José Luís Montero / Tibuna Livre
Escrever sobre a vida pode ser um ato de strip-tease emocional, no entanto, escrever sobre a política, os políticos e outros agentes colaterais pode ser um pesadelo onde acabas aos gritos e a cair da cama. Pode ser um pesadelo tremendamente Pânico. Talvez, nem o próprio Fernando Arrabal conseguiria chegar tão além no delírio imaginativo e criativo. Quando pisamos as calçadas e falamos ou ouvimos comentários dos que estão no cimo; dos que mandam; dos que possuem fortunas e poderes de influência dizemos ou ouvimos, mais ou menos, frases feitas que transmitem bruma, mas, também podemos falar da mesma forma do vizinho ou do conhecido antipático.
Damos a importância que têm essas conversas que pode ser nenhuma, no entanto, quando a necessidade nos bate à porta ou sentimos a porta do vizinho ou do parceiro do mesmo club chirriar, começamos à procura do banco amigo que nos ajude a respirar com cadência. Entretanto, olhamos para o lado; vemos algum resto de jornal; olhamos a manchete; ficamos hipnotizados pela manchete. Pensamos; meditamos em silêncio agudo. Espantamo-nos com admiração de extraterrestre. Não percebemos como os CTT podem ser vendidos por uma quantidade semelhante ao que dariam de lucro em dez anos… Vive-se a crise; vive-se a penúria e vende-se o que dá dinheiro a curto prazo de tempo? Não se entende. É anódino.
Começamos, então, a entender não entendendo as palavras; as frases que também, pensávamos, poderiam ser dirigidas ao vizinho. Olhamos para os que estão no cimo na TV do Shopping e desfiamos-lhes as gravatas. Deixamos de pensar que eles pensam e passamos a consideram que só desejam. Desejam Poder; desejam fazer sem utilidade social. Continuamos o passeio dos peregrinos, mas, neste caso sem Santuário predestinado, e encontramos que o Governo pretende trocar as palavras e o significado das mesmas; passa-se ao eufemismo político sem alterar a praxis da questão. Fala-se, acompanhados por um coro de personalidades com relevo curricular mais político que académico e de duvidosa sapiência que não se terá 2º Resgate, no entanto, afirma-se com ares de quem sente orgulho que chegará a “Cautelar”… Para reforçar a ideia da diferença que não é tal ouvimos que não será necessário o apoio da oposição.
No entanto, sentimos como se omite; se esconde que com a tal nova da “Cautelar” a vigilância “estranha” continuará; a direção continuará a ser a mesma a não ser que resolvam mudar de troicos e venham outros tão feios, bonitos, bons ou maus como os troicos que os antecederam. Nada muda; mudam as palavras. Portugal; as EDPs, os CTTs de novo cunho continuaram a ser vendidos e os reformados não fugirão da tesoura.
Às vezes, no meio deste suor, aparecem euforias que nos transportam a um paraíso momentâneo de fantasias e feitos depois do Cristiano Ronaldo meter vários golos a toda uma Suécia onde as escolas são de todos e para todos; onde a criança que nasce tem direito a sonhar e a ter projetos. Mas, o Cristiano Ronaldo, fazendo um alarde físico e técnico, marcou, voltou a marcar e finalmente enfiou, novamente, a bola no fundo das redes. Portugal ganhou e estará no Brasil onde os novos campos de futebol estão a custar o que poderia custar um império de campos; onde as Favelas são cidades; mundos do lúmpen mais descarnado. Onde entre negócios e direitos de pernada a Vida vale o que vale um fósforo: nada.
No futuro campeonato estarão velhos países que colonizaram o Brasil de uma forma ou outra. Estará Espanha, conhecedora das noites underground do Rio de Janeiro; estará a Holanda programadora das vacarias de Curitiba; estará Itália conhecedora de todos e mais algum recanto do Brasil e estará Portugal que arribou a uma praia pelo ano 1500. A crise europeia estará representada e bem representada.
O ouro, o Eldorado, a Selva que inspirou um dos romances mais fantásticos do Ferreira de Castro, o petróleo e um somando de riquezas continuam e também continuam a ser delapidadas como o foram outrora. A velha Europa que sabe muito desses feitos, estará, mas estará mais que representando os diferentes países, estará representando a Crise; orgulhosa, pensando que representa mais cultura que toda a cultura junta, estará arvorando o estandarte da sua própria decadência.
Homens de finanças; mercadores de bugigangas; vendedores das pedras do Pártenon; da Janela do Convento de Cristo de Tomar; da Catedral de Compostela; da Torre de Pisa correrão à procura de mais baús da fortuna oferecendo pedras do caminho a troco de diamantes polidos. Europa não está decadente porque a organização da CEE está incipiente, está decadente porque o europeu só pensa no mercado. Está pior e estragada porque Paris morreu e nasceu a videoconferência com Wall Sreet.
Veremos se renascerão para Europa os Jorge Amados; os Drummond de Andrade ou se nascerão pintoras como Leila Pugnaloni.
Sou o pessimismo personificado quando penso neste tipo de acontecimentos onde a comunicação social coloca como mitos e referentes sociais nos ombros de quem só está amestrado para utilizar os pés. Sou amante do pontapé na bola; tenho clubes; tenho jogadores preferidos, mas, o futebol que gosto é um jogo e não um palco de vaidades onde, além do que ganham os seus protagonistas, existe um mundo onde o dinheiro corre a rios, a mares enquanto o Ronaldo chuta ou o Neymar finta meia defesa.
Muitos intelectuais falam de crise de valores com toda a razão do mundo. Podemos olhar; ver o meio e encontramos mil exemplos, mas, se há um exemplo que concentra toda a degradação; toda a crise de valores e princípios é este tipo de acontecimentos.
A parte mais sã é, como sempre, quem pisa e gasta a relva, no entanto, se começamos a subir escadas; se começamos a ver o jogo que acontece nas alturas rapidamente nos esquecemos dos nomes sonoros que jamais deram um pontapé na bola e menos ainda pensaram nos predicados dos jogos coletivos.
A Crise nasceu com a engenharia financeira porque nasceu sem o Valor da dignidade do Homem, por isso, no dia em que os poderes deixem de argumentar ou ter poder para dizer que a Crise se soluciona fechando escolas, a Crise desaparecerá.
01dez13
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