Fundada a 09 de maio de 1883 – conta portanto com 130 anos – a Banda Marcial da Foz do Douro – Filarmónica do Porto, é uma das mais, se não a mais velha instituição cultural da cidade do Porto. Fundada por Joaquim António dos Santos e pelo abade José Dos Santos Ferreira Moura, a banda conta, hoje, com 52 músicos, de ambos os géneros, e, no seu historial, com condecorações dignas de registo.
António Freches, presidente da Direção, e Jorge Macedo, um jovem maestro de 23 anos, dão-nos, de seguida, a conhecer uma instituição que está a crescer e que olha para o passado com orgulho. Com os pés bem assentes na terra, a Banda Marcial da Foz do Douro promete novidades e o continuar de uma história repleta de êxitos…
Esta é uma instituição de muitas vidas… gerações.
António Freches (AF) – “É verdade! Fizemos, em maio último, 130 anos. Não sei se esta é a instituição mais antiga do Porto, mas, a nível cultural, é de certeza uma das mais antigas, e isto com atividade ininterrupta! Facto que é muito positivo, porque é sempre complicado quando uma Banda interrompe a sua atividade.
E porquê?
AF – “Porque, quando isso acontece, há músicos que se vão embora e depois, é sempre difícil retomar sua a vida ativa.”
A Banda Marcial da Foz do Douro reúne, ao que sei, no seu seio mais de meia centena de músicos?!
AF – “Sim. Temos 52 músicos. Digamos que é um número normal, ou razoável, para os tempos que correm. Há bandas que têm quarenta e.., e outras sessenta e…
Mas a média…
AF- “… a média é entre os cinquenta e os cinquenta e tal músicos. Ora, quando – o que não é o nosso caso – uma Banda interrompe a sua atividade é difícil regressar à normalidade. Essa interrupção vai refletir-se na falta de músicos! As bandas têm escolas, vão formando músicos, depois – caso desistam – é demorado o tempo para formar, outra vez, uma Banda. Quando esse problema acontece dificilmente se consegue regressar à atividade!”
Mas, esse não é vosso caso. Quanto à vossa instituição há, por certo, trabalhos específicos a desenvolver?
AF-“ Sim. Temos vários naipes: clarinetes, saxofones, trompetes, trombones, trompas, percussão e etc e tal. Há bandas que têm de ter mais clarinetes do que trompetes. Os números não são iguais.”
Quer isto dizer que, por cada atuação, os números modificam-se?
AF-“Não. A composição da banda é, mais ou menos, a mesma, só que, e no que ao nosso caso diz respeito, temos 52 músicos. Quinze clarinetes e sete trompetes e mais cinco baixos e por aí fora. Se o volume não é igual, tem de haver números diferentes para um certo equilíbrio sonoro.”

“Esta zona (Foz do Douro) está descaraterizada”
E esta banda tem a particularidade de ser… marcial.
AF -“Sim, porque quando nasceu estava ligada às bandas militares, às marchas de rua. Nada tem a ver com guerras.”
E acresce o título de “Filarmónica do Porto”
AF –“”Filarmónica do Porto” foi um nome que adotamos com algum orgulho. Pertencemos ao Porto e, infelizmente, é a única na cidade. Já existiu a Banda Musical de Ramalde, que acabou há cerca de quinze anos, pelo que, atualmente a Banda Marcial da Foz do Douro é a única banda civil na cidade, ainda que exista uma banda sinfónica …”
Qual a diferença entre “filarmónica” e “sinfónica”?
AF – “ A banda sinfónica é mais completa e tem outros fins. Já é um agrupamento profissional, ao contrário do que acontece com a “filarmónica”… que é composta por amadores.”
Quantos associados tem a Banda Filarmónica da Foz do Douro (BFFD)?
AF – Rondará, neste momento, os 130.
O que já um número considerável?!
AF – É (?!). Quem nos dera ter muitos mais!
E contam com quantos alunos?
