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Gente do Norte

José Manuel Tavares Rebelo

 

(Recordando corações solidários – 1997/98)

 

“Que impulso de dizer-te pátria, Porto:

Coração, não de Pedro, mas de pedra

Com sangue fértil, vinho generoso

A gerar alma e terra.

 

A. M. Couto Viana, in Loa ao Porto

 

Desde 1980 que estou ligado à Casa dos Açores do Norte, primeiro como um dos fundadores e membro da primeira Direcção eleita e mais tarde como Presidente da Direcção, já vai quase para duas décadas. Não é minha intenção vir aqui pavonear-me com louros relativos à antiguidade, mas tão simplesmente notar que, tendo saído da ilha em 1961 e vivendo no Porto desde 1970, nunca a ilha saiu de dentro de mim e, neste percurso, há marcas e vivências que se mantiveram e outras que o tempo e a distância refinaram. Avesso a saudosismos piegas, foram permanecendo na memória, no entanto, factos e momentos que unem o universo ilhéu à minha realidade de português e de cidadão vivendo no Norte. Nos caminhos percorridos, foram-se criando pequenas ilhas interiores, cheias de emoções e afectos, no meu cantinho das memórias. Eis aqui uma delas.

Ribeira Quente (Açores), 1997
Ribeira Quente (Açores), 1997

Na manhã de 1 de Novembro de 1997, as palavras do locutor soam como marteladas: “famílias soterradas num mar de lama na Ribeira Quente”. As notícias vão passando de boca em boca, de casa em casa, atravessam a cidade do Porto e vão chegando às gentes do Norte. Um frémito de emoção corre por todos, sejam ou não açorianos. Nos dias seguintes chovem telefonemas, pessoas aparecem com roupas e dinheiro: “é para a Ribeira Quente” e “tem a certeza que chega lá?” A solidariedade cresce hora a hora, dia a dia, para com as vítimas de 31 de Outubro de 1997. Carlos Carreiro e Júlio Resende oferecem serigrafias cuja venda reverte a favor dos sinistrados. Pequenas Comissões de Apoio começam a surgir um pouco por todo o Norte: Cepães (Fafe), Laborim de Baixo, Clube Convívio “Os Leões” de S. Martinho do Campo e muitas outras pequenas localidades nortenhas mobilizam-se para ajudar a Ribeira Quente, num movimento nunca visto. Corremos às igrejas a pedir donativos: Trindade, Cedofeita, Cristo-Rei, Foz do Douro ouvem a palavra da CAN e dão o que podem nas Missas.

Véspera de Natal. Rua de Santa Catarina cheia de gente apressada para as últimas compras. Alguém que passa, ao desejar-me Boas Festas, mete a mão no meu bolso e deixa lá dinheiro. É a Rita, professora de francês, que acrescenta: “Toma lá, é para a Ribeira Quente. A minha empregada Preciosa manda-te estes 10 contos”. A Preciosa é uma pessoa com dificuldades, separada, com um filho pequeno. Os 10 contos valem por mil. Os gestos, o toque, a emoção, o calor humano, a autenticidade verdadeira, solidária e próxima ultrapassam muros, mares e milhas para chegarem, com amor sentido, às ribeiras quentes dos nossos corações.

Faial (Açores), 1998
Faial (Açores), 1998

9 de Julho de 1998. Sismos, destruição, mortes e feridos no Faial, Pico e S. Jorge. É preciso ajudar aquela gente, alertar as pessoas, mover vontades, despertar mais ainda o espírito solidário dos nortenhos. Temos confiança. A nossa esperança é muita. Numa noite, conseguimos formar uma autêntica cadeia humana frente à igreja da Trindade: operários da construção civil (a sede do Bonfim estava em construção), membros da Direcção, estudantes açorianos, escuteiros do Bonfim e do Marquês, pessoal do Coral Psallite de Gondomar, jovens da REMAR, colocam em meia hora cerca de 400 volumes de roupa num contentor cedido gratuitamente pela ARNAUD.

São gestos. Gestos-sinais de solidariedade. Gestos que comovem, mas que impulsionam a coragem das populações afectadas e nos confirmam que todos – cá e lá – se sentem ilhéus quando a desgraça atinge os açorianos. De todos os lados, de todo o mundo, do Norte de Portugal, desta cidade do Porto, estendem-se para o Faial mãos e braços amigos para apoiar e garantir apoio, companhia, calor humano, força espiritual.

O povo açoriano está habituado a resistir e a reedificar o seu destino, com força renovada, a partir da destruição. Em Agosto de 97 foram 1.800 contos para a Povoação. Em Novembro, entregámos 2.500 contos ao Padre Silvino da Ribeira Quente. Em 4 de Agosto, Dia dos Açores na Expo 98, passámos para a mão do Presidente Carlos César um cheque de três mil contos com o mesmo fim. Em 12 meses tínhamos angariado 7.300 contos para os nossos irmãos sinistrados. Fomos simples instrumento da generosidade das gentes do Norte. São assim os nortenhos. É bom ser açoriano e senti-los assim tão perto. “Que impulso de dizer-te pátria, Porto: ….. /Face esculpida em grito”.

01jan14

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Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

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