Oitenta e três anos depois, a Feira do Livro do Porto, que durante esse espaço de tempo se realizou, foi suspensa, este ano, pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), após um desentendimento com a Câmara Municipal do Porto (CMP), devido ao facto de “não haver, por parte da autarquia, apoio financeiro para a iniciativa”. O executivo liderado por Rui Rio lamenta a decisão e promete criar um evento alternativo. Ao certo, o que se sabe é que não haverá Feira do Livro na cidade Invicta seja para quem for.
Num comunicado enviado aos órgãos de comunicação social, a 18 de abril último, a APEL revelou ter decidido “suspender a Feira do Livro do Porto por falta de meios financeiros”, meios esses que seriam provenientes da Câmara Municipal.
A “novela” entre a APEL e a CMP arrastou-se durante vários meses, isto depois do protocolo entre ambas as instituições, e que vigorou nos últimos quatro anos, ter chegado ao fim.
Sem acordo e sem apoio financeiro, a APEL disse não ser possível a realização da feira “nas mesmas condições de dignidade e qualidade dos anos anteriores”.
Autarquia promete “compensar” suspensão da Feira com iniciativa cultural em julho
A CMP não perdeu tempo e, também em comunicado, reagiu à decisão de editores e livreiros, referindo que “compreende e lamenta a decisão da APEL”, assegurando, porém, ter “já em preparação uma iniciativa que permita, no próximo mês de julho, proporcionar aos portuenses um evento de lazer e cultura que colmate, na Avenida dos Aliados, esta suspensão da Feira do Livro”.
A verdade, é que ainda não se sabe que tipo de iniciativa cultural será levado a cabo pela Câmara Municipal, sendo certo que nada se parecerá com a tradicional realização do evento.
Mas o que é que está na origem desta (histórica) decisão da APEL, oitenta e três anos depois da primeira Feira do Livro na cidade do Porto, e que ininterruptamente, se realizou na cidade?
Segundo a associação de editores e livreiros “era necessário apoio financeiro” da autarquia (75 mil euros), e uma “aposta num programa cultural mais forte”, assim como a mudança da data para “um mês mais tarde” (de junho para julho).
A Câmara Municipal do Porto, por seu turno, diz ter comunicado à APEL que era “inviável o apoio financeiro excecional nos mesmos moldes e valores do que fora pago nas últimas quatro edições da Feira do Livro”.
Escritores sugerem “evento alternativo”
Nesse sentido, o executivo liderado por Rui Rio recorda o acordo feito em 2009 com a APEL com o objetivo da “Feira do Livro à avenida dos Aliados”, tendo, assim, “celebrado um protocolo no valor de 300 mil euros, repartidos ao longo de quatro anos, destinados ao investimento em novos equipamentos”.
A verdade, porém, é que autarquia considera a feira como uma “atividade comercial com fins lucrativos para livreiros e editores” e que “se exige da Câmara, neste contexto, rigorosos critérios na utilização de dinheiros públicos”, ainda que assegurasse a cedência do espaço (avenida dos Aliados) e a “isenção de taxas”.
Entretanto, o presidente da Associação Portuguesa de Escritores (APE), José Manuel Mendes, em declarações ao “Público”, lamentando a situação, desafiou os editores e livreiros a organizarem um evento alternativo, independentemente de considerar que tal ideia dificilmente será aceite pela APEL.
CDU considera decisão “profundamente negativa”
Também a CDU emitiu um comunicado quanto à decisão da APEL ter decido “suspender” a edição deste ano da Feira do Livro do Porto, considerando-a “profundamente negativa”, salientando a “permanente hostilização que a coligação PSD-CDS tem feito a diversos agentes”. Comunistas e ecologistas dizem ser “urgente uma visão estratégica da Cultura, redefinindo as prioridades”.
Recorde-se, que, no ano passado, a Feira do Livro do Porto decorreu entre 31de maio e 17 de junho, na Avenida dos Aliados, sendo de enfatizar, para além dos stands, os espaços criados para conversas com autores, apresentações, lançamentos e sessões de autógrafos e ainda concertos de música e sessões de cinema ao ar livre pelos quais passaram milhares de pessoas.
Texto: JG
Fotos: António Amen
