Luís Reina
Capítulo V
Chuva, chuva e mais chuva…
14 de Setembro
Seul
Chuva, chuva e mais chuva…
Não sei se é do jet lag ou se é do tempo agitado que se faz sentir. Certo é, que volto a acordar às cinco da manhã, com a chuva a bater forte nas janelas da suíte do hotel Yoido onde me encontro instalado.
Acciono a luz e observo atentamente o compartimento. Reparo que o aspecto luxuoso que me pareceu no dia anterior, se transformou como que por magia, durante a noite, num armazém chinês cheio de objectos dispostos sem o mínimo de estética.
No quarto, a cama king size, encontra-se praticamente encostada à parede da janela. Provavelmente a pensar em noites mais atribuladas de quem aqui assenta arraiais. Ao fundo da cama um gigantesco espelho vertical, de moldura preta, encostado à parede.
Na sala, um plasma de tal maneira grande, que mais parece um écran de cinema. Ao lado, um frigorífico cheio de bebidas. Águas com e sem gás, refrigerantes diversos, e muitas bebidas alcoólicas. Os preços pura e simplesmente proibitivos. Em relação à comida, posso mencionar entre outras; batatas fritas, chocolates e sandes diversas. Em cima do frigorífico, onde só um gigante pode chegar, um micro-ondas. Para mim e muito sinceramente não compreendo a razão desta existência. E, para finalizar toda a gama tecnológica Samsung que se encontrava à minha disposição, uma aparelhagem de som que nem tentei ligar, pois tenho a impressão que os outros hóspedes iriam ter um despertar forçado.
Passo à casa de banho onde as sanitas têm um sistema de aquecimento, além de todo um conjunto de botões robóticos, de funções diversificadas, activados com um simples toque do dedo. Uma vez mais, não experimentei. O tempo passa lentamente, preparo-me e desço para o pequeno-almoço.
Uma grande azáfama e corre-corre de empregados e de hóspedes. Hóspedes asiáticos, que se encontram de partida. A recepção encontra-se cheia de embrulhos gigantescos, de malas e um sem número de sacos plásticos transbordantes de produtos alimentícios.
A sala de pequenos-almoços, pequena, encontra-se repleta de pessoas que falam e riem demasiado alto para esta altura do dia. O buffet esgotado. Tenho que aguardar pela reposição de stock e por um lugar sentado. Ser paciente é um dom que tento dominar, embora por vezes seja difícil. Nesta situação, particularmente, ainda mais, pois veem que as pessoas estão à espera, e continuam em conversas demoradamente longas, como que de propósito, continuando em muitos casos às voltas tecnológicas com as suas mais recentes aquisições. Chega por fim o momento da tranquilidade, com o abandono em massa das pessoas. Calmamente, saboreio a minha primeira refeição do dia, por sinal igual à da manhã anterior.
Nove horas.
Hora em que é dado o tiro de partida para mais um dia. O segundo dia de viagem, todo ele dedicado à capital – Seul. O tempo continua perfeitamente sombrio já que a chuva e o vento não param de nos fustigar. Espero que as condições atmosféricas não interfiram uma vez mais nas visitas programadas.
A primeira visita do dia, é, nada mais, nada menos, do que o Museu Etnográfico Coreano, considerado um dos melhores da capital.
Uma viagem aos costumes e tradições do país do sul.
A diversidade e grandiosidade do seu acervo são condizentes com o magnifico edifício que se encontra edificado nos jardins do Palácio Gyeongbokgung, que visitaremos de seguida.
Este é um museu com uma diversificada e pormenorizada informação em coreano e inglês, que contrasta com as diminutas explicações prestadas pelo guia Étienne! As mais interessantes, contudo, são as que dizem respeito à religião, e a influência que a mesma exerce na vida familiar e social do povo coreano. Seja qual for a crença e a prática religiosa do coreano; budista, cristã, hinduísta ou muçulmana, ela rege-se sempre pela tradição filosófica confucionista. Tradição que reduz ao ínfimo o papel da mulher.
Intimamente relacionado com este tema surge um outro, o da morte. As cerimónias e rituais fúnebres, que ainda hoje se praticam e que me relembram outras idênticas, habituais nas grandes civilizações da antiguidade. Interesso-me especialmente por um dos objectos expostos – a Barca Sagrada. Faz-me regredir no tempo, concretamente ao ano de 1992, em que fiz um cruzeiro no rio Nilo, no Egipto. Relembro a visita efectuada ao Vale dos Reis e aos túmulos com paredes cobertas de frescos onde sempre estava presente a Barca Sagrada que conduzia as almas dos defuntos até ao Deus supremo da justiça.
Interessante, embora pequena, é a colecção dos instrumentos musicais tradicionais coreanos. O acervo do mobiliário é bastante rico. Proveniente dos antigos palácios imperiais, são peças feitas em madeiras preciosas com incrustações em madrepérola e marfim, que tiveram a sorte de não terem sido destruídas.
Outro dos assuntos que me interessou foi o relacionado com a medicina tradicional coreana que vai beber à fonte da medicina tradicional chinesa.