AF- “Dezasseis. Agora, estão de férias, mas a 14 de setembro regressam à atividade. A escola funciona todos os sábados à tarde. A verdade é que os nossos alunos – crianças e jovens – gostam disto. E tem acontecido algo que há uns anos atrás era impensável acontecer: grande parte deles – talvez uns dez – vive aqui na Foz. Esta zona da cidade ficou e ainda está descaraterizada. Ficou uma zona rica e os filhos da Foz deixaram de poder viver cá e foram para longe. Esse foi um período difícil de ultrapassar, mas, agora, parece que as coisas se estão a recompor”
A Foz do Douro tem, contudo, e também os seus bairros populares?
AF- “Na Foz Velha, mas mesmo essa zona já é chique”.
Condecorações de relevo
Entretanto, e de relevo para a vossa história, foram condecorados com medalha de “Reconhecimento” pela Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Portuenses, e, por certo, mais ou tanto importante, pela medalha de “Mérito – Grau Prata” pela Câmara Municipal do Porto?!
AF- “E recebemos, no passado dia 27 de julho de 2013, a medalha de “Beneficência -. Grau Ouro” da Junta de Freguesia da Foz do Douro”.
Essa também é importante. Mesmo que tardia, foi o reconhecimento da vossa freguesia pelos trabalhos desenvolvidos ao longo de tantos e tantos anos…
AF – “Essa era importante… ainda que tardia!”
É difícil gerir uma banda destas? Melhor: uma instituição como é a Banda Marcial da Foz do Douro?
AF – “Esta é uma instituição um bocado diferente das outras. Igual às outras é o facto de ter muita gente com personalidades diferentes. Por si só, isso não é muito fácil de gerir. Seja como for, havendo respeito… tudo se ultrapassa.”
E a nível financeiro?
AF –“Em termos financeiro é mais complicado. Sabe que as bandas, com tudo o que está por trás, – fardamentos e instrumentos – é tudo muito caro! Posso dizer-lhe que há instrumentos – os mais baratos! – que poderão ir dos 1.500 euros, caso de um clarinete, mas se for uma tuba mais caro ficará. A média é de dois mil euros por instrumento. É claro que uma pessoa compra um instrumento e aquilo poderá durar entre vinte a vinte e cinco anos, mas há outros gastos para a sua manutenção”.
Mas os instrumentos são comprados pela instituição ou pelos músicos?
AF- “A maior parte pela instituição. Há músicos que têm o seu instrumento por sua opção, até porque, por estudo, estão integrados em ensinos de música…”
…e ajudam os alunos mais carenciados, a adquirir o instrumento?
AF- “Sim. Ajudamos! Eles depois vão pagando conforme podem!”
Com isso conseguem “agarrar” o aluno, se calhar um aluno com excelentes qualidades, mesmo que dessa ajuda ele não necessite, mas que sabe que ela existe?!
AF – “Sim. Já tivemos, em momentos mais recentes, alguns que passaram por cá, como foi o caso do maestro Afonso Alves – que é também compositor e da minha geração – e depois o Paulo Perfeito, que deram vida à instituição e dela nunca se esquecendo”.
“Em outubro do ano passado, o projeto que nós tínhamos era insustentável”
O António Freches há quanto tempo está por cá, neste caso, como presidente da direção?
AF – “Como presidente da direção? Desde outubro do ano passado! Anteriormente, era presidente da mesa da Assembleia Geral. Mas, desde outubro, pronto!… A vida das coletividades é feita de ciclos! Uma vez estamos mais em cima, outras, mais em baixo, e, digamos, que em outubro do ano passado, o projeto que nós tínhamos era insustentável! “
As instalações da sede social vão respondendo as exigências?
AF – “As instalações são um bocado apertadas. Mas, neste momento, aqui, só funciona a Escola de Música. Assim sendo, e devido a essas limitações, ensaiamos no salão paroquial …
…vocês têm uma forte ligação à Igreja?!
AF – “Sim. Aliás, um dos nossos fundadores foi o padre Moura, o outro foi o Ferreira dos Santos. E, portanto, houve essa primeira ligação, à qual ainda continuamos ligados. A verdade, porém, é que temos uma sala de ensaio na nossa sede, só que temos licença para o fazer até às 23h30. Como muita gente não é daqui da Foz e os ensaios começavam lá pela volta das dez da noite… Ora, uma hora e pouco para ensaios é pouco, isto quando este calendário se pratica uma vez por semana. Também temos vizinhos – alguns deles doentes e idosos- e que os ensaios os massacravam. Assim sendo, no salão da igreja, não incomodamos ninguém e, portanto, optamos por lá ensaiar. De resto, tudo funciona aqui!”
