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A verdade carunchosa

José Luís Montero

Verdade; sendo verdade é mentira tal como o meu sorriso. Sorrio e a verdade é o meu sorriso, mas, se o meu sorriso não é um sorriso que nasce nas entranhas, estamos na mentira. O mesmo acontece com este pobre País e outros tantos países que sendo verdade são mentira. O caso BES é verdade, mas, é mentira.

O Estado “emprestou” dinheiro a um tal fundo de banqueiros para “pagar” o buraco do BES. Foram mais de quatro mil milhões e menos de cinco. Na lógica do negócio bancário o que empresta ganha porque não empresta de borla; soma juros. O governo dos excelentíssimos senhores da direita portuguesa; burocratas do Banco de Portugal e analistas do Poder falavam que a intenção era recuperar o buraco do BES para posteriormente “colocar” a bom preço em mãos sábias e sãs.

Todos estes senhores e a esquerda instalada calaram ou comentaram as eternas boutades típicas da fictícia oposição. No entanto, além da alarvidade do nome inventado Novo Banco (isto tem nome de novo banco do jardim da Celeste ou da Casimira, mas, nunca de banco-negócio de usura). Hoje já sabemos que o novo Presidente desse tal novo Banco saiu pela porta em trotinete, que o novo Presidente (vindo do Lloyds Bank) chega em trotinete motorizada com a missão de “vender” em tempo record, mas, também sabemos que o tal Novo Banco que era o tal Banco Bom para ser vendido pelos tais mais de quatro mil milhões e menos de cinco de empréstimo estatais tem que ser fracionado em vários banquinhos apetecíveis. Concluindo: o Banco com nome de banco do jardim da Celeste tal como foi estabelecido por técnicos, doutores e e-mails governamentais não está apto para serviço. O dinheiro estatal corre perigo e é caso para dizer: Zé Povo prepara a carteira e enfia mais o barrete…

barrete ze povinho - 01out14

Ah… Mas o Espírito Santo Saúde tem namorados de aqui e de além; os restantes investimentos estão cheios de amantes que prometem o Paraíso e (quem me manda navegar pela aldeia global e dar com esse imenso latifúndio situado no Paraguai?) apetece-me; desejo saber; conhecer a evolução deste tipo de coisas. Se calhar, um dia, leio ou oiço de um sisudo analista que a produção de cinquenta e seis mil cabeças de gado é ruinosa ou que todos os cultivos desse latifúndio descomunal são material que só serve para reciclar. Mentira. Somos governados pela mentira. No caso Tranquilidade, uma manhã, sentado numa esplanada de Lisboa em amena conversa com um amigo, comentou-me o seguinte: “trabalhei no projeto da sede da Tranquilidade e “porra!” O preço pelo que querem vender a Companhia quase o vale a sede…” Zé Povo: o enfia o barrete é uma Lei não escrita que o Poder te enfia dia sim-dia não.

Mas, é por essas e outras que o rendimento assistencial pode desaparecer da algibeira sem aviso prévio claro e esclarecido. É por essas e por outras que os funcionários públicos com menos de mil euros de ordenado sentem que têm cada vez menos dinheiro. É por essas e por outras que o IVA está mais alto que a Serra da Estrela. É por essas e por outras que os recibos verdes proliferam sem fiscalização no meio da patronal. É por essas e por outras que cada vez se vive pior e as lojas, bares e afins estão cada vez estão mais vazios. Não, a verdade política é a mentira em que vivemos aqui, na Grécia ou em Espanha. É a mentira política, a mesma, que há uns largos anos se dizia que acontecia nos Países de Terceiro Mundo.

Políticos e gerifaltes do pensamento único e restante caravana do cortejo do Poder enchiam a boca quando falavam da deslocalização. Estavam (os pobres de espírito) a inventar um novo mundo com a boca cheia. Atreviam-se a falar e recomentar formulas produtivas para a velha Europa. Ascenderam aos píncaros da modernidade político-económico o palavrão competitividade. As empresas mais avispadas e poderosas instalaram-se nos Países mais exóticos. E passados anos; transcorridos acontecimentos soubemos que essa competitividade estava assente sobre as costas da exploração do trabalho infantil. E soubemos como os tecidos industriais da velha Europa foram literalmente triturados. Estou farto de verdades que são mentiras. Como diria o outro: “e os sindicatos da velha Europa fizeram alguma coisa? Onde estão eles?” “

desparecem sindicatos

Acompanho o caso BES ou GES porque não gosto das verdades que são mentiras; porque detesto que a direita com silêncios cúmplices da esquerda parlamentaria faça uma espécie de confiscação para servir a corrente mais absurdamente neoliberal do capitalismo mais selvagem. Porque detesto a volta ao tempo da escravidão.

Tristemente parece que vivemos num Outono eterno dos chamados valores do velho Humanismo. E como quase sempre digo, confiscaram a Poesia. Mas, não merece a pena chorar. A lágrima só é útil quando o seu sabor salgado impele para um novo salto otimista e corajoso e abule os determinismos sociais e históricos amamentados pelo Sistema.

 

Fotos: Pesquisa Google

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