Menu Fechar

Ide embora!

José Gonçalves

(diretor)

Cento e sessenta trabalhadores da comunicação social vão ser despedidos pelo grupo Controlinveste (JN, DN, TSF e o Jogo). Vai tudo para a rua, não para fazer reportagens, mas para “pastarem” em centros de (des)emprego, emigrarem, ou lançarem meia-dúzia de jornais eletrónicos. Quando falamos em 160 pessoas, falamos também em 160 famílias, mas, para o caso e vendo bem a questão em termos economicistas, o que é que isso interessa? Eles e elas vão desenrascar-se… que remédio!

O que interessa é que o jornalismo está minado; minado por interesses que nada têm a ver com aquilo que deputados e outros políticos consideram um “pilar da democracia”: a comunicação social. Um “pilar” em crise, tal como a democracia que vivemos neste país desgovernado, ou governado por grupelhos, seus interesses e interesseiros agentes, prontos a darem cabo das conquistas que o 25 de abril embandeirou, mas que, passados quarenta anos, se esfumam a olhos vistos, sem que alguém trave este processo que se tornou mimético.

brincar com dinheiro

Este assunto é recorrente nesta coluna, ou seja, o assunto de andarem a brincar ao jornalismo, e, pior, aos e com os jornalistas. Não só se brinca com o trabalho precário a que eles são sujeitos – confrontados quando assinam contratos para terem um vencimento inferior ao salário mínimo -, mas também com aqueles que se sujeitam a tudo e a todos para manterem uma atividade digna, por independente e respeitosa que ela deve ser, ou deveria ser.

Brinca-se e quem brinca já tem idade para ter juízo. E brinca-se porque a brincadeira dá dinheiro, ainda que certos “empresários” de grupelhos da comunicação social, normal e frequentemente, se queixem de quebras de vendas, de publicidade, e outros fantasmas criados, única simplesmente, para alimentar os seus interesses.

Há na realidade, exceções à regra, e, por mais estranho que possa parecer, essas situações extraordinárias acontecem em “títulos” geridos por empresários que já foram jornalistas, que sabem o que é jornalismo, que viveram o jornalismo, que foram ao fim da rua… ao fim do mundo, e, hoje, noutro mundo, são verdadeiros meritocratas. Felizmente, não são só dois ou três, são mais, mas são poucos!

O resto ou são “aprendizes de feiticeiro” ou oportunistas que veem – sem mais ninguém poder ver – na comunicação social um potencial de riqueza, feito por acordos publicitários obscuros e reportagens encomendadas, nas quais os paus-mandados (leia-se jornalistas) têm, obrigatoriamente, de estar preparados para vergar a espinha, apanhando o “sabonete” da interesseira notícia ou da interesseira cacha, correndo o risco de, se assim não for, serem vítimas de assédio, seja ele psicológico, ou quiçá, de um outro mais grave… à custa do “sabonete”.

Se estes casos verificam-se em muitas empresas de comunicação com difusão nacional, pior são os que se registam em termos regionais e locais. Neste último caso, além de empresários “carniceiros”, somam-se os caciques, os autarcas de meia-tigela, e os donos de verdadeiras “lavandarias”.

As reportagens encomendadas (sem a referência de publi-reportagem, ou outra coisa do género) são frequentes. As notícias são, facilmente, controladas e censuradas, e se algum (verdadeiro) profissional da comunicação questionar a deontologia da matéria, mesmo que tenha nome na praça, sabe, de antemão, que o olho da rua é destino certo.

Não sabiam disto? O Sindicato dos Jornalistas não sabe disto? A Justiça não sabe disto? Sabem, sabem, mas não querem saber.

Os jornalistas têm medo! Têm medo de não agradar ao chefe e o chefe tem medo de não agradar ao diretor e o diretor tem medo de não agradar ao patrão. O patrão, por seu turno, mesmo com dinheiro nos bolsos, tem medo de promover trabalhos jornalísticos de investigação; tem medo de apostar no profissional competente, não vá o “gajo” descobrir alguns dos seus rabos-de-palha, e que, em vez de publicar a coisa (de forma condicionada) no seu jornal, a venda à concorrência.