Escola de Música exemplar
Quanto ao professorado…
AF – “Temos músicos que também são professores. Na Escola há, contudo, um maestro, que também é professor, mas que tem, em acréscimo, a responsabilidade de a dirigir.”
E é só ele? Ele com quem vamos falar daqui a pouco…
AF – “Não. São mais quatro! Cada um cuida do seu grupo, porque cada grupo tem instrumentos diferentes”.
Já agora. Um jovem que chegue aqui e queira fazer parte da Escola de Música da Banda Marcial da Foz do Douro paga algo?
AF – “Não. Nada paga! Aqui, o ensino desenvolve-se com instrumentos de sopro e precursão, e nós ensaiamo-los com o intuito de entrarem para a banda. Há sempre um certo risco nesta opção, mas, a verdade, é que a maior parte não desiste e fica para a Banda!”
E depois há a “Agenda”. Por certo são convidados para diversas atuações e, depois, há que dar corpo a isso. Corpo financeiro!
AF – “Mais no verão. Romarias! Neste momento temos já 17 e ainda estamos a negociar outros convites. E isto só até meio de setembro. “
Isso é quase para todos os dias…
AF- “É para quase todos os domingos. “
E as deslocações são para todo o país?
AF –“ Não! Desta vez é tudo mais concentrado. Tudo mais na zona do Grande Porto! O mais longe que, recentemente, fomos, foi à região de Paredes e de Lousada. Isto tudo tem a ver com a questão de transportes. Se pedirmos um transporte para Vila Real teremos de pagar 300 ou 400 e tal euros?! Como estamos limitados, para já, ficamos por cá!”

“A relação da Câmara para connosco tem sido de um certo afastamento”
E qual é a vossa relação com as outras bandas?
AF – “Há intercâmbio. Não vou dizer amizade, mas há boas relações.”
Pergunto isto, porque sempre houve rivalidades. Alturas em que à batatada é que discutia a “coisa”…
AF – “Agora, não! Mas antigamente acontecia algo do género.”
E em relação à autarquia, parece que estão muito interligados com a Câmara Municipal…
AF – “Não muito! Com a Junta, sim!”
Digo isto porque a Banda Marcial da Foz do Douro terá sido convidada para diversas iniciativas organizadas pela autarquia.
AF – “Em relação da Câmara para connosco – há uns anos a esta parte- tem sido de um certo afastamento. A verdade – que não pode escamoteada – é que este executivo camarário tem um olhar diferente para as coletividades. A Cultura, para eles, é um parente pobre. Isto, independentemente, de no último ano, ter havido alguma aproximação. Por exemplo, fizemos – o que não fazíamos há muitos anos – um concerto na Quinta de Bonjóia. Agora vamos lá ver o quem vem por aí, com quem ganhar a Câmara”.
“Houve a recuperação dos coretos da cidade, mas os mesmos não foram dinamizados”
E tem confiança nos programas apresentados pelos candidatos que já se encontram no terreno?
AF – “Não sei. Programas são programas e os programas não passam de programas. Toda a gente reconhece que o atual executivo não esteve muito próximo da Cultura e quem está a concorrer também se apercebe disso e, agora, vem com propostas”.
E depois há espaços culturais na cidade que poderiam ser revitalizados?!
AF – “Exatamente. Houve a recuperação de vários coretos da cidade, mas os mesmos não foram dinamizados. Por curioso que pareça, o único coreto que não foi recuperado foi, precisamente, o da Foz do Douro. Mas, independentemente, das obras de recuperação os coretos mantêm-se desativados”.
O que, na verdade, é uma tristeza, uma vez que, mesmo não sendo em grande número, estão estrategicamente colocados na cidade: S. Lázaro, Marquês, Cordoaria, Arca d’Água , Foz do Douro…
AF –“… chegamos a propor alguns programas de animação, mas nada foi concretizado”.
