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“ABRIL 40 ANOS DEPOIS! E DEPOIS?”: Personalidades escrevem sobre a “REVOLUÇÃO” que mudou Portugal

 

A convite do nosso jornal foram várias as personalidades que responderam ao repto por nós lançado: “Abril 40 Anos Depois! E Depois?”. O convite não foi aceite por todos aqueles que por nós foram contactados – cada um lá terá as suas razões -, mas quem a seguir escreve eleva a data, a Revolução Democrática, os Valores de Abril, mas também um sem-número de preocupações que, atualmente, estão a dar cabo da vida e da esperança de milhões de portugueses.

Esta foi uma das formas do nosso jornal comemorar “Abril”, sem censura, sem medo e com responsabilidade, algo que carateriza a identidade deste jornal há quatro anos a esta parte.

 

armenio carlos - 01abr14

ARMÉNIO CARLOS:

ABRIL TROUXE-NOS A RESPONSABILIDADE CÍVICA DE LUTARMOS CONTRA A POLÍTICA DE DIREITA

“Falar da Revolução de Abril é falar da esperança, da liberdade e da democracia, restituídas a um povo e a um país amordaçado pelo fascismo e uma guerra colonial fratricida.

Abril trouxe-nos a valorização do trabalho, os direitos individuais e coletivos, o direito à saúde, educação e segurança social. Mas trouxe-nos, também, a responsabilidade cívica de lutarmos no presente contra a política de direita, geradora de injustiças, de desigualdades e empobrecimento, que põem em causa o nosso futuro coletivo.

Afirmar Abril é assumir princípios, causas e valores indissociáveis da efetivação de direitos fundamentais de uma vida vivida com dignidade. É ter confiança e convicções de que tal como no passado, também nos tempos que correm não estamos condenados ao retrocesso social e civilizacional. Porque, como diz o poeta, “há sempre alguém que resiste. Há sempre alguém que diz não!

Saibamos, pois, romper com a alternância política e construir uma política alternativa. Para virar uma página da história e abrir um novo ciclo e o tempo para uma nova sociedade.

Secretário-geral da CGTP-IN

 

francisco louca - 01abr14

FRANCISCO LOUÇÃ:

DEMOCRACIA SUBJUGADA OU DEMOCRACIA RESPONSÁVEL

“O debate recente acerca da sustentabilidade da dívida demonstra claramente algumas das características mais importantes da sociedade portuguesa. De facto, sublinha os seus piores defeitos: uma burguesia subserviente, um poder subjugado, uma democracia mínima, um projeto desistente, um país a esvair-se. A violência contra os signatários de um apelo pela reestruturação da dívida, a perseguição casuística, a demissão de assessores do Presidente, a mobilização das vozes oficiais de Bruxelas, Washington e Berlim e toda a parafernália de situacionismo demonstrou que a questão é a mais importante, a que define, a que escolhe: ou Portugal ou a dívida.

Mas o apelo contra a dívida insustentável também demonstrou que há reflexão, que há pontes que se podem construir, que há resistência e, sobretudo, que há alternativas. Mais ainda, provou que só há alternativas onde houver coragem. Para proteger as pensões, para defender os salários, para criar emprego, é preciso atacar os problemas fundamentais e deixar de perder tempo. Esses dois problemas são a dívida e a austeridade.

Mas há, no fundo, a questão das questões, que é a dos 40 anos do 25 de Abril: quando derrubámos a ditadura, queríamos e conseguimos uma democracia responsável. A sua destruição às mãos da ganância financeira, da mentira tributária, da prescrição dos crimes, da corrupção e do favorecimento, exige uma resposta virada para o futuro: a democracia não pode desistir. Esse é o sentido do combate dos dias de hoje. Hoje, o futuro.”

