Menu Fechar

Os Abutres

José Luís Montero

Quando era mais ou menos jovem e comia o mundo todas as manhãs frequentava um dos grandes Cafés de Lisboa; chamava-se “Ribatejano” e ficava perto do velho Cinema Lys; a cinco metros da Rua da Palma; a vinte metros da boca do Metro do Intendente e à entrada para a ilha de todos os sonhos. Imaginava-me Poeta; os meus amigos imaginavam-se outro tanto do mesmo e algum também sonhou com o Borsalino.

Eu não me admirei com o Borsalino, nessa época, mas, apaixonei-me, no Cinema Lys, pela Sofia Loren; pareceu-me bastante mais poética que o Alain Delon ou o Jean Paul Belmondo. Além disso e muito mais importante, começara a navegar pelo Movimento Dadá; o Surrealismo e comecei a sentir uma atração fatal pelo Movimento Underground; beijei então todos os Poetas Malditos e fiz da palavra “abutre” um dos meus selos; um dos meus emblemas; um dos meus brasões. Mal sabia eu que os elementos da rapinha financeira e empresarial têm uns fundos que se chamam “Abutres”.

abutres

No entanto, estou convencido que nem são fundos do Movimento Underground, nem levam na ponta la língua o Verlaine, Poe ou o Baudelaire. Só levam uma coisa: sobrevoar a miséria e alimentar-se avaramente dela até à gordura mais obscena. São rapinha. Portugal, como País em crise aguda à mercê de estranhos poderes internacionais, é um dos pastos preferidos destes “fundos abutres”. O Espírito Santo que ocupa as primeiras páginas dos jornais e as conversas mais ocorrentes e decorrentes nas mesas das tascas mais eruditas, é alvo destes fundos desde antes da queda.

Ainda o tal Ricardo Salgado que também é Espírito Santo, estava no pedestal banqueiro quando se instalou nas barbas de todos um “fundo abutre” no Conselho de Administração com o 2 por cento da praxe. Posteriormente, soube-se dos movimentos do Goldman Sachs, mas, a nível informativo, o “fundo abutre” parece que se esfumou; evaporou-se; nunca mais se soube. São como o velho star televisivo o Homem Invisível.

Mas, este Homem Invisível “abutre” rapinha sobre a lixeira à procura de pérolas e encontra; sempre encontra e o BES e o GES têm muitas pérolas entre o lixo e as colunas derruídas do seu antigo esplendor.

Foto: "Visão"
Foto: “Visão”

Portugal, tal como a velha Grécia, perdeu nesta crise a alma do próprio Gigante do Adamastor. Pela Portela de Sacavém ou por uma entrada virtual bandos de abutres procuraram alimentos de glutões. Em muitos casos, em todos os casos, talvez, tinham serventes bem remunerados e agasalhados com ouro, incenso e mirra e as coisas começaram a mudar de morada; algibeira e sorriso Pepsodent.

O caso BES, além das jogatanas típicas das altas finanças que abundam nos lares usureiros, tem pérolas que são cobiçadas pelos grandes trusts. O Espírito Santo Saúde foi cortejado desde a véspera do primeiro dia; o Grupo Angeles é a mostra mais palpável; ama o Espírito Santo Saúde antes do baile ter começado; ainda a velha Orquestra estava a acomodar os saxofones e os trombones no autocarro e o amor já suspirava de paixão. O mundo agenciado como neoliberal produz cadáveres e alimenta-se de cadáveres; malditos abutres.

Caminhamos sonâmbulos sobre os factos. Bebemos da primeira torneira adornada para promoção sazonal. A capacidade que temos para assumir o produto vão como natural e útil, produz bandos de abutres que percorrem o mundo a devorar as maravilhas esquecidas entre o lixo sazonal com que enchemos as nossas casas e as nossas vidas. Existem porque renunciamos a existir; brilham porque não os espantamos da luz. Somos vítimas, mas, também somos produtores deste tipo de bandos ou bandas descarnadas. Temos nas nossas mãos o ato mais fácil, possível e impossível; nas nossas mãos está a capacidade e o poder de “renunciar”. Mas, não renunciamos e retroalimentamos quem nos castra.

sonambulos

Vejo-me como “maldito” a pronunciar a palavra “abutre” e não deixo de esboçar o sorriso amarelo ou amargo do desengano. Visiono aquelas mesas do Café que continham todas as flores do mundo e nem nostalgia sinto; só pena; só lamento porque aquele passado só conseguiu criar castelos no ar. Os abutres que me acompanhavam na minha imaginação não eram poéticos; eram, simplesmente, abutres.

No entanto, hoje estamos nas mãos, como dizia a Poetisa Natália Correia, de gente que pretende dizer como é a vida que queremos ou sentimos inspirados numa tenra infância que viveram levados por conceções anódinas do mundo. Hoje, vivemos governados pelos saudosos dessa vida passada entre velhas colónias e fauna e flora exóticas. Não passam de uns tristes messiânicos que condenam o presente; abrem, de par em par, as portas e as janelas aos abutres e não fazem mais que desnaturalizar terras e culturas. A Poesia, ainda que a lírica do meu Café não fora mais que fumo efémero de tabaco juvenil, soube ler aquele presente e relatar-nos o futuro que é o hoje.

O Miguel Relvas e o Passos Coelho estavam apontados nas palavras da Natália Correia. Os abutres que sentaram à nossa mesa de Café, não são gente; são abutres. O Passos Coelho e o Miguel Relvas também não são poesia; são os assinalados pela poetisa.

 

Fotos: Pesquisa Google

01set14

Partilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.