Recordo-me – era miúdo – e aos domingos, pelo menos no jardim de S. Lázaro, juntavam-se largas centenas de pessoas para ver a banda atuar…
AF – “…e nós propusemos isso. Por alguma razão a ideia não foi aceite. Não sei porquê? Se calhar acharam que não seria interessante”.
Entretanto, puseram um palco junto à igreja de Santo Ildefonso, na Batalha, e já lá vi atuar algumas bandas, uma das quais a vossa?!
AF – “Este ano, não fomos nós, mas isso em Santo Ildefonso é uma festa religiosa e que só tem a ver com a paróquia, e não com a Câmara. No ano passado fomos nós que lá atuamos, este ano, foi a Banda de Rio Tinto, porque já estávamos comprometidos com outra iniciativa. Aliás, é de realçar, e porque há bocado falou nas relações entre as bandas, fomos nós que a propusemos.”
É caro contratar a vossa banda? Se não quiser dizer preços… não diga!
AF – “Não. Não é caro! Para a qualidade que temos, considero que somos uma banda bastante barata. O que temos que suportar é mais as despesas, em termo de transportes e o dinheiro para beber uma cervejinha (risos)”.
As vossas atuações são, normalmente, efetuadas na região norte…
AF – “Mais no distrito do Porto. O que já não é mau”.

“È importante haver ensino de Música nas escolas”
Maestro Jorge Macedo, há quanto tempo se encontra a dirigir a Banda Marcial da Foz do Douro?
Jorge Macedo (JM) – “Desde outubro de 2012. Aos nove anos entrei numa Filarmónica, onde vivo, em Rio Tinto. Depois, por volta dos meus 11 anos, inscrevi-me no Conservatório, fiz até ao terceiro grau de trompete…”
E quantos graus são necessários?
JM – “Oito. Não dava para conciliar com a escola em termos de horários, mas fui sempre tendo aulas particulares, até que um dia acabei o 12.º ano e decidi optar pela música. O primeiro passo surgiu quando um amigo me disse que na Banda Militar do Porto estavam a precisar de um trompete. Inscrevi-me, então, no Exército. Alistei-me na banda; fui a Lisboa fazer provas e fui dado como apto. Na capital estive seis semanas como trompetista e depois cheguei à Banda Militar do Porto onde comecei a tocar trompa, isto em 2010.”
És profissional de música?
JM – “Agora, estou na Escola Profissional de Música, na rua de Costa Cabral, aqui no Porto, e já no último ano.”
Aconselhas um jovem a seguir Música?
JM – “Sim. Seja como for, a Música deve estar presente no Ensino.”
E achas que está, verdadeiramente, presente no Ensino?
JM – “Sim. Ao longo dos anos, e eu não sou muito velho, uma vez que só tenho 23 anos, e durante a Primária não havia o ensino de Música, mas, atualmente, já há.”
Salvo erro uma vez por semana, e que queriam que isso fosse a pagar.
JM – “Acho que queriam que as atividades extracurriculares fossem pagas, mas não sei se isso foi para a frente… parece que não. Mas, acho que é extremamente importante o ensino da Música nas nossas escolas”.
E as bandas filarmónicas, como a Marcial da Foz do Douro, também são importantes… complementam um pouco o ensino?!
JM – “Sim. E isso é tão importante que o dia 01 de setembro foi decretado o Dia Nacional das Bandas Filarmónicas. Nota-se, aos poucos, que as entidades oficiais olham para as bandas filarmónicas de uma forma diferente. As bandas, tal como foi decretado, são centro de convívio e de ensino. Como disse, a propósito e à RTP, o diretor da minha escola – o professor Francisco Ferreira -, os melhores músicos portugueses que estão em orquestras internacionais, como a de Berlim, iniciaram os seus estudos no meio filarmónico.”
A Alemanha é, nesse aspeto, um paradigma? Já ouvi falar em Inglaterra…
JM – “…também sim. Falei na Orquestra de Berlim como, em termos futebolísticos, estivesse a falar do Real Madrid.”
