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Tempos perigosos…

 

Lúcio Garcia

 

Quem costuma ler as minhas crónicas, sabe que não enveredo pelo caminho fácil da demagogia. Tento ser o mais objetivo possível, justificando as minhas ideias e argumentos em factos e números concretos. Não cedo à propaganda fácil do “bota abaixo” ou na defesa /ataque de pessoas ou instituições pelo que se escreve nos jornais. A maioria das vezes elas só visam a destruição do caráter das mesmas pelo diz-se, diz-se e não tendo qualquer tipo de consistência. No entanto, a sua constante repetição parece resultar e acaba por se tornar verdade.

 

socrates - 01abr13

 

Há meses atrás, escrevi que muitos dos que defendiam com unhas e dentes a prossecução desta política devastadora, assumida pelo governo de Portugal e pelos dirigentes Europeus iriam, a breve prazo, (nunca pensei é que fosse em tão pouco tempo), mudar como camaleões e afinal começarem a reconhecer que a política estava e está errada. Afirmaram vezes sem conta que o culpado era o Sócrates e que o País vivia acima das suas possibilidades, como se não fossemos os mais pobres da Europa. Quer eles queiram quer não, foi Sócrates que conseguiu no seu primeiro mandato o menor défice de todo o sempre desde o 25 de Abril e foi o dirigente político e governante que mais se insurgiu e tudo fez, para evitar a vinda da Troika para Portugal.

 

Uma das vozes mais ouvidas é a de que foi o PS e Sócrates que assinaram o memorando da Troika. De tanto afirmar isto, as pessoas convenceram-se de que também aqui a culpa foi do Sócrates e do PS. Mas será que a memória é tão curta? Aconselho os meus leitores a lerem os jornais da época e pensarem por si, tirando as suas ilações com a vantagem do tempo passado. Mas quem não se recorda dos negociadores do PSD e do CDS, chefiados por Catroga a reivindicarem para si o êxito das negociações e até no final Passos Coelho dizer que o que foi negociado foi o seu programa de Governo?

Recordemos que o Programa da Troika, foi negociado pelo PS, pelo PSD e pelo CDS e o programa foi assinado por todos e pelo primeiro-ministro Sócrates, porque era ele que chefiava (não lhe deram alternativa) um governo em gestão que apenas tratava dos assuntos correntes do Estado. O primeiro-ministro já se tinha demitido, é bom lembrar.

Convém não esquecer que o que conduziu a esta situação, foi a queda do Governo pela reprovação na A. R. do PEC IV, com o claro apoio do PCP e do Bloco, as saudades que estes devem ter do PEC IV, aliados ao PSD e ao CDS.

 

Reconheço, que para sairmos desta crise, é absolutamente necessário alterar a política que tem sido seguida. Este governo que nos desgoverna não poderá, como Sócrates não pôde, resolver por si só este imbróglio em que nos meteram. E digo bem, que nos meteram, a Europa e seus governantes de direita. Hoje, muitos já afirmam e reconhecem, a começar pelo prof. Marcelo Rebelo de Sousa entre muitos, que foi a União Europeia a obrigar o Governo português de Sócrates a investimentos vultuosos, para animar a economia por causa da crise financeira de 2008, para pouco tempo depois alterarem essa politica pela da austeridade do custe o que custar.

Muitos afirmam hoje que não há alternativa, claro que há alternativa, há sempre uma alternativa. Dizem que o PS a governar seria a mesma coisa que o PSD. Não, não concordo com isso. Há uma grande diferença e ela passa de imediato pela diferença nas políticas.

 

O PSD concorda e até ultrapassa em muitos casos as políticas de direita da Governação Europeia de Merkel e seus apaniguados europeus da linha dura, da qual Passos Coelho e o seu PSD fazem parte. Esta é uma diferença monumental. O PS, tem uma política Europeia que não tem nada a ver com esta. A construção Europeia do PS, passa pela Federação da Europa, por uma política mais Keynesiana, por uma Europa mais solidária, e eu acredito que o PS, saberá defender muito mais os interesses dos Portugueses e dos mais desfavorecidos do que o PSD de Passos. Esta foi a principal razão porque Sócrates caiu, não quis pactuar com políticas exageradas que levariam o País para o abismo.

Durante a campanha eleitoral Sócrates avisou muitas vezes do que se iria passar, nas áreas da Saúde, da Educação e do Estado Social. Não se lembram? Pois vão até à biblioteca e peçam os jornais da época, consultem a internet, há montes de sítios onde ir procurar e relembrar o que se passou.

Já sei que vão dizer que estou a defender Sócrates. Não se trata de defender ou não, trata-se de repor factos verdadeiros e contra factos não deve haver muitos argumentos se é que há algum.