Economista, Professor Universitário e ex-Coordenador do Bloco de Esquerda

 

jose luis ferreira verdes - 01abr14

JOSÉ LUÍS FERREIRA:

40 ANOS PASSARAM… 40 ANOS A CELEBRAR ABRIL

 “Miséria, pobreza, medo e analfabetismo para se poder sustentar. Um país austero que impunha aos democratas ativos a clandestinidade ou a prisão e tantas vezes a tortura como meio para gerar a denúncia ou a morte. Um país pobre combatido por portugueses ricos em ideais de mudança, de justiça social, de igualdade e solidariedade, ideais que transportavam sonhos de liberdade, democracia e paz. Um combate que desembocou nas cores dos cravos de Abril, nas cores dos valores de Abril.

“Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.”

(Jorge de Sena)

“Abril”: 40 Anos Depois! E depois!?

A ignorância associa-se ao desprezo para castigar a Constituição da República que edifica o caminho pelos sonhos de Abril.

A desonra e o menosprezo pelos valores de há 40 anos está presentemente instalado na atual classe dominante que vilipendia as conquistas de todo um povo assaltado e abandonado por governantes incautos e obreiros de crises recorrentes em beneficio do famigerado poder financeiro, este reconhecido como máxima autoridade.

Um poder que, em suma, pretende aplicar a retórica da austeridade como metodologia de governação, afinado em uníssono que quem tem dinheiro é quem cá manda e apostando na miséria, na indução do medo e no alheamento do cidadão.

O que eles não sabem nem sonham é que há uma canção chamada Abril.

E essa é a canção mais sábia delas todas porque há muito que ditou que o povo é quem mais ordena!

Este país tem Abril na sua raiz.

Abril é do povo e o povo de novo ordenará que Abril vencerá!

Dirigente nacional do PEV e deputado à Assembleia da República.

 

maria de belem roseira - 01abr14

MARIA DE BELÉM ROSEIRA:

HOJE, COM O PERIGOSO CONTROLO DA POLÍTICA PELOS PODERES ECONÓMICOS, TEMOS NOVAS LUTAS PELA FRENTE…

 “Para as pessoas da minha geração, Abril de 74 representou “o dia inteiro e limpo”. Rasgava-se um horizonte de esperança que deixasse para trás o Portugal atrasado, da pobreza, do analfabetismo, do isolamento e da negação da modernidade.

Muitos de nós interpretavam a realidade política e social à sua volta e não se conformavam com o atavismo, a segregação social e, sobretudo, o pensamento único castrador da liberdade.

É muito difícil, hoje em dia, conseguir transmitir aos mais jovens essa realidade e o quanto ela influenciava a enorme energia que carregávamos connosco no sentido de a transformar. O Abril dos capitães e do povo português permitiu essa transformação: a reconquista das liberdades civis e politicas, da igualdade de direitos, da consagração da universalidade dos direitos sociais e, em geral, o atingir de indicadores de desenvolvimento humano que, apesar de influenciados negativamente pelo lastro que trazíamos, representam um enorme percurso percorrido.

Hoje, com as profundas inversões de valores na nossa sociedade e no perigoso controlo da política pelos poderes económicos temos novas lutas pela frente: como dizia Norberto Bobbio, “a tarefa mais importante que temos pela frente em relação aos Direitos Humanos não é a de os fundamentar mas a de os proteger”.

Presidente do Partido Socialista

 

maria do rosario gama

 MARIA DO ROSÁRIO GAMA:

40 ANOS DEPOIS DE ABRIL…

 “Tinha 25 anos e muitos sonhos e utopias. Vivíamos até então numa noite sem fim onde era proibido falar, era proibido ler, era proibido ouvir a música que queríamos, era proibido manifestarmo-nos, era proibido ouvir algumas rádios, era proibido tudo… só não era proibido, proibir. Nessa manhã de 25 de Abril, sentíamos que qualquer coisa tinha acontecido mas ainda não identificávamos a origem. Na sala dos professores da Escola onde eu dava aulas e vendia clandestinamente a revista “O Professor” falava-se que tinha acontecido um golpe de Estado, uns diziam que era um golpe do Kaulza de Arriaga, outros diziam que era da oposição, uns ficavam esperançadamente à espera que os primeiros tivessem razão, os restantes, a maioria, desejava que fosse a oposição a tentar derrubar a ditadura.