AF – “Deixem-me meter só uma achega. Em Portugal – se calhar agora está a mudar um bocado -, mas, há não muitos anos atrás, todos os músicos de instrumentos de sopro ou de precursão tinham de passar ou a começar a aprender numa banda filarmónica… se não todos, quase todos…”
Por certo também havia mais bandas?
AF – “É verdade, mas era nas bandas que se iniciava a atividade. Depois, cordas ou teclados, a coisa já era diferente. O piano, o violino ou o violoncelo, por exemplo, já se aprendiam no Conservatório. “
“O nível qualitativo das bandas é considerável”
Está a falar de instrumentos que fazem parte das grandes orquestras. Como um indefetível ouvinte da Antena 2 – emissora dedicada, essencialmente, à música clássica – raramente se ouve bandas filarmónicas. Um outro dia por acaso, ouvi algumas militares. Porque será? Será porque as bandas são mais populares e o “popularucho” é um tanto ou quanto proibido?
AF – “Também ouço a Antena 2. Isso do “popularucho” é uma realidade. E depois também há uma outra razão: a falta de qualidade das bandas filarmónicas. Agora, isso já não acontece tanto, mas, antigamente, acontecia. A maior parte das bandas, felizmente, já têm pessoas que estudam Música, demonstrando um nível qualitativo considerável.”
Já não é só pelo ouvido?!
AF – “Não… também não se tocava pelo ouvido. Eu também sou músico e aprendi aqui as bases, é como quem anda na Primária, e fiquei por aí!”
Há compositores, alguns deles muito conhecidos, como por exemplo o Zeca Afonso, que era só pelo ouvido…. Não sabia ler Música!
AF – “E outros mais. Mas, como estava a dizer,.. O que acontecia é que os músicos das bandas filarmónicas eram um pouco limitados, porque não tiveram a oportunidade de evoluir. Agora, já não! Já tiram cursos superiores, e isso reflete-se no nível qualitativo das bandas.”


“Ainda há bandas que não admitem mulheres!”
Quando falei em “popularucho” não falei num sentido pejorativo, mas de “popular” ou de “pró-popular”. Basta vermos, no caso do Porto, que nas tradicionais cascatas sanjoaninas existe sempre a Banda Filarmónica. As bandas fazem parte da cultura popular.
AF – “Sim. Compreendi. As bandas estão intimamente ligadas às romarias e, acima de tudo, pelo cariz religioso das mesmas.”
Atuam no interior das igrejas?
AF – “Para dar concertos, Sabe que não existem muitos locais para se dar concertos, e dentro de uma igreja é, sem dúvida, um bom local. Mas, agora, também começa a haver outros espaços.”
As mentalidades têm mudado em relação às bandas e no interior das mesmas?
JM – “Desde a minha formação até agora, acho que as coisas têm mudado para melhor. Por exemplo, e no que diz respeito à mentalidade antiga, o maestro tinha de ser velho e rígido. Isso, hoje, já não acontece. Eu tenho 23 anos e desenvolvo a minha atividade de maestro sem problemas. Não há muitos anos atrás, e, em certos casos, ainda hoje, há bandas que não admitem mulheres…”
AF – “…eu iniciei a minha atividade há quarenta e anos e raparigas nas bandas… nem pensar!
Mas, a Banda Marcial da Foz do Douro abre as portas às mulheres?
AF – “Claro. De momento, dos 52 elementos da Banda, trinta e tal são mulheres. Mesmo na Direção, que é constituída por nove elementos, cinco são mulheres”.

Projetos
Ideias para o futuro…
JM – “No meu caso, e, profissionalmente, é acabar a Escola Profissional de Música e seguir para o Ensino Superior na área do instrumento, ou talvez na área da direção…
Isso implicará alguma ida para o estrangeiro a convite do nosso primeiro-ministro? (risos)
JM – “Não sei o que pode acontecer. Ir ao estrangeiro em termos culturais acho que é uma mais-valia e quando volta traz outra bagagem…
Mas é para voltar, não é para lá ficar?
