José Lopes (*) / Tribuna Livre
Num país de tiradas tão infelizes para tentarem justificar o caminho de austeridade imposto pelo Governo e pela troika no Orçamento de Estado para 2014, como foram as mais recentes protagonizadas pelo ministro da Educação, Nuno Crato, e pelo economista César das Neves. Há declarações bem realistas de inquietação social, por parte de instituições insuspeitas, a exemplo da Cáritas, que, não só alertam e denunciam as verdadeiras consequências das sucessivas políticas de austeridade, como lançam autênticos SOS, sobre um povo que “não aguenta mais sacrifícios”, mas que lamentavelmente, ao contrário das “tiradas” cínicas de Nuno Crato ou César das Neves, ficam rapidamente no silêncio, mesmo das redes sociais.
O ministro Nuno Crato veio exatamente a Ovar, numa sessão de esclarecimento sobre o Orçamento do Estado para 2014, comparar a dívida pública do país com a dívida de uma família, defendendo ainda que o corte nas despesas do Estado não são suficientes e por isso, deixou como caminho, a imposição de mais sacrifícios. Adiantando mesmo, como analogia abusiva, que os portugueses precisam “trabalhar mais de um ano sem comer para pagar dívida”. Insensibilidade manifestada aliás, perante uma planteia de militantes do PSD, que incluiu os seus autarcas locais, que ainda recentemente, como medida “simbólica” logo após a vitória na Câmara Municipal de Ovar, aprovaram baixar o IMI, considerando “as dificuldades económicas e sociais das famílias resultantes de uma generalizada austeridade com impactos significativos nos seus orçamentos”. Razões políticas que naturalmente mereceram aprovação por unanimidade também na Assembleia Municipal (PSD, PS, PCP e BE).

Mas ainda a “tirada” do ministro da Educação não tinha sido bem digerida e já outra figura pública se perfilava para assumir papel de destaque na comunicação social, com uma não menos provocatória “tirada”, como a que veio a ser protagonizada por César das Neves. Para o economista e ex-assessor económico de Cavaco Silva, quando este ocupou o cargo de primeiro-ministro, o aumento do salário mínimo, que foi acordado no âmbito da concertação social em 2006, ainda que se mantenha como uma promessa injustamente e erradamente adiada, como alerta a própria Organização Internacional do Trabalho. Representaria em sua opinião, numa entrevista à TSF e ao DN, “estragar a vida aos pobres”. Adiantando ainda que a criação de um movimento de opinião que defenda o aumento do salário mínimo, é “criminoso”. Uma afronta social que negou até o papel indispensável da solidariedade intergeracional, que está a ser determinante no seio das famílias nos tempos atuais, quando disse, de forma pouco católica, que “a maior parte dos pensionistas estão a fingir que são pobres”.
A imaginação fértil dos protagonistas de tais “tiradas” seria uma trágica/comédia, não fosse o drama social atual, partilhado e testemunhado por milhares de famílias portuguesas, ser mais inquietante e mais realista, no palco da vida difícil que os governantes ao serviço dos interesses do capital financeiro estão a impor dolorosamente e sem piedade aos mais fracos, enquanto os mais fortes, no essencial, mantêm e aumentam os seus lucros.
Repetidamente denunciado por forças de esquerda e suas propostas alternativas, este mesmo drama social e suas vitimas, para muitos ditos responsáveis e cumpridores, que se negam reconhecer a realidade social caótica, tudo não passa de mera propaganda partidária, deixando ideologicamente lugar ao assistencialismo, mas sobretudo e perigosamente abrindo espaço ao populismo de direita num tempo com sinais preocupantes ao nível da Europa e do ataque ao Estado Social, alvo de medidas cirúrgicas para o seu desmembramento e descaraterização, ao mesmo tempo que a Constituição é vergonhosamente atacada como desadequada, naturalmente às pretensões ultraliberais de saque ao povo.

No entanto, o dramatismo social atingiu tal grau de inquietação, que as instituições caritativas, se obrigam, como o fez recentemente a Cáritas, a pedir à Troika uma revisão dos cortes aplicados às prestações sociais. Uma das medidas de austeridade mais desumanas que a Troika colocou em cima da mesa e o governo PSD/CDS assumiu sem preconceitos a sua aplicação friamente e de forma mais abrangente, independentemente dos seus efeitos e consequências nas famílias mais carenciadas.
Situação que levou o presidente da Cáritas, Eugénio da Fonseca, a afirmar que, “o nosso povo já não aguenta mais medidas que exijam sacrifícios, além daqueles que estão a ser praticados”. Declarações a propósito da iniciativa desta Instituição, que tentou sensibilizar os representantes pouco sensíveis da Troika para a “revisão” de algumas “medidas altamente penalizadoras”, como os cortes nas prestações sociais.
Tais inquietações sociais vão exigir naturalmente, mais coerência e determinação, não só das forças politicas que se opõem a tal desastre recessivo, mas igualmente da sociedade civil e de um determinado e empenhado movimento popular, quando os governantes consideram que 2014 pode gerar “choque de expectativas” e sem tibiezas, afirmam que a austeridade é para continuar sem alterações em 2014, na linha do fundamentalismo da redução do défice que o Orçamento do Estado se propõe levar ainda mais longe.
Ou seja, quanto mais pobre fica o país, melhor garantia de reembolso dá à Troika, através de juros usurários, suportados por todo o sacrifício de um povo sujeito a uma dívida que arruína o país, e ao contrário da propaganda do Governo, deixará Portugal mais longe de “emancipar-se novamente”. Tudo porque, como chegou a explicar a ministra das Finanças, mesmo que pudesse ter havido alguma “expectativa transitória” de que algumas medidas pudessem não ser implementadas, a partir do momento, em que o Governo afirmou “o compromisso perante a Troika”, não vê “razões para que haja surpresas ou um choque de expectativas”. Esta é a determinação dos governantes! E a do povo?
(*) Correspondente “Etc e Tal Jornal”, em Ovar
01-dez-13
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