Luís Reina
Capítulo III
Renascidas
12 de Setembro
Abu-Dhabi / Seul
Meia-noite.
Aquele instante que não pertence a nenhum dia, A ponte horária entre o dia de partida e o dia de chegada.
Abrem-se as portas para a fantasia das mil e uma noites, num luxuoso oásis que renasceu das partículas arenosas de um deserto quente e rubro.
À minha frente um enorme túnel de paredes forradas a imagens coloridas de marketing turístico à cidade que nos recebe em trânsito. O chão de alvo mármore de Carrara, devidamente cuidado e polido, pontuado de vez em quando com acessórios a folha de ouro reluzente, reflete imagens de espanto.
Por Allah!
Até é pecado pisar tamanho luxo.
Somos recebidos por frenéticos sons de Al-Ud (Alaúde), de Bandir e de Snuj que nos transportam a excitantes e luxuriosas danças do ventre de tempos há muito passados. Símbolo de pecados que se cometeram por amor.
Algumas horas de espera até prosseguir viagem até ao destino que me trouxe a este lado do mundo. Passeio-me por tendas de um deserto consumista livre de impostos. Um verdadeiro mercado árabe onde o dromedário, esse animal do deserto e símbolo destas culturas é o rei dos souvenires que todos compram. Ex-libris comercial de um país que muito mais tem para oferecer.
Sem que pudesse evitar, fico cara a cara com as sexagenárias francesas. Desta vez não tenho escapatória possível. Sou literalmente entupido de perguntas. Quem sou, de onde venho, para onde vou, sozinho ou acompanhado… Não sendo mal-educado, adianto somente o necessário para que me libertem das amarras opressivas do inquérito.
Fico a saber que se chamam Anne e Brigitte. Anne tem cabelos grisalhos, ligeiramente ondulados. Os seus olhos refletem o azul celestial. De estatura mediana é contudo larga de ancas. Muito feminina. Viaja com a sua companheira Brigitte, Cabelo com um corte curto, muito masculino, e de cor acobreado. Olhos esbugalhados cor de mel. É baixa e forte, Voz rouca de anos de um vício que não larga. Máscula de aparência e no vestir, Apresentam-me a uma outra companheira de viagem a quem anteriormente já tinham estudado de forma pormenorizada.
Uma senhora de setenta e oito anos, proveniente de Lyon. De seu nome Madeleine. Viúva, é uma amante da Ásia para onde viaja todos os anos, conforme me confidenciou ao longo do circuito. De cabelos grisalhos apanhados num puxo, olhos cinzentos-claros e rosto com rugas de um tempo que passou mas que não acabou com a beleza ainda visível. Pessoa bastante culta para os parâmetros dos restantes companheiros de viagem que em breve iria conhecer. Satisfeitas, prosseguiram caminho à procura de mais colegas Nouvelles Frontiéres que iriam acompanhar-nos neste tempo de ócio.
Sou de novo livre. Tento passar rapidamente o tempo que me resta a observar as pessoas que por mim passam, a correr ou vagarosamente dependendo da urgência do embarque.
Depois de passar pelos trâmites da segurança aeroportuária de uma eficácia sem precedentes, dou de novo por mim sentado no cimo de uma duna dourada. A derradeira etapa até a um Oriente cada vez mais próximo. O mesmo profissionalismo, o mesmo serviço e a mesma simpatia. Desta vez sem a presença de qualquer assistente de nacionalidade portuguesa. Particularidades de uma companhia de excelência.
Depois de uma refeição ligeira, tento dormir um pouco e sonhar com a aventura que se aproxima.
São oito horas que passam a uma velocidade estonteante.
Quando dou por mim ouço o comandante do avião ordenar que apertemos os cintos de segurança pois vai ser dado início à aterragem para Seul, “A Cidade Capital”. As portas abrem-se para o mundo desejado.
Caminhamos por túneis de ansiedade, mortos de cansaço, mas essencialmente ansiosos por conhecer esta cultura, este país e este povo de que tão pouco se sabe. O aeroporto internacional de Incheon, considerado o quinto maior e mais bonito do mundo, é tão grande que para chegarmos até aos serviços alfandegários e de recolha de bagagens temos que ir num metro remotamente comandado.
O tempo de espera para passarmos a alfândega parece uma eternidade, tal é a ansiedade. Somos atendidos, como quase sempre, por funcionários com caras de poucos amigos. Uma saudação de boas vindas num inglês incompreensível que mais parece que nos querem enviar de volta de onde viemos. Olhar para a câmara, fotografia tirada e encaminhada directamente para os arquivos policiais coreanos. Se me portar mal, não tenho salvação possível, penso com os meus botões.
Chego à sala de recolha de bagagens. As malas já giram em volta das pessoas que entusiasticamente se atiram para elas. Queres ver que a minha não veio. Só restamos meia dúzia e começo a desesperar. Rezo ao meu Santo António de devoção. Milagre. Eis que vejo ao fundo do túnel a minha mala cinzenta!
Madeleine aproxima-se de mim aflita, pois a mala dela não chegou e ela não sabe que fazer. Digo-lhe no meu fraco francês que tenha calma pois não é a última. Implora-me para não a deixar. À senhora só falta chorar nos meus ombros. Fico sem saber o que fazer. Ao ver que egoisticamente todas as pessoas recém-conhecidas e companheiras de grupo, abandonam a sua conterrânea, decido fazer a minha boa acção do dia e ficar a fazer sala com esta francesa completamente desnorteada. Nem parece que já viajou tanto. Começo a ficar aflito pela demora, pois não gosto de fazer os outros esperar, quando eu até já tenho os meus pertences.
Uma vez mais rezo ao meu santo protector. Milagre dos milagres eis que Madeleine dá um grito de alegria ao ver a sua mala negra aparecer.
Abraça-me com uma força que quase desapareço.
Finalmente seguimos a direcção das setas verdes que dizem “exit”.
As portas abrem-se de par em par automaticamente.
(a continuar)
Obs: A pedido do autor, e ao abrigo do 5.º ponto do Estatuto Editorial do “Etc e Tal Jornal”, este artigo foi escrito de acordo com a antiga ortografia.
01-mar-14
Obrigado Conceição pelas palavras….Bj grande cheio de amor….
absolutamente fantástico este diário de bordo
tão realista e tão pormenorizado que simplesmente me teletransportei e senti o teu sentir de emoções
A aventura começa já daqui a 15 dias…..e estou a atrasar-me na escrita, mas vou conseguir.
como ja nos habituaste amigo consegues transportar-nos para o terrenos…e voei e fiquei a espera do embarque….
bjnhs