António D. Lima / Tribuna Livre
Fui convidado para ir assistir a um sarau de poesia na Biblioteca Municipal Fundação Jorge Antunes. Neste evento, comemorava-se o segundo aniversário do “Hora da Poesia” que vai para o ar todas as quartas feiras, das 21h00 às 22h00 e, já agora, porque não dizer? Na frequência 97.2 FM. Este programa tem o apoio da Câmara Municipal de Vizela e, é coordenado pela Drª Conceição Lima. Juntamente com o convite, foi-me oferecido a boleia. Só um parvo é que não aceitava, o que se perspetivava, ser uma bela noite de poesia, já que eu, tinha conhecimento de alguns poetas convidados e que eram do meu gosto.
O auditório estava literalmente repleto de pessoas que aderiram a este evento poético, algumas, do Porto, neste caso, poetas e alguma família, de Guimarães, etc. Todas as outras presenças, eram de Vizela. Em boa verdade as gentes de Vizela aderiram de uma forma que para mim foi novidade. Mas, não me espantei porque, se estas gentes, todas as quartas feiras, ouvem poesia, quer dizer; ou já gostavam de poesia, ou então, não sendo poetas, começaram a gostar de poesia. E que gosto o me deu ver o que vi. Gente, muita gente, neste caso poético, “uma multidão”.
Reparei ao entrar que havia “Madames” vestidas a modos… como quem vai para uma gala de entrega de Óscares?! Vestidos compridos, vestidos rendados, etc. Preocupado por poder estar em local errado, perguntei à moça que estava ao meu lado – Desculpe, é aqui que vai haver poesia? – É sim, é mesmo aqui – respondeu a moça – muito obrigado, agradeci. E entrei
Mais tarde, descobri que as “Madames” de vestidos compridos e rendados afinal não iam para nenhuma gala de entrega de Óscares (tipo Hollywood), eram poetas!? […] foram ao palco dizer poesia, de outros poetas, ainda bem, porque, se escreverem tão bem como se vestem, estamos conversados. Estou perfeitamente à vontade para escrever o que me pareceu positivo ou negativo neste evento. Não sou poeta, escrevo umas coisitas bastante parvas, não tenho livros publicados para andar sempre a dizer:- Vou dizer um poema que está publicado no meu quinto livro, pagina 33.

Toda a dinâmica da apresentação deste evento, esteve a cargo da Drª Conceição Lima, que é igualmente, como acima refiro, coordenadora da Hora de Poesia. Já me haviam dito que era muito exigente com o que faz e com o programa que apresenta: Em tempo, em conversa, em apresentação, etc.,. considero muito positivo o sentido organizativo desta senhora. Se dúvidas houvesse, ela demonstrou neste sábado, em palco, a “comandar este exército de poetas e dizedores de poesia” fazendo jus à fama que tem.
Em palco a Drª Conceição Lima apresentou o programa que se ia seguir. Deste programa, constava de música clássica, três violinistas, coro acompanhado com as violinistas e piano. Uma pianista a solo tocou, e muito bem, dois trechos de música clássica e, não menos importante, talvez até, direi, muito importante, um conjunto de jovens, “RotaryKits” com uma atuação que considero muito boa. No entanto, sobressaiu, para mim, duas jovens. A primeira entrou a dizer um poema, a segunda a cantar o poema. Se a primeira jovem esteve muito bem, a segunda conseguiu dar uma amplitude ao poema que só posso adjetivar, fantástico.
Estas atuações eram intercaladas com 24 poemas de 24 poetas, escolhidos com o rigor seletivo que caracteriza a Drª Conceição.Uns poemas foram lidos pelos seus autores que se encontravam presentes. Outros, não estando presentes os seus autores, foram lidos por quem eles mandataram. Os poemas de poetas já falecidos foram ditos por poetas escolhidos pela Drª Conceição Lima.

Escolheu a Drª Conceição Lima, Lourdes dos Anjos e Eduardo Roseira. Até nesta escolha aplaudo a Drª Conceição pelos poetas escolhidos e, por acaso, dois dos meus mais preferidos dizedores e fazedores de poesia; da verdadeira poesia, não daquela poesia de lamechas dizendo quase sempre o mesmo. Repetindo-se poema (?) atrás de poema com frases: – “ Ele veio e com beijos lambeu meu corpo, ele para cima, ele para baixo, ele explorou o meu corpo como quem explora o Amazonas, (olha se aparecia uma Anaconda!)”. Isto para mim não é poesia, isto é querer dar marteladas!… sempre no mesmo. Não estou a criticar, só estou a dizer do que gosto e não gosto. Mas, cada um é como cada qual e, escreve do que gosta e, como gosta. Somente isso.
Eduardo Roseira disse um soneto de Antero Quental como só ele sabe. Ouvi pessoas ligadas a estas coisas da poesia a dizer que, estes sonetos são muito difíceis de dizer quer seja pela entoação, quer seja pelos silêncios requeridos. Pelos aplausos que lhe ofertaram após ter terminado de ler o poema, percebi que tinha estado muito bem, eu também assim o entendi.
Ainda sobre o Eduardo Roseira, não resisto em contar um pequeno “face a face” com a Drª Conceição Lima sobre o evento que se estava a realizar. Os vinte e quatro (24) poemas escolhidos estavam impressos em folhas de papel com as medidas mais ou menos 50X50 cm, afixados nas paredes do auditório. Talvez por razões de calor, transpiração dos presentes, ou outro fenómeno natural que, para o efeito, não interessa estar a dissecar, as folhas ou os poemas, como se queira dizer ou chamar, começaram a descolar das paredes.
Em palco e numa pequeníssima conversa introdutória a Drª Conceição Lima referiu que os poemas estavam a descolar, a cair. Respondeu o Eduardo Roseira, poeta de palavra fácil e rapidez de raciocínio: – “Não Drª Conceição, não estão a cair. Aqui e agora, nesta sala, ouve-se e respira-se poesia. O que se passa é que a poesia é tanta e tão boa que até escorre pelas paredes!!!” Mais palavras para quê? Se ele foi julgado pela assistência com um enorme aplauso.

