Maria de Lourdes dos Anjos
Ser velho em Portugal é sinónimo de pobreza, solidão e desespero. E, por falar nisso, é também não ter irmãos, muitos irmãos com quem facilmente se poderiam repartir as duras tarefas da aturação dos velhotes
É ser um fardo difícil de carregar quando, cada vez mais, somos velhos a cuidar de outros velhos. É não termos meios financeiros para pagar a quem olhe uma e outra noite por uma pessoa acamada que não sabe as horas nem o dia do mês.
É perguntar como vai conseguir, sozinha, virar e lavar e pôr uma fralda a uma criatura pesada e abandonada ao seu adormecimento. É bater a muitas portas e ter que ser rica para ter ajuda. É desesperar porque ninguém percebe o que é remar contra a maré sem barco capaz de enfrentar o mar do desespero. É não haver verbas capazes de suportar um lar com a dignidade que queremos que os que amamos merecem.
E por falar nisso, é vencer os estigmas que existem acerca dos lares que muitos ainda pensam ser asilos, caixotes com gente viva lá dentro, armazéns de velhos abandonados. É saber que devemos escolher o nosso sítio para adormecer, mesmo antes do sono chegar.
E por falar nisso, é termos a noção exata que há tempo para tudo na vida até para não sermos fardos pesados nas costas de quem mais amamos. Mas, ser velho neste país entregue a milhafres e abutres esfomeados, é sobretudo ser pobre e só e desesperado. E por falar nisso aqui vai um caso que hoje, resolvi partilhar:
Um casal, ele com 78 anos e a senhora a fazer os 80 anos. Ela remetida à frieza de uma cadeira de rodas, uma vida quase sem vida, mas sentindo a coragem e o amor do seu marido, que cuida dela e a acompanha. Angustiado pela situação, mas firme na determinação de alguém que nunca desiste, desabafou a sua impotência por mesmo assim não lhe poder valer mais. Ao pegar na esposa para a ajudar a ir à casa de banho, ambos caíram; infelizmente não a conseguiu levantar e teve que pedir ajuda a alguém de fora para a levantar e voltar a sentá-la.
E por falar nisso, a senhora não frequenta um centro de dia porque reside num 3º andar, e as instituições a que recorreu só a viriam buscar se ela estivesse à porta do prédio. Talvez o marido a conseguisse carregar às costas! Depois, paga 90 euros por irem três vezes por semana (1hora por dia, 3 horas por semana,12 horas por mês, dá mais ou menos 7,5 euros/hora) fazerem-lhe pequenos serviços domésticos
E por falar nisso, este valor a ser levado por uma instituição não será um exagero? Não seria possível arranjar mão-de- obra mais barata nos centros de emprego?!
Mas há mais: Por cada vez que tem que se deslocar ao hospital paga 40 euros aos Bombeiros! E se as juntas de freguesia e outras instituições públicas adaptassem carrinhas para servir esta gente que deu tanto em tempos tão difíceis!?
E por falar nisso, talvez seja a altura de alguns dirigentes associativos saírem do poleiro e serem efetivamente os servidores da população em geral e dos seus associados mais velhos em particular. Perante o abandono total das pessoas desta faixa etária, com pequeníssimas reformas mas considerados ricos porque são proprietários de uma casinha onde ainda vão estando abrigados talvez seja tempo de alguns fazerem mais alguma coisinha pelos que mais precisam. Talvez tenha chegado o tempo de arranjar pequenas soluções para os problemas enormes desta sacrificadíssima e esquecida gente.
E por falar nisso, talvez a troika não sonhe que estes casos existam. Talvez os governantes não saibam que isto é a vida de uma grande parte dos nossos velhos que ajudaram a construir este país. Talvez estes velhos não mereçam morrer sem um abraço da sociedade que ajudaram a ser livre.
E por falar nisso, sei que ser velho é esconder nas rugas e nos cabelos brancos muitas feridas, muitas mágoas, muitos vícios, muito mau feitio, muitas palavras azedas e muitas injustiças cometidas até entre os filhos paridos e criados o que, muitas vezes, abre brechas entre irmãos e cria grandes muros de indiferença e dor nas famílias.
