Menu Fechar

Já aí está o Marx do nosso tempo!

António Dores

A tensão social é palpável. Menos para os economistas e os sociólogos e outros profissionais rotinados em lidar “objectivamente” com a conflitualidade. Os Estados preparam-se para se defenderem (policial e ilegalmente) para manterem a prioridade às suas alianças estratégicas com o capital financeiro e mediático, determinantes para oferecer pão e circo aos povos explorados e oprimidos.

Os povos assanham-se: primeiro para sinalizar a ultrapassagem da linha vermelha. Uma vez consolidada a situação de facto da abolição da democracia (mesmo do ponto de vista subjectivo dos políticos de serviço), os povos auto-organizam-se contra os oligarcas, cada vez mais descarados mas também cada vez mais fora da toca (isto é, com a sua legitimidade transformada em telhados de vidro).

Mas o que é o Povo? Que Povo emergirá da acumulação de energia social em curso? Será o povo racista, à moda nazi-fascista? O Povo de esquerda, a investir na luta de classes? Ou outras formas de Povo inovadoras?

Karl Marx
Karl Marx

Nos anos setenta João Bernardo escreveu “Marx crítico de Marx”. Demonstrava como Karl Marx se imaginava do lado de uma burocracia, ao argumentar o seu “O Capital”. E que não foi Estaline ou sequer Lenin quem traiu a revolução proletária. A própria concepção de revolução proletária já era uma ideia que escondia (com o rabo de fora) as lógicas burocráticas que haveriam de vingar no século XX, tanto a Leste como no Ocidente.

40 anos depois, João Bernardo, através do pequeno ensaio “Sobre a Esquerda e as Esquerdas” em Passapalavra, reforça a sua tese: “temos de partir quase do zero” para reconstruir a esquerda”.

O que me faz confusão é porque será necessário reconstruir alguma coisa? Pareceu-me que grande parte do ensaio é a explicar as perversidades da esquerda real. Acabar a propor um projecto da sua reconstrução – para mais a partir do zero (mesmo que quase) – reclama uma explicação: vale a pena salvar o náufrago ou mais vale deixá-lo seguir o seu destino? Não haverá o risco de quem quiser salvar o náufrago se afogue com ele?

João Bernardo menciona a democracia revolucionária como objectivo e método. Mas o que isso quer dizer? Será uma democracia revolucionária burguesa, como aquela que hoje vivemos, em que a democracia se reduz ao voto numa vanguarda neoliberal manipuladora do Estado? Ou será uma democracia popular, como aquelas que jamais resistiram muito tempo sem revelarem o seu carácter burocrático, em tanto semelhante com o regime neo-liberal actual? E partiremos mesmo do zero para esta discussão prática? Ou, ao contrário, essa discussão está nas ruas já há alguns anos, nomeadamente através do Movimento de Justiça Global e no que alguns chamam os novíssimos movimentos sociais (na verdade, megamanifestações)?

David Greaber
David Greaber

Só posso responder por mim a estas perguntas, sabendo não ter respostas para elas: o novo messias intelectual já publicou e já foi traduzido para línguas ibéricas. O antropólogo David Greaber, activista dos Occupy, é o meu segundo ídolo político, em quase sessenta anos de vida, depois de Karl Marx. Embora ambos se refiram ao comunismo como modelo de sanidade social, são muito diferentes entre si.

O comunismo, em Marx, seria estruturado no futuro, criando o Homem Novo (o burocrata, conforme João Bernardo denunciou). Para Greaber o comunismo é parte da natureza social da espécie humana: é uma experiência quotidiana de todos os seres humanos – é a necessidade vital de confiar e dar aos mais próximos conforme as nossas possibilidades (avaliadas por nós) e as suas necessidades (avaliadas por eles).

Ambos se referem à mesma classe social: aos burocratas. Mas Marx refere-se a eles antes de terem evoluído de lacaios do capital para nova pequena burguesia (ou classe média), com larga representação social e proximidade com os trabalhadores braçais assalariados (entretanto, em parte, aburguesados). Greaber imagina-os já constituídos em grosso e estrutura das sociedades modernas actuais (sociedades de consumo), sujeitos à perspectiva de genocídio de classe que a globalização lhes apresenta actualmente no horizonte.

Como se diz: os trabalhadores sempre viveram em crise. Os burocratas é que não: beneficiaram de seguranças existenciais formais para se manterem fieis ao Estado – e a seja quem for que nele mandasse (segundo a ideologia legalista e descomprometedora descrita por Hannah Arendt como banalidade do mal).

Com a chinesização da globalização (e a hegemonia da noção de burocracia como oligarquia, não só na China, mas também no Ocidente e nos outros BRIC, como é bem visível no Brasil e na Copa do Mundo) em vez de lugares para as massas na classe média, o processo de proletarização do superavit de burocratas tem vindo a produzir uma nova classe marginal e marginalizada de ex-lacaios e ex-burocratas e ex-classe média à procura de soluções práticas para evitar a perda de status na sociedade em devir.

luta de classes

A democracia revolucionária, informa-nos João Bernardo, não será construída pela esquerda herdeira do orgulho proletário, presa às políticas disciplinares do que restar do Estado Social e sem capacidade de combater o desemprego estrutural global. Será construída pela nova pequena burguesia marginal, mobilizadora da nova pequena burguesia globalmente marginalizada?

David Greaber não sabe. Mas empenha-se em mostrar que a história das lutas de classes não começou nem acabará com o estágio capitalista que temos vivido. É preciso reconhecer que há vida para lá do capitalismo (não tenhamos medo, nem pressa, como dizem os Indignados). A democracia e a dívida – como o comunismo – são experiências que podem ser encontradas na história da humanidade, muito para além dos duzentos ou quinhentos anos de história a que as ciências sociais reduziram os seus estudos.

 

Bibliografia:

João Bernardo “Sobre a Esquerda e as Esquerdas” http://viasfacto.blogspot.pt/2014/05/quarta-e-ultima-parte-de-sobre-esquerda.html

David Greaber, The Debt – the first 5000 years of history

em castelhano

https://docs.google.com/a/iscte.pt/file/d/0B14Synwe1mHzeGthNE1Va3RwSk0/edit

David Greaber (2013) Projecto Democracia, uma ideia, uma crise, um movimento, Lisboa, Presença.

 

 

Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

 

Fotos: Pesquisa Google

 

01jul14

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.