Quando se confirmou a segunda hipótese e se percebeu que eram jovens militares a avançar contra o Governo de então, foi como se perpassasse pelo grupo, onde me incluía, uma força nova e uma vontade louca de sair para a rua, de gritar, de estar em cima do acontecimento, de acompanhar a par e passo todas as movimentações, de ver na televisão o desenrolar dos acontecimentos, mas sem perder o que se passava na rua…Foi bonita a Primavera, pá…como diz a canção do Chico Buarque da Holanda.

Hoje, passados 40 anos, o 25 de Abril está muito distante daquilo que foram os seus objetivos: a miséria está de volta ao país de Abril, temos 3 milhões pobres em Portugal e 1.500.000 indivíduos desempregados. As cifras da miséria portuguesa são terríveis, ao mesmo tempo que há 12 mil crianças portuguesas com fome assinaladas nas escolas, há vencimentos chorudos a atribuir aos assessores dos governantes e aos novos gerentes bancários;  as 100 maiores fortunas de Portugal valem 32 mil milhões de euros, o que corresponde a 20 por cento da riqueza total nacional. Hoje há 1 milhão de portugueses sem médico de família, pondo em risco o Sistema Nacional de Saúde, uma das maiores conquistas de Abril…

E o medo voltou! As pessoas vivem angustiadas e descrentes! Estamos a assistir a uma regressão no desenvolvimento do País e no bem-estar das pessoas, não temos guerra com armas mas temos uma guerra psicológica permanente sobre os reformados e trabalhadores deste país, com ameaças constantes de empobrecimento através da redução de pensões e de salários a par de uma subserviência aos países ricos do Norte da Europa, principalmente à Senhora Merkel, que põe em causa a liberdade e autonomia do nosso País. Abril está, de novo, por cumprir…”

 Presidente da APRE! 

 

mario nogueira -01abr14 

MÁRIO NOGUEIRA:

FAZ FALTA UM OUTRO 25 DE ABRIL

“25 de Abril: 40 anos depois! E depois?! Talvez outro 25 de Abril, porque faz falta… para impedir o cada vez maior empobrecimento do nosso povo, para voltar a criar emprego e a gerar riqueza, com uma aposta segura na produção nacional… Mas também para que as funções sociais do Estado sejam revitalizadas, neste momento em que o governo se prepara para as desmantelar de vez, à conta de uma alegada reforma do Estado…. E ainda para libertar Portugal de quem ingere na sua vida, pondo em causa a soberania nacional.

Os cravos, pois claro, estão a precisar de cor, do vermelho do Maio que é vida, é trabalho, é solidariedade… Não do negro da fome que entra nas escolas ou daquele que invade as casas de quem foi tardiamente chamado para a cirurgia, esse negro com que o governo está a cobrir a Nação.

Abril, 40 anos depois, terá de ser o Abril de sempre… o de agora e sobretudo o do futuro. Porque Abril é, essencialmente, futuro. Abril será o tempo que vem depois de um presente que rompe com o passado. Vontades e mãos à obra para a sua construção”.

Professor, Secretário-geral da FENPROF

 

vasco lourenco - 01abr14

VASCO LOURENÇO:

VENCER O MEDO, REAFIRMAR ABRIL… CONSTRUIR O FUTURO!

 “Portugal chegou a uma nova encruzilhada da sua História e, como em todas as outras, terá de ser o seu Povo a encontrar em si a vontade e energia para a ultrapassar. A crise que vivemos tem causas internas e externas que comprometem perigosamente o regime democrático e minam a justiça social, valores que estiveram na base do 25 de Abril.

A captura do Estado por interesses particulares, a falta de moral na vida pública, a sujeição colaborante do poder político aos directórios da finança nacional e internacional, a ausência de uma estratégia nacional integrada com a de outros países e povos colocados em situações idênticas, conduziram à situação de grave crise em que nos encontramos.

O empobrecimento generalizado, a saída, cada vez maior, de jovens com elevada preparação académica, o alargamento do fosso entre a minoria dos muito ricos e a massa cada vez maior dos muito pobres, o galopante desemprego de dramáticas proporções, a corrupção, a ineficácia da aplicação da justiça, o desrespeito pela História e pela cultura que nos distinguem há oito séculos, situações estas que não param de piorar com o anunciado agravamento do assalto fiscal e da brutal austeridade para 2014, concorrem decisivamente para a atual subalternidade do País. Hoje, Portugal é um protetorado.