JM – “Sim! No que diz respeito à Banda há um novo projeto. No qual haverá vários polos; vários espaços. Primeiro, como estou na minha iniciação como maestro, tenho que me preparar e saber mais para transmitir isso a um grupo…
O maestro não deixa de ser um líder.
JM – “Sim. Às vezes ouve-se nos programas de futebol que é difícil lidar com 25 ou 24 jogadores de personalidades diferentes, nas bandas é igual…
“Ser maestro de uma filarmónica é uma paixão”
E se a banda não tivesse maestro o que poderia acontecer?
JM – “Uma vez fiz um exercício muito engraçado com um solfejo, e mandei-os marcar todos ao mesmo tempo, isso a olhar uns para os outros, e depois mandei-os fechar os olhos e continuamos a marcar, só que deixei de dizer “um… dois, três…. Resultado: quando abrimos os olhos, um já ia no primeiro, um outro no quarto. É para isso que serve um maestro… é para conduzir!”
A minha pergunta não foi inocente, é que ainda há muita gente que se pergunta: o que é que está a li a fazer o maestro?
JM – “É verdade, ainda há muito dessa mentalidade.”
AF – “Tem a ver com sensibilidade do maestro para com as músicas. Ele tem cinquenta cabeças e cada uma pensa por si e tem de as controlar.”
Ser maestro é uma profissão de futuro. Melhor: é rentável?
JM – “A nível filarmónico é… mais uma paixão! Dá uma ajuda, mas não dá para suportar uma família. Não é um lugar fixo, o que é bom para os músicos, uma vez que têm contacto com vários maestros. E esse um dos projetos que vamos aqui desenvolver na Banda Marcial da Foz do Douro: o “I Master Class – direção de banda”. Sobre este assunto daremos futuramente, mais detalhes …”
É surpresa?
JM – “É”.
AF – “Está tudo combinado, mas as coisas ainda não estão a cem por cento. É só por isso”.
“È preciso dar continuidade a este trabalho!”
Quanto ao futuro – e repito a pergunta, mas agora o para o presidente da instituição – há projetos a ter em conta?
AF – “Em termos musicais, iniciamos com o maestro Jorge Macedo um novo projeto, e isso não foi uma aposta no futuro, porque ele já era o responsável pela Escola de Música. Apesar de haver sempre um risco, digamos que foi um risco calculado. Aí, iniciámos um projeto novo, com a entrada de novos músicos, alguns convidados da própria Academia aconselhados pelo maestro; outros que ficaram e ainda outros que… retornaram. A nível musical – que é a parte, essencial, da banda – é dar continuidade a este trabalho. Este primeiro ano foi muito bom! Evoluímos muito!”
Têm algum CD?
AF – “Já não gravámos há muitos anos. Gravámos uma cassete e depois um CD e esse CD deve ter para aí 15 anos.”
A nível da Internet…
AF – “Usamos Facebook e o Youtube. E por lá aparecem as nossas atuações ao vivo, e que tem uma vantagem: é que não são trabalhadas e por lá surge aquilo que o povo que assistiu ao vivo”.
É aliciante o facto de ser presidente da Direção de uma Banda como a Marcial da Foz do Douro?
AF – “É, principalmente, quando se gosta. E quando as coisas correm bem, melhor ainda!”
“Um maestro não pode ser arrogante, nem bonzinho!”
Há pouco comparava-se o maestro a um treinador desportivo. Ora, quando as coisas correm mal na direção isso reflete-se, ou não, na produção da equipa, leia-se, neste caso: banda? Nos clubes isso desportivos isso é de, imediato, uma evidência…
JM – “Reflete-se. A Direção e a banda têm de trabalhar para um objetivo comum! Para um treinador de futebol e tão difícil lidar com 23 jogadores, como para um maestro fazer o mesmo com cinquenta ou mais pessoas. Agradar a todos é impossível. Temos de ser imparciais…
Tipo José Mourinho? (risos)
JM – “Nem de arrogância, nem de bonzinho! Temos de ter firmeza, e firmeza é mostrar que também sabe fazer o que lhes é exigido. Ou seja, é o também “estou aqui!” e “também faço! E o grupo apercebe-se: atenção que ele não só dá ordens, também as demonstra… executa e sabe explicar o porquê! Temos que tem em atenção que estamos a falar com músicos amadores – que trabalham, ou têm estudos, e chegam à sexta-feira à noite para ensaios das nove e meia à meia-noite, e outros ainda há que vão trabalhar no dia seguinte- e, como tal é preciso saber comunicar e, acima de tudo, respeitar as pessoas”.
