Menu Fechar

Mau tempo e dinâmica litoral DESLOCARAM AREIAS da costa de Ovar para PRAIAS VIZINHAS

Não fosse a falta de reposição de areias que se observa em toda a principal frente da praia do Furadouro, que mais fustigada tem sido pela erosão e por violentos galgamentos do mar – nem mesmo os vários pontos de destruição na via pública causados pelo prolongado período de mau tempo, como muretes derrubados, calçada levantada, passeios esventrados e o deprimente cenário de uma longa muralha de pedra paralela à praia, que aguarda agora início da prometida obra de consolidação das defesas aderentes – fariam esquecer todas as consequências dos piores momentos vividos, nomeadamente no Furadouro, tal é o desejo e a necessidade das pessoas em usufruírem da beleza e qualidade de vida proporcionada por tal paisagem natural, com o bom tempo a dar sinais de tréguas (assim se espera até próxima época de mau tempo e dos diretos com os autarcas nas TV), como se tem feito sentir nos últimos fins de semana, com temperaturas agradáveis e a chamarem os veraneantes para o litoral.

furadouro 07 -01mai14

Com o sol a aquecer e a alegrar corações tristes de tanta desolação vivida nos meses marcados pelo mau tempo, em que as águas do mar corriam pelas ruas do Furadouro. Os apoios de praia que estiveram em risco de ruírem, voltam a proporcionar a tranquilidade das esplanadas coloridas com sombrinhas mais perto do mar.

Os estabelecimentos que estiveram os últimos meses emparedados com proteções de madeira, devido à destruição de que foram alvo nos momentos mais agitados dos galgamentos, já reabriram ao público e aos ciclistas e motoqueiros que ao domingo invadem o Furadouro.

Ao longo das ruas a típica tradição dos grelhados volta a despertar apetite, com fogareiros a queimar carvão na via pública para preparar a sardinha assada ou as lulas, para uma refeição em ambiente familiar em plena rua, com as mesinhas das tasquinhas a ocuparem o lugar em que ainda algum tempo correu a água do mar.

Mas apesar de todo este entusiasmo dos comerciantes locais para esta bonita praia recuperar a sua atração turística e balnear, há sinais do cada vez mais intenso mau tempo e da dinâmica litoral, bem mais difíceis de vencer e sobretudo de atenuar os seus efeitos na paisagem do Furadouro, em que se vem destacando uma imponente muralha de pedra em plena zona em que alguns anos atrás, era um areal espaçoso que acolhia campo de voleibol e um cenário colorido de banhistas concentrados numa das áreas mais procuradas pelos jovens, ali mesmo em frente à Avenida Central, cujas acessibilidades ao fundo e curto areal está mais dificultado ao longo de toda a Marginal.

Furadouro - Norte
Furadouro – Norte
Passadiço destruído (Furadouro)
Passadiço destruído (Furadouro)

O recuo da linha de costa no litoral ovarense há muito que é reconhecidamente preocupante, mas, nos últimos anos, a sua evolução mostrou-se ainda mais inquietante, até aos acontecimentos deste ano que, globalmente em todo o litoral do país deixaram profundas marcas de destruição, não só de equipamentos públicos e das zonas urbanas frontais ao mar.

Mas igualmente da paisagem ambiental e das estruturas de pedra das defesas aderentes como os esporões, que, ao contrário do normal trabalho erosivo do mar menos intenso que se verifica em praias sem rochas ou escarpas, vem dando origem a uma erosão com grande intensidade, resultando no aprofundamento do nível da praia e da deslocação de areias através das correntes marítimas, que se depositam em áreas do litoral mais abrigadas, como praias vizinhas, onde as correntes litorais eventualmente exercem menos força, mesmo de forma artificial, como pode ser o caso de Espinho que está com areia a “mais” nas suas áreas balneares.

Ao contrário, aliás, do Furadouro, que para além de ter visto desaparecer a areia na praia frontal, ficou ainda mais pobre ambientalmente, com o mar a engolir com enorme facilidade, grandes áreas dunares a norte e a sul, descaraterizando a sua paisagem e território que ficou ainda mais desprotegido da erosão.

Paliçadas entre Granja e Espinho
Paliçadas entre Granja e Espinho

Espinho com “fartura” de areia

A enorme concentração de areia na extensa praia de Espinho é de tal ordem, que à primeira vista parece ter sido resultado de uma operação de alimentação de areia nesta praia. Uma solução defendida por especialistas e ambientalistas como é o caso de Álvaro Reis, que há muito defende tal solução para as praias do concelho de Ovar, na perspetiva de que, “Se as praias tiverem areia suficiente, o dinamismo contínuo daquelas areias fará com que umas vezes sejam arrastadas para norte e outras para sul sem que tais deslocações (porque a areia não está nunca parada!) alterem dramaticamente o perfil das praias”. Mas para que isso aconteça com eficácia, diz o ambientalista de Ovar, Álvaro Reis, “toda a costa tem que ter muita areia”.

Espinho (praia)
Espinho (praia)

Não sendo esta quantidade de areia em Espinho resultado da tese da alimentação artificial, é de certa forma “exagerada” na paisagem desta praia, já que chega a atingir um nível de altura idêntico ao do pavimento da Marginal (na parte norte), tendo obrigado a recorrer à intervenção da Unidade Militar de Engenharia de Paramos para, através de máquinas pesadas, deslocar as areias que invadiram mesmo um simbólico “campo” dunar que tinha sido criado artificialmente no extremo norte da praia de Espinho, bem como os campos de voleibol de praia. Uma significativa altura de areia que ali foi arrolada pelas correntes marítimas que alterou radicalmente a paisagem habitual dos bares e apoios de praia, assim como as áreas dos concessionários das características barracas de praia. Um profundo contraste com o Furadouro, cujos concessionários vêm vendo o espaço de areia cada vez mais reduzido para este tipo de negócio, que como nos confidenciou o concessionário do Furadouro, Max Maganinho, “este ano será difícil montar as barracas por falta de areal”, restará a exploração do seu bar de praia também já a funcionar.

Passadiço em S. Félix da Marinha (VN Gaia)
Passadiço em S. Félix da Marinha (VN Gaia)

Ainda que não seja a corrente predominante nesta zona litoral, Espinho para o bem e para o mal (tendo em conta a quantidade de areia que ganhou e que bem merecia ser gerida de forma a ser devolvida às praias mais carenciadas de cedimentos), pode ter beneficiado pontualmente da ondulação que esteve de Sudoeste (SW). Variação de vento que teve também como consequência, uma invejável (para as praias sem areia claro!) concentração de areia na zona litoral de São Félix da Marinha ao ponto de enterrar literalmente a extensa área de paliçadas usadas como técnica de retenção de areias, mas que neste caso ultrapassaram todas as espectativas. A areia ultrapassou mesmo estas estruturas em madeira que muito têm ajudado à consolidação dunar naquela zona, invadindo uma parte significativa do passadiço que liga Espinho às praias de Vila Nova de Gaia, neste caso à da Granja, que contrastando com tal cenário de “fartura” de areia, se encontra também vítima de forte erosão.

Texto e fotos: José Lopes

(Correspondente “Etc e Tal Jornal” em Ovar)

 01mai14

1 Comment

  1. Pingback:Mau tempo e dinâmica litoral deslocaram areias da costa de Ovar para praias vizinhas | OvarNews

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.