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O Passado e o Presente de mãos dadas…

Luís Reina

 

(Abu Simbel – Egipto. Setembro, 18 – 1992)

Assuão.

Terra Negra. Terra Núbia.

Situada no sul do país, no denominado Alto Egipto. Ponto de partida para uma viagem ao passado.

Tempos idos que ansiosamente um dia pensava poder conhecer.

O sol brilhava em todo o seu esplendor e aquecia impetuosamente as areias douradas do deserto – o Sahara.

Um climatizado e rápido trajecto foi feito entre o cais, onde ficou aportado à nossa espera o belíssimo m/s Cheops, e o aeroporto de Assuão.

Um pequeno aeródromo, do qual somente me lembro a sua pista negra, que dividia a meio, como um meridiano de um qualquer trópico, os grãos de ouro desse deserto que cobre todo o norte do continente negro.

Imóvel, no azeviche, um gigantesco Boeing da companhia nacional – Egyptair. Velhinho como a história do país.

Um intenso calafrio no meio do calor desértico que nos aquecia, percorre os nossos corpos suados. Que Hórus nos proteja.

Somos depositados nessa enorme ave voadora, como qualquer outra carga, sem bilhete, sem controlo alfandegário, sem lugar marcado.

E voamos para sul, numa viagem infindável, tal era a ansia de querer colocar de novo os pés em terra firme, melhor dizendo em areia firme.

 

Chegamos, com a proteção de todos os deuses.

Agora só falta uma pequena caminhada até ao nosso alvo. Caminhada ininterruptamente interrompida pelos típicos vendedores de hipotéticas antiguidades que nos tentam impingir, postais amarelecidos por raios de ultra violetas incessantes, artesanato caseiro de defeitos mil, mas que esperam vender ao mais incauto turista e com isso alimentar um sem número de bocas em lares de argila cobertos por intrínsecas folhas de palmeiras.

Ao fundo do carreiro de areia, uma gigantesca colina da mesma cor, que se não fosse o azul do céu mais parecia que estávamos a caminhar num horizonte sem fim.

Essa gigantesca colina dourada, era nem mais nem menos, uma das mais importantes obras da engenharia contemporânea – uma estrutura construída para suportar o conjunto monumental do grande e pequeno templo de Abu Simbel, e salvar este património da humanidade de ficar submerso pelas águas barrentas do rio Nilo após a construção da barragem de Assuão da autoria Egipto-soviético.

Pela primeira vez na vida senti-me uma formiga. Bem pequenina. O elefante dava-se pelo nome do Grande Templo de Abu Simbel e erguia-se à minha frente. Estava boquiaberto perante tanta magnânimidade.

Somente poderia ter sido idealizada e pensada por um génio.

Resistiu às agruras dos séculos.

Presenciou fome, guerra e seca. Sentiu os âmagos das tempestades de areia e dos ventos agrestes do sul. Sofreu mutilações várias, pilhagens, sei lá que mais. Mas continua altiva. Virada para o sul negro das terras do Nilo Branco, virada para a terra escrava, virada para o Sudão.

O Grande Templo de Abu Simbel foi mandado construir pelo faraó da 19ª dinastia – Ramsés II, para glorificação do seu nome. Data do século XIII A.C. e as suas dimensões são impressionantes – 33 metros de altura, 38 metros de largura e 61 metros de profundidade. Além de dedicado a si, este templo é dedicado aos deuses, Rá, Ptah e Amun.

Os colossos representando o faraó, que decoram a fachada exterior, abrem caminho, para outras colossais obras do seu interior. Estátuas colossais, frescos, e todas as heroicas façanhas de um faraó habilmente retratadas, apesar de muito ter sido pilhado pelo arqueólogo italiano Belzoni.

Simplesmente me vêm à memória uma única palavra fascinante!

Localizado 150 metros a norte fica o Pequeno Templo de Abu Simbel, na mesma mandado construir por Ramsés II, em honra da sua mais amada esposa Nefertari. Apesar de dimensões mais modestas, continua a ser uma grande obra com os seus 12 metros de altura e 28 metros de largura. Dedicado à deusa da beleza Hathor, está construído como se de um templo funerário se tratasse.

A sua fachada está ricamente decorada com seis colossos representando o faraó e Nefertari, bem como a representação da descendência faraónica.

O interior, apesar de não se encontrar profundamente decorado, encerra um conjunto de obras que lhe conferem um certo grau de erotismo e feminilidade, de uma beleza casta e pura, de uma grande civilização que nunca morrerá.

Uma tarde inesquecível onde passado e presente caminham juntos de mãos dadas.

 

 

 

Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

6 Comments

  1. Anónimo

    Obrigado Cristina…agora tens que ler as restantes crónicas.
    Para o ano vai ser em principio um pouco diferente.

    Bj grande e obrigado.

  2. Cristina Laranjeira

    Luis,
    Parabéns pelas tuas crónicas! São sempre fabulosas e efectivamente, transportam-nos para esses locais. Fiquei curiosa por ler esta do Egipto. Também eu, tive a mesma reacção que tu! Se por um lado, já tinha em mente, a imagem das Pirâmides, com Abu Simbel, fiquei extasiada, não estava a contar com essa grandiosidade! parabéns uma vez mais pela tua escrita. Bjs Cristina

  3. Teresa Baptista

    Olá bom dia, só hoje li esta crónica. Relata bem a grandeza de outros tempos deste país: grande história, grandes monumentos, grandes guerras e outra desgraças grandes, que parece estão a querer regressar, porque o homem esquece-se e não aprende com os erros do passado. Saibam conservar pelo menos tudo o que de bom marca a história antiga para poder partilhar com os mais novos…
    Grata pelo teu belo registo e bom fim de semana. Bjs. Teresa

  4. Anónimo

    Quem sabe…querer é poder…é só fechar os olhos e Crer. As realidades da nossa Vida somos nós que as fazemos.E qualquer obstáculo que nos é dado pela Vida é para evitar outra situação pior. Neste momento no Egipto não é muito aconselhável.

  5. Cristina Reina

    Meu querido irmão
    Mais uma vez passeei contigo de mão dada, pelas areias douradas do deserto. E como gostava que esse sonho fosse realidade …
    Beijo grande

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