E por falar nisso, e também por isso, é aqui que a sociedade e a justiça social devem intervir para cuidar e unir, para minimizar sofrimentos e abrir uma janela na alma de gente que pouco mais teve que um diploma de escravo em tempos de solidão.
E por falar nisso, gostava que os senhores imperadores dessem para lares e centros de dia uma pequenina parte das fortunas que sempre silenciosa e generosamente entregam para a banca, para os futebóis e ainda para viagens e hotéis e automóveis e mordomias de tantos chulos que por aí vagueiam.
E por falar nisso, tenham vergonha, senhores do mundo que o mundo também para vocês vai acabar, um dia…
E não se fala mais nisso!
…E POR FALAR NISSO
E por falar nisso…
sou agora um sorriso sem graça
um abraço sem brilho
uma frase inacabada
e mais nada
e por falar nisso
vieram os tempos sem sonhos
os invernos medonhos
os dias sempre iguais
o correr para o fim
apenas um retalho de mim
e pouco mais
E por falar nisso
deixa-me desenhar um outro país
plantar novas árvores na beira da estrada
caminhar, devagar, sem hora marcada
saber que há paz e luz no tempo futuro
que há campos de flores perfumadas
velas de moinhos, ao vento abraçadas
e searas ondulantes prenhes de viço
e…por falar nisso…
ainda há um chão onde posso ficar
A MIMI MARTINS
Mimi Martins- sem tempo para nos dizer um simples “até já” partiu a nossa amiga de sorriso aberto e franco onde se liam, facilmente, as palavras amizade e alegria.
Comentando uma notícia que foi partilhada sobre o restauro e a humanização dos bairros sociais do Porto, a sua última frase foi: “vai ser difícil, minha amiga“…e vai mesmo…será muito difícil não ver o seu sorriso luminoso no final de um poema dito aqui ou além depois de se calarem as vozes do Orfeão de S. Mamede.
A todos os seus familiares queremos dar sentidas condolências em especial ao filho, o maestro Sérgio Martins para quem vai também um fraterno abraço.
Vai ser difícil Mimi… não a vermos mas sabemos que vai continuar connosco!
EM MARÇO NEM DURMO NEM FAÇO… POESIA, APENAS VOU SEMEÁ-LA POR AÍ
Dia 8– Estudos Brasileiros -16h
Dia 8– Centro recreativo de Mafamude – 21h30
Dia 12–J unta de Freguesia de Massarelos-15h00
Dia 13–Santa Casa da Misericórdia de Matosinhos-21h30
Dia 14– ACAPO, Rua do Bonfim (Porto)-21h30
Dia 15 –Galeria Vieira Portuense-16h00
Dia 20– Fides de Valbom-Música e Poesia na Nua-21h30
Dia 21– Casa Barbot-Gaia-14h30
Dia 21– Associação de Pais da Senhora da Hora-homenagem a Fernanda Cardoso -21,30h
Dia 29– Encontros com as artes em Chaves-9h30 – partida dos Lóios (Porto)
Fotos: Pesquisa Google
01mar14






Obrigado
A minha Mamã esta muito honrada e feliz por esta homenagem. E difícil não ter a presença física dela, sentir a emergia dela, mas continua a viver no meu coração. Obrigado a todos pelo carinho e amor que me têm dado.
Obrigado Lourdes. Muito obrigado.
????
Muito obrigada, Mário Bragança.É bom saber que esta GERAÇÃO GRISALHA ainda pensa, respira, luta e ama a vida.UM TRIPEIRÍSSIMO ABRAÇO.
Temos algumas pessoas como a senhora mas muito poucas,por mim faço o que poço,sou reformado, trabalhador,estudante,poeta e pintor.Toda a vida trabalhei a beneficiar quem precisa e sempre mal reconhecido.Moro nos arredores de Lisboa mas sou de Guimarães.Continue d.Lourdes está no caminho certo.
O”títalo” foi inspirado no velho (mas ainda não reformado) provérbio que diz:”EM MARÇO TANTO DURMO COMO FAÇO” referindo-se á suposta igualdade dos dias e das noites deste mês.
Já agora há ainda um outro provérbio que também vos deixo:”MARÇO, MARÇAGÃO DE MANHÃ INVERNO E À TARDE VERÃO”.
Fiquem bem, fiquem a dar DUAS DE LETRA com os ANJOS.