tendo chegado à conclusão que um país sozinho era impotente para fazer esta mudança, pugnavam pela criação duma Aliança Europeia das Nações Oprimidas pelo Euro (AENOE) que, entre outras medidas,  propunha que os candidatos aos diversos parlamentos tivessem o máximo 27 anos de idade com uma quota obrigatória de 50% de mulheres.

Enquanto nos despedíamos, combinando novo encontro para o sábado seguinte, passava um casal de namorados, ele com um livro na mão, lia para ela:

Eu canto o pássaro que poisa já no ramo ou

uma reviravolta de quadrante

que arrasta folhas mortas no outono

…………………………………………………………….

eu canto as tardes frescas quando nas

repartições nos não congregam os cuidados

e as longas alamedas se cumulam de flores vermelhas

………………………………………………………………………………..

In: Ruy Belo, O Tempo das Suaves Raparigas, Assirio & Alvim, Lx, 2010, p. 69

 

 

 

 

Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc e Tal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

 

 

4 Comments

  1. José M Tavares Rebelo

    Aos leitores que tiveram a bondade de comentar os meus textos, senhores Rosado Correia,José Maria Soares e João Faria Silva, agradeço do coração.
    Escrevo o que me vai na alma, à flor da pele, quase sem pensar.E há, de facto, alguma coisa nas entrelinhas que vai para além do que está escrito.
    Respondendo directamente ao amigo José Maria Soares, não tenho ainda qualquer obra editada, sem contar com algumas colaborações em jornais e revistas. Devemos ser de facto da mesma geração e, por coincidência, passei alguns anos em Coimbra, durante a minha formação académica. Bem Hajam! Muito obrigado. JMTR

  2. Rosado Correia (Setúbal)

    Exmo Sr. Gostei muito de ler o seu trabalho. Há algo de interessante naquilo que escreve, e que está para além daquilo que de imediato se entende.

  3. José Maria Soares (Coimbra)

    Há alturas que tenho sorte quando viajo pela Web. Já conhecia o “Etc e Tal”, ainda que há relativamente pouco tempo, e, agora conheci o senhor José Manuel Tavares Rebelo que, pelos vistos é da minha geração.
    Não sei porquê que, antes, nunca tinha “entrado” na sua Praça da Liberdade, mas como vale mais tarde que nunca, eis que, desta vez fui ler as suas “Memórias”.
    Gostei muito, mesmo muito do seu trabalho. E tanto gostei que lhe estou a escrever. Não sou muito de fazer comentários. Gostei imenso do seu trabalho. Pergunto-lhe somente se já tem alguma obra editada. Se me fizer o favor de responder, agradecia.
    Uma vez mais, os meus parabéns!

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