Tudo isto, só foi possível porque os valores de Abril que inspiram a Constituição da República não vêm sendo cumpridos. Só a não observância e a não prossecução das normas constitucionais nos trouxeram a esta situação de perda de soberania. Por isso, se exige, mais que nunca, uma resposta popular.

É urgente e indispensável que os portugueses recuperem o seu poder soberano enquanto cidadãos que se reúnam à volta dos valores sociais e políticos que foram e são referência do 25 de Abril: liberdade, democracia participada, justiça social, paz e soberania nacional no quadro de uma União Europeia caracterizada pela igualdade e a solidariedade entre as nações.

Os valores de Abril terão de ser, ainda e mais uma vez, uma bandeira à volta da qual se juntam os portugueses decididos a lutar por um Portugal livre, democrático e justo.

As comemorações do próximo 25 de Abril, com a celebração do 40.º aniversário da data libertadora, deverão constituir um pólo agregador e dinamizador para a organização e o desenvolvimento das acções indispensáveis para a reconstrução de Portugal.

É neste contexto de descalabro nacional que a Direcção da Associação 25 de Abril, assumindo sem hesitação o seu papel simbólico, exorta os seus associados e demais cidadãos a envolverem-se empenhadamente na concretização de um plano de realizações, por ocasião do 40.º aniversário do 25 de Abril, sob a égide da iniciativa “Vencer o Medo, Reafirmar Abril, Construir o Futuro”.

Temos de ser capazes de reconstruir o nosso futuro, com base nos sonhos acalentados pela esmagadora maioria dos nossos concidadãos!

Continuaremos a acreditar que o 25 de Abril encerra um enorme potencial de valores e ideais motivadores e que é fonte de inspiração, de criatividade e de mobilização para a maioria dos cidadãos portugueses. Encorajam-se manifestações culturais e desfiles populares em todos os locais onde os cidadãos livremente se organizem, que reforcem o processo social, cultural e patriótico de resistência ao colaboracionismo, com momentos culminantes no 40.º aniversário do 25 de Abril.

Julgamos que com esta iniciativa podemos contribuir eficazmente para que as próximas comemorações do 25 de Abril constituam a afirmação do valor e capacidade dos portugueses e da confiança dos cidadãos em si próprios.

Esperamos e confiamos que todos se empenham de alma e coração nesta tarefa – que reputamos de urgente – de preservar a identidade e a coesão nacionais e de voltar a colocar Portugal como país soberano nos areópagos europeu e mundial”.

Presidente da Direção da Associação 25 de Abril

O texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

Coordenação: José Gonçalves

Grafismo: Hugo Sousa

Fotos: Pesquisa Google

 

 Obs: A inserção dos textos foi feita por ordem alfabética.

 

01abr14

 

3 Comments

  1. Paulo Silva (Porto)

    Para já, obrigado ao “Etc e Tal” e ao seu diretor pelo excelente trabalho jornalístico oferecido aos portugueses.
    Tenho a certeza que terá contactado alguém da Direita, mas esse alguém terá recusado ou até ignorado o convite, e depois dizem-se eles defensores dos ideais da Abril?! É de bradar aos céus.
    Gostei muito do artigo do Vasco Lourenço.

  2. Renato Cardoso (Lisboa)

    Antes de tudo, parabéns ao jornal “Etc e Tal” por esta corajosa iniciativa, porque não é fácil convidar políticos a falar – intervir – junto do povo.
    Gostei de todos os depoimentos, mas saliento o da Dr.ª Maria de Belém Roseira. Se a esquerda anda à procura de um candidato à Presidência da República, e está uma CANDIDATA que não tem “rabos de palha” e daria uma excelente Presidente da República

  3. Manuel Vieira (Faro)

    Interessantes depoimentos, como interessante foi esta iniciativa deste jornal. Pena é que nem todos tenham aceitado o convite, como entendi, na abertura da peça.
    Parabéns!

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