Depois também há o convívio…
JM – O convívio é fundamental!”
E a Direção da Banda Marcial da Foz do Douro tem em atenção este facto?
AF – “Sim. Tentámos promover o convívio. É importante que os músicos e as suas famílias se sentiam bem. Temos por cá gente muito jovem que vem acompanhada pelos pais, e é importante que toda a gente aqui se sinta bem. A família participa e faz, assim, parte integrante da instituição”.


“A Junta de Freguesia sempre esteve próxima da nossa instituição”
Acredita que a Cultura vai voltar ao de cima na cidade do Porto?
AF – “Tenho fé! Vamos ver. A Cultura é muito importante para a formação das próprias pessoas.”
E, logo agora, que a Foz do Douro faz parte de uma freguesia muito mais alargada (com Nevogilde e Aldoar)!?
AF – “Isso poderá ser bom… poderá ser mau, não sei! Mas, atenção que, há pouco, não falei – e é justo que o faça -, é que, ao contrário do afastamento da Câmara em relação à nossa instituição, já a mesma situação nunca existiu em relação à Junta de Freguesia. Digamos que a Junta não nos ajudou em tudo o que era preciso, mas naquilo que lhes era possível ajudar. As juntas, como sabe, têm as suas limitações. De resto, e apesar da freguesia estar maior, a verdade, é que isso não nos assusta. Havendo boa-vontade, as pessoas vão estar próximas.”.
JM – “Penso que esse alargamento é bom para nós, porque em janeiro fomos dar um concerto ao auditório de Aldoar, e assim, poderemos ter mais um espaço que poderemos utilizar”.
AF- “Gostaria inda de dizer, e em relação às autarquias, que nós nunca lhes pedimos o subsídio pelo subsídio. O que pedimos foram apoios para termos condições para trabalhar. É claro que ninguém trabalha de graça, mas, no fundo, tudo isto trata-se de uma permuta.”
Cá pela “casa” não há défice a ser gerido?
AF – “Não temos défice. Há muitos anos que embora não tenhamos dinheiro, nada devemos seja a quem for. Temos é mustos custos, além da água, da luz, e de telefone… agora, menos, porque não ensaiamos aqui, mas temos o arranjo de instrumentos, os fardamentos – os miúdos estão a crescer a precisam de roupa nova –, saiba que pagamos entre oitenta a cem euros por um fato, fora a camisa, a gravata e o boné.”
O futuro mora por aqui
130 anos de existência, é carga histórica, ou é responsabilidade a incutir a todos os membros?
AF – “Não… não é carga!”
JM – “Quando falo com os músicos, alerto-os para o facto de termos de respeitar os 130 anos da instituição. Isso é importante! Não é o encargo; não é o fardo para cima das costas, temos é de ver isso como algo de positivo. É bom saber que por aqui passaram tantas gerações. O membro mais velho é o senhor Manuel que tem já os seus 83 anos.”
AF – “É um orgulho termos 130 anos de atividade sem interrupção! Temos três músicos que são trinetos do fundador da Banda Marcial da Foz do Douro. Aqui é frequente o avô trazer o neto ou a neta.”
JM – “Da nossa banda já saíram músicos que fizeram muito sucesso, como o maestro Afonso Alves, Paulo Perfeito que é um ícone do jazz nacional, Rui Brito, músico da Orquestra Sinfónica do Porto, António Lourenço, trompetista… no “Dragão”.
AF – “E pronto. Para o futuro há esperança em evoluir o nosso trabalho.
Texto: José Gonçalves
Fotos: António Amen









Porque a teoria nem sempre é acompanhada pela prática veja-se na prática a forma como estes senhores estão a destruir uma instituição de 130 anos.
http://www.youtube.com/watch?v=btsn3_zr4IY