 

manifs pcp - 01abr13

 

Como já referi varias vezes, não sou militante de nenhum partido, embora me considere um militante político de esquerda.

Como gostaria de ver o PS, com outras forças da esquerda unida num mesmo governo. Infelizmente e cada vez mais, parece-me esta solução, uma utopia.

E porquê? Ora, porque basta ir às últimas manifestações populares para nos apercebermos que o PCP, o seu braço sindical a Intersindical, e o Bloco, atacam e preocupam-se mais com o PS, do que com as politicas desastrosas deste governo. Esta é uma verdade, que só quem é cego não vê. O Bloco e o PCP, que com a sua politica “Patriótica e de esquerda”, pergaminhos que pensa serem só seus, como se todos os outros, fossem uns “antipatriotas e de direita”. Esta arrogância, torna inviável qualquer acordo, para o PCP, quem não concorda comigo é contra mim, tudo para o PCP é branco e negro, pelo meio não há nada. Assim, não é possível negociar nada, e é por esta razão que penso que o PCP, nunca será partido de poder neste país. O povo não é estupido e o PCP ainda não percebeu isso, embora fale sempre em nome dele, não creio que o faça por ele.

 

A Europa necessita de uma alteração urgente nas suas políticas. Isso também passa pela conquista da governação nos diversos países pelos partidos socialistas europeus. Comecemos a pensar no nosso para que urgentemente, se altere a política.

Trabalhemos pelo menos para exigir ao PS, essa mudança. Para que o PS uma vez no poder, não ceda à chantagem a que temos estado submetidos. Nós também temos força para exigir e exigir com razão aquilo que nos foi roubado e espoliado. O que se tem passado deve-se à conivência deste governo de Passos com interesses que nunca foram os do Povo português.

O Parlamento de Chipre recusou o roubo sobre os depósitos dos seus cidadãos. Vejam ao ponto a que chegamos. Esta direita europeia já não tem sequer princípios. Tudo serve para roubar ao povo aquilo que foi responsabilidade de outros, nomeadamente da Banca, dos mercados e da avidez descontrolada do lucro fácil.

Neste caso de Chipre e da Grécia começa a haver até uma enorme irresponsabilidade no que toca à salvaguarda do quadro de defesa estratégico da Europa e não só. Os Estados Unidos começam a estar também eles muito preocupados com a incompetência dos dirigentes europeus.

 

merkel - 01abr13

 

Imaginem que o povo destes dois países se começam a sentir demasiado pressionados pelo cerco europeu de Merkel, dos países da linha dura e também de Passos que é seu fiel seguidor. O euro está em sério risco e a Europa também. Quem nos garante que estes dois países dado a pressão a que o seu povo está sujeito não se vira para os Russos ou até para os Chineses, para assegurar a sua estabilidade? Isto iria ter um preço incalculável para a Europa. Esta situação poderia alterar significativamente todo o quadro estratégico do Ocidente. A incompetência é atroz. Quem tem o bom senso de acabar com isto? Se a Grécia e Chipre abandonarem definitivamente o Euro, a Alemanha vai também ela sofrer um grande revés. A dívida que nunca mais será paga aos bancos alemães será enorme, são eles os maiores detentores dessa mesma dívida e não sabemos que consequências imediatas trarão para a Alemanha, para o Euro e a Europa. Talvez este seja o rastilho para iluminar algumas cabeças que travem o descalabro a que assistimos.

 

Não sei, é se iremos a tempo.

Os tempos que se aproximam são muito perigosos. Esperemos que o bom senso regresse e alguém com peso comece de forma enérgica a levantar-se contra esta política.

Para terminar, uma frase de hoje de Carlos Moedas, essa eminência do Governo de Passos Coelho: “O governo não é o responsável pelo número do desemprego atingido em Portugal…”

Vejam ao que chega a credibilidade deste governo. É preciso não ter vergonha na cara.

Aos meus leitores desejo-lhes muita saúde e até ao próximo mês.

2 Comments

  1. Lúcio Garcia

    D. Palmira Guimarães obrigado pelo seu comentário. Reservo a minha resposta para a próxima crónica a publicar na edição do final deste mês. Obrigado

  2. Palmira Guimarães (Guarda)

    Caro senhor

    Espero que o bom senso do PS – adivinhando-se eleições legislativas antes ou pouco após as autárquicas – não seja o de se aliar, uma vez mais à direita e, neste caso, ao CDS, ainda que o CDS esteja mais próximo do PS que o PSD. Mas à Esquerda não há mais ninguén? São todos uns radicais? Radicais são estes que nos desgovernam. Entretanto, diga-se, que Seguro, foi seguro nas afirmações e posições que teve nas encenadas reuniões que teve com o Passos e com a TRoika.

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