Seguiu-se a vez da Lourdes dos Anjos ler um poema de António Pina, poeta que escrevia falando do povo, do sofrimento, do Porto… Tão tripeiro como Lourdes dos Anjos, talvez por isso a Lourdes dos Anjos, esteve conforme nos tem habituado, sempre ao seu melhor e agradável nível na arte de bem dizer poesia, por isso, foi agraciada pelos presentes com calorosos aplausos e com um enorme abraço da Drª Conceição, com a declaração de que: – A Lourdes dos Anjos, mais tarde, irá regressar a este palco, vem dizer um poema da sua autoria, talvez seja do que eu mais gosto. E todos vocês, tenho a certeza, que também vão gostar muito de o ouvir”. Afinal não são 24 poetas, pensei, mas sim 25. Também não são 24 poemas, mas sim 25. Por mim tudo bem, nem que fosse a noite toda a ouvir poesia, ouvia o que gostava e tinha assegurado a boleia.
Chegada a vez de a Lourdes dos Anjos voltar ao palco e, com a Drª Conceição a agradecer a disponibilidade de a Lourdes ter acedido ao seu pedido, foi anunciado, que o poema era, “Os Pregões”, poema este, que eu já ouvi tantas vezes… e de todas as vezes é como se fosse a primeira vez, é sempre lindo. Foi dito aos presentes que o poema era um pouco longo, talvez… uns dez minutos, mais ou menos é claro. Chegaram até mim murmúrios da plateia. “Que seca! Isto não vai ter fim. Não vamos sair daqui tão cedo”, e outros lamentos que não vale a pena recorda-los. Não que fossem ofensivos, nada disso.
Começaram a ser ditas as primeiras palavras do poema, o ritmo de uma voz, ora serena, ora amarga, fundindo-se com as palavras de uma memória dos tempos difíceis que todo um povo passava.
Ouvia-se os pregões na forma perfeita de uma voz que os ouviu, quantas vezes! Os pregões que davam vida ao seu poema, ao seu Porto, ao seu Bonfim e que era uma realidade já passada, mas que tinha sido gravada na memória de uma ainda menina. Lembra-se do pregão do Ardina, do Cauteleiro, das pobres mulheres vindas de longe, vendendo as galinhas e os galos e tudo quanto pudessem vender para angariar o seu sustento e o dos seus.
O pedido encarecido das peixeiras e de outras vendedoras:- “Ó freguesa pela sua saudinha, venha-me estriar”. Imitação perfeita, só ao alcance dos grandes poetas, dos poetas que têm na sua alma, alma de povo, que vê povo, que é povo. Podia não ser, mas é, simples, e que simplesmente, fala a voz dos que simplesmente, percorriam quilómetros, enrouquecendo a voz a apregoar as castanhas e a água fresquinha, vinda das minas da Quinta da China, era o aguadeiro que a troco de um ou dois tostões, matava a sede a alguns e matava a fome a outros, aos seus.
Vi a Lourdes dos Anjos a entrar em êxtase e a extasiar toda uma plateia. Com uma mistura de sentimentos, as pessoas ora riam, ora choravam, mas silenciosamente. Já não se importavam com a chatice, nem tão pouco com a seca, estavam presos ao poema.
Acabado o poema, a plateia levantou-se como se tivessem sido impulsionados por uma mola, ou por uma voz de comando impercetível aos meus ouvidos, ofertaram a Lourdes dos Anjos com uma ovação misturada com risos e lágrimas, com a duração do mesmo tempo que demorou a dizer o poema. Apesar de já ter ouvido algumas vezes este poema pela voz da Lourdes dos Anjos, nunca, mas mesmo nunca, a ouvi como nesta noite.
Porque sou humano e sou sensível, também tive lágrimas rebeldes, tal como o meu amigo Carlos, ambos fomos incapazes de deter a rebeldia destas, mesmo que poucas lágrimas, assim quiseram juntar-se à rebeldia, de um coração que, se manifesta através da sua poesia. Quase tenho a certeza que jamais verei este poeta, mulher, amiga, a ter uma noite tão bela como esta. Oxalá me engane, porque na verdade, gostava de repetir a mesma dose de poesia.
MINHA ESTRELA DA NOITE
Foi a noite mais bela
De todas as noites
Que ouvi poesia
E no silencio desta noite
Os braços das palavras
Abraçavam quem as ouvia
Foi a noite das noites
Que mais me encheu de alegria
E aos corações comovidos
De quem te ouvia
Meus pregões, meus pregões,
Meu poema de saudade
Minha estrela da noite
Que Deus te proteja e te guarde
Porque a noite desta noite
Foi uma noite louca de poesia
As lágrimas derramadas
Falaram por quem te ouvia
Meus Pregões, meus Pregões
Minha estrela da noite
Que os braços das tuas palavras
Abracem quem assistia
À mais suprema noite
De pura magia.
António D. Lima
NOTA: Este poema é da minha autoria, foi inspirado na canção “Estrela da Tarde”, cantada por Carlos do Carmo
01-dez-13
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Parabéns Aos organizadores do evento e parabéns António D. Lima pela “leitura com emoção” que nos propõe.
Um abraço,
Bi Rodrigues