Se estes factos são visíveis no jornalismo regional (eu sei do que estou a falar), também o são no jornalismo ligado ao desporto. Quando falo em jornalismo, refiro-me também ao de televisão, rádio, imprensa e eletrónico. Quando falo em jornalismo, falo numa arte em vias de extinção quanto à formação deontológica. Não há respeito! Quantos mais sangue, melhor! Quanto mais “Relax”, melhor”! Quantos mais obituários, melhor! Quantos mais “gajos” ou “gajas” a trabalhar a recibo verde ou a 300 euros mensais, melhor, e melhor ainda é se trabalharem mais que os outros… em estágio curricular.

Sei que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social está atenta a estes fenómenos, pelo que se espera dela uma posição sobre estes graves problemas. Estou em crer – convicto mesmo – que a vai tomar, como também estou convencido que os responsáveis pelos destinos do País vão criar algo parecido com uma entidade reguladora de mercados, sabendo que dinheiros e interesses se jogam nos grupelhos da comunicação social.

titullos jornais

Os jornais vão acabando. De meados do século passado até aos dias de hoje “morreram” muitos títulos de referência. O que é feito de “O Comércio do Porto”? De “A Capital”? De “O Independente”? Do “Diário Popular”, do “Portugal Hoje”, ou do “Diário de Lisboa”? Da “Gazeta dos Desportos”? Do “Semanário”? De “O Diário”? Do “Tal & Qual”? Isto na Imprensa, e nas rádios?

Ora, com estas “mortes” quantos jornalistas, entretanto, morreram, e quantos, hoje, são velhos para trabalhar e novos para a reforma. Não sendo (por burrice) títulos apetecíveis para certos e determinados grupelhos económicos, deixou-se a “canalhada” e respetivas famílias ao Deus dará.

Não queiram ser jornalistas, jovens deste país! Queiram ser comentadores políticos,  ou empresários com um contrato para contratos. Não queiram ser advogados, nem juízes em causa própria. Nem polícias! Ide para o Butão. Lá não há telemóveis, nem internet, mas pelo menos casas há, porque caso contrário o “Butão” não entra. Ide! Mas não ide para redações conspurcadas de interesses e chefiadas por gente sem escrúpulos… psicopatas.

camelos

Os que ainda sobrevivem a este atentado ao “pilar da democracia”, têm o pilar no sítio, porque se mostram ao mundo, e porque se mostrando ao mundo têm no mundo essa defesa.

É com ele (o pilar) no sítio, que se “procriam” jornalistas e formam redações com gente séria, afastando-as dos “carniceiros” que não têm vergonha de despedir gente; gente que é gente e tem gente para alimentar.

Não brinquem mais aos jornais “carniceiros” da minha terra, alguns dos quais (poucos) já condenados a andar fazer serviço comunitário. Ide lá para os “off não sei das quantas” e inventem jornais num deserto sem leitores, com redação constituída por camelos. Lá, lá no deserto. Lá longe e sem oásis.

Ide, porque se forem – porque vão, mais dia, menos dia, até porque se o destino não for o do deserto será o do Inferno – ou menos, por lá não despedem, não humilham, não assediam… jornalistas, nem outro tipo de “carne” qualquer… a não ser a do coitado do camelo. Ide e terão de encontrar água, porque por lá, ao que sei, encontrar garrafas de uísque com que, aqui, revitalizam o cérebro todas as noitadas em bares de referência alternada, lá… temos pena, mas não! Nem água, quanto mais uísque!

Ide embora!

Judite de Sousa

Quero, por fim deixar aqui um abraço solidário e sentido à camarada jornalista Judite de Sousa pela dolorosa perda do seu filho. Paz à sua alma! Força camarada! A vida continua! Vamos para a frente! Força Judite! Força!

Fotos: Pesquisa Google

 

01jul14

Partilhe:

1 Comment

  1. Paulo Duarte (Lisboa)

    Então só ao dia seis de julho é que alguém comenta esta (pertinente e reveladora peça sobre realidades). Se não fosse eu?! Bem, como diz o autor,…alguns devem ter medo de se expressar, e os outros devem estar a apanhar os sabonetes. Este jornalismo nacional (porruguês) é assim… uma cambada de cobardolas a 70 por cento. Não me engano muito na percentagem.

    Parabéns José Gonçalves, só fala do que sabe quem sabe, e fala quem tem coragem… escrevendo. Como você o fez.

    Obrigado

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.