Pena que uma vez mais a visita se desenrole a um ritmo acelerado e estarem demasiados visitantes. Provavelmente é por ser Sábado.
Daqui prosseguimos a visita até ao Palácio Gyeongbokgung, o maior e mais importante dos palácios imperiais coreanos. Construído em 1395, tem como moldura natural o Monte Bugak. De novo a tradição Feng Shui, presente em todos os aspectos da vida quotidiana deste povo.
Uma vez mais, a tradução do seu nome, transporta-nos para uma dimensão, diria celestial, de lendas que enchem o universo mitológico oriental – Palácio do Abençoado Paraíso.
E, sem sombra de dúvida, trata-se de um paraíso.
Ao todo, este palácio é composto por 330 edifícios, construídos ao mais puro estilo arquitectónico coreano. Feitos em madeiras preciosas, ricamente pintadas e talhadas. Aqui foram coroados imperadores. Aqui foram recebidos todos os Marcos Polos de um mundo ocidental, totalmente desconhecido até então por este povo, com faustos e mordomias de um luxo impensável.
Pontes reconstruídas em madeira, onde, as águas abundantes das chuvas matinais se acumulam, formando pequenos espelhos, que reflectem pavilhões de distantes fragâncias. Outras são lajeadas a mármore branco. Atravessam lagos artificiais, onde pequenos botes, transportavam a corte imperial, em pequenos passeios de final de dia. Recantos, onde aos pores-de-sol, os suspiros apaixonados de romances proibidos, eram abafados pelos testemunhos cânticos de endémicas aves coloridas. Pequenas ilhas artificiais, refúgios de amanheceres suaves onde os cheiros florais dos circundantes jardins, anteviam noites de prazer.
Tão grande é o palácio, como a multidão que aqui acorre. Quantidade suficiente, para exasperar fotógrafos ávidos por captar a melhor imagem, deste éden, construído bem no coração da cidade. Aqui o mundo parou. Aqui perdemo-nos na beleza que nos cerca e que contrasta com o mundo feito de betão e cimento que se encontra no seu exterior.
E a chuva continua a cair, desta vez mais lentamente.
Contudo chuva é sempre chuva, o mal indesejado para quem viaja. Chuva, que forma grandes poças de água no chão arenoso em frente à entrada principal, que jovens voluntários tentam absorver, atirando camadas de areia para cima delas. É aqui que volto a presenciar, mais uma cerimónia de render da guarda, teatralizada por pessoas que parecem ser feitas de cera. Igual à observada no primeiro dia.
O entusiasmo é grande entre as pessoas do grupo. Contudo o que é bom acaba depressa. Demasiado depressa. E quando olhamos para o relógio, verificamos que a manhã passou veloz. O estômago começa a dar horas, tornando-se insistente. Despedimo-nos do palácio imperial com umas réstias de sol que nos fazem antever uma tarde de visitas menos invernosa.
Fica decidido seguirmos a pé até ao restaurante. O movimento de tráfego é intenso. Todo o cuidado é pouco ao atravessar a larga avenida. Também a circulação das pessoas na rua pedonal para onde somos encaminhados é caótica. Uma rua, ladeada de pequenas lojas de comércio tradicional, galerias e restaurantes. Um paraíso para os amantes da fotografia de rua, mais conhecida por Street Photo. Apesar de não ser o género de fotografia que estou habituado a fazer, devido à minha timidez para fotografar pessoas, fico encantado com o ambiente que me cerca.
Entretenho-me a testar a minha sensibilidade para este género fotográfico. Concentro-me. Enquadro a cena de rua, e, indiferente aos olhares de quem passa, disparo, disparo e volto a disparar. Só quando acabo mais um rolo e me apresso a trocá-lo é que reparo no que se passa à minha volta.
Não quero acreditar no que me está a acontecer. Recuo no tempo, mais concretamente ao ano de 1998 e a Shangai.
Estou petrificado.
(continua)
Para verem as fotografias relativas a este capitulo é favor consultarem o meu blog http://photoluisreina.blogspot.pt/
Obs:A pedido do autor, e ao abrigo do 5.º ponto do Estatuto Editorial do “Etc e Tal Jornal”, este artigo foi escrito de acordo com a antiga ortografia.
01-jul-14
Pois é Carlinha e aqui está o novo capitulo….
Bjs
Luis,
e mais uma vez eu viajei ao sabor das tuas palavras
apeteceu-me ligar tds os aperelhos, e as modernices desses botoes…
ihhihihii ate sentio um suave frio com a descrição da chuva, e molhei os pés, imagina que vim de sanhdálias….
obrigada por esta viagem, que quero continuar a viver
bjnhs
Olá Elvira
Pois é um pouco de suspense não é nada mau….já falta pouco para continuar a saga. e com novas fotos.
Bj
Olá Luís!
Tens o dom de recriar cada momento, como se fosse único. Adorei a viagem, as fotos, mas, queria mais…Fico á espera da continuação. Fica bem.
BJs
Agora minha querida é só esperares pelo próximo…suspense.
Bjinho grande e divulga.
caramba Luis, agora que estava a ficar entusiasmada….
linda crónica……