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Há dias assim…

José Gonçalves

Diretor

Às vezes escrever é difícil, principalmente, quando se tem um compromisso com o público leitor e as horas são difíceis, dificultam-nos o raciocínio, prendem-nos as mãos pela… perda de um amigo. Quando se perde um amigo, alguém que escolhemos para nossa companhia (quase) diária; com quem desabafamos; trocamos ideias, sabores e dissabores da vida; ficamos débeis, sentimos um vazio profundo. Sentimos sentindo! Mas, mesmo sentido… a perda, não podemos que a mesma nos impeça de continuar a lutar pela vida, de forma presencial e pública.

hoje escrevo eu 01 - 01jul13

Ao longo dos meus 26 anos de carreira jornalística passei, felizmente, por poucos momentos como este, mas a vida obriga-nos a olhar para a frente. E se a esse facto, acrescentar um outro – familiar maternal querido, olhos dos meus olhos e alma da minha alma – que se encontra hospitalizado, numa luta permanente e corajosa pela vida… as coisas ainda se complicam mais.

Não quero individualizar muito esta coluna, até porque vocês esperam do jornalista e do jornal, a informação, a opinião e a verdade dos factos. O leitor deve comportar-se assim. O palhaço (artista) tem de fazer rir, por mais que lhe custe ultrapassar certas e complicadas situações. A história é recorrente, fácil de contar…o pior é o resto! Tal como ele, mas em diferente arte, o jornalista tem de escrever mesmo que os dedos não ajudem a transmitir no teclado o que lhe vai na cabeça.

Aquele amigo que partiu… partiu revoltado com o país que o viu nascer: este país desgovernado que dá pelo nome de Portugal. Morreu revoltado por culpa do atual governo e de outros desgovernos que, aos poucos, nos vão, lentamente, matando. A verdade, é que esse verdadeiro lusocídio vai enchendo os bolsos ao Estado, os quais se esvaziam depois para “dar vida” aos bancos.

Quantas mais pessoas morrerem, mais a Segurança Social poupa em reformas ou outras prestações sociais. E, como a população portuguesa é, extremamente, envelhecida, pode, facilmente, prever-se que os cofres do Estado engordem nos próximos tempos, até porque a forma de matar as pessoas é simples e, por mais estranho que possa parecer: visível: os velhos não têm dinheiro para os medicamentos e sem eles vão morrendo; os de meia-idade que tinham os seus negócios e estão atolados em dívidas vão se suicidando; os jovens fogem porque não querem viver num país-morgue. Enfim, posso estar a pintar um quadro muito negro, mas a verdade, é que é muito negra a realidade de milhares de pessoas que vivem neste país.

Eles estão a matar as pessoas à custa da austeridade. Porque eles sabem que há desempregados que sobrevivem desesperadamente sem qualquer subsídio. Muitos (eles sabem!) já perderam a casa, a família e os filhos, e ninguém encontra, ou tenta encontrar, uma solução para este flagelo.

Há mais de um milhão de desempregados – além dos “desgraçados” que não sei do que vivem, e que acabei de referir – que vão ter por companhia não sei quantos milhares nos próximos meses, e ninguém anuncia uma medida concreta (concreta!), já não digo para resolver no imediato, mas para tentar minimizar este grave problema social.

hoje escrevo eu 02 - 01jul13

Sei que não estamos no Brasil, nem na Turquia, nem na Grécia ou em outro país em que o povo se manifesta ordeira e em massa nas ruas, fazendo com que os seus legítimos direitos sejam garantidos, ou, pelo menos, possam ser seriamente discutidos. Aqui, tivemos uma megamanifestação a 15 de setembro do ano passado, e depois? Depois tudo meteu o rabo entre as pernas, e não fosse uma manifestaçãozinha aqui ou acolá “agrandolada” – que dá para o Governo rir! E eles riem-se! Eles, os tais, que estão a marimbar-se para as eleições; para estatísticas e estudos independentes cujos resultados envergonham Portugal – dir-se-ia que o povo luso está resignado. Eu, sinceramente, penso que está “abananado”.

É perigoso para a democracia o povo estar “abanado”! Muito perigoso! Mas, por mais avisos que se façam – e eles partem de social-democratas (não ultraneoliberais), democratas cristãos (não ultraneoliberais) e de independentes de respeito, para já não falar da oposição, pois a ela cabe-lhe esse papel, ainda que, às vezes, pouco esclarecedor , os desgovernantes não ligam; já se habituaram às micromanifestações populares e até já lhes acham graça. E isto graças a Cavaco Silva que é um dos principais responsáveis pela situação que vai matando lentamente um país e que ele próprio deu o mote quando era primeiro-ministro.

Dedico este meu artigo ao Vladimiro Augusto Silva, um amigo que ontem (30-jun13) nos deixou. Meu amigo pessoal e também leitor do nosso jornal. Ele também contestatário desta política suicida e que partiu triste e revoltado com este Portugal. À família os meus sentidos pêsames.

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3 Comments

  1. Lourdes dos Anjos

    Um abraço, AMIGO. A vida é uma curta passagem que se faz num comboio sem hora marcada e destino desconhecido.

  2. Carla Moreira (Porto)

    Eles querem que a gente morra, mas, politicamente, eles vão morrer mais depressa que nós. Eles vão ao raios que os vai partir!

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