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Os novos carteiristas e o Turismo

José Luís Montero

Um vento fresco beija-me o rostro. Além, o Tejo, manda-me uma mensagem cosmopolita e diz-me: “vem, por mim vai-se para o Mundo”. Aqui, ao meu lado, sentados numa mesa e bancos públicos ao cimo da Calçada do Monte, três homens jogam ao dominó; eu, na outra mesa, tento escrever sobre a barbárie açambarcadora que engana e esvazia a algibeira dos turistas. Lisboa não está cheia de turistas; está inundada. Bandos e bandos de alemães e franceses desfilam ou aninham-se nas bichas do mítico carro elétrico 28; enchem as esplanadas e fotografam tudo o que é de interesse e também o que não tem interesse.

eletrico 28 - lisboa

Mas, os turistas comem; bebem; têm necessidades e também sentem angústias nos pés e nas pernas depois de calcorrear alguma das sete colinas. Procuram ar livre; esplanadas que anunciam em belas fotografias grandes postas de bacalhau e sentam-se. O preço, comparado com o que se pratica nas suas terras, é sempre convidativo. Sentam-se; são imediatamente atendidos num inglês do Cais do Sodré e pedem bacalhau; frango no churrasco ou arroz de marisco.

Comem, bebem e a euforia ou bem-estar que produz o clima e a bela sensação de comer ao ar livre no Outono provoca que repassam a fatura final com bastante ligeireza. As faturas, é escusado dizer, são uma soma em nada legível e com percentagens “inexistentes” que se adicionam à conta.

Normalmente, aparece o “famoso” 10 por cento que nasce por obra e graça do patrão, sempre meio pançudo, e pelo servilismo habitual existente no mundo da hotelaria. O turista desconhece e parte, novamente, para uma das suas caminhadas. O patrão viu mais uma roda do seu carro topo de gama paga e o empregado contenta-se com uma gratificação que o português não dá, nem pode dar.

Acontece que as levas de turismo desbordante são finitas. Sucede que quem mantem o pequeno comércio vivo é o Zé da esquina ou a Maria varina e não o turista que enche a mala de galos de Barcelos. E surpreendentemente lemos nos jornais de grande tiragem reportagens trabalhadas sobre os velhos carteiristas que sobem no mítico elétrico 28 para aliviar os turistas.

esplanada - lisboa

Nunca li, infelizmente, reportagens das faturas de muitos bares ou restaurantes das ruas da Baixa Pombalina onde existem duas ruas, uma perpendicular à Praça da Figueira e outra que desemboca no Rossio pelo lado do Teatro Dona Maria II e o Palácio da Independência onde qualquer transeunte é literalmente avassalado pela pressão que exercem os restaurantes ou tascas sem Piripiri. As esplanadas superam, nitidamente, o espaço atribuído e a minha pergunta resume-se no seguinte: quando as levas de turistas se cansem de subir as colinas de Lisboa quem comerá e pagará esse misterioso 10 por cento que aparece em muitas faturas?

A Polícia ou outros serviços de inspeção andarão, com certeza, na procura dos afamados carteiristas do elétrico 28, mas, quem anda na caça deste novo aliviar de carteiras que fala Inglês do Cais do Sodré? Onde estão os organismos que avisam e protegem o turismo deste espírito ganancioso de mal formados? Viver ou desenvolver o Turismo implica necessariamente gerar um enorme espírito hospitalário. As Câmaras que gerem muito destas coisas como podem ser a invasão das esplanadas do espaço legítimo dos transeuntes que fazem? Que imagem dão; querem dar ou dão de Lisboa e do lisboeta? O novo arauto do PS antes de querer vender novos rendilhados para enfeitar o País deveria colocar a roupa de casa a lavar com lixívia. O António Costa é sem dúvida um grande risonho, no entanto, com sorrisos só se estabelecem simpatias, mas, não se soluciona o abuso vergonhoso ao turista que, cheio de ilusão, se aproxima a uma cidade mítica para ver, conhecer ou bronzear as pernas em pleno Outono.

Alfama (Lisboa)
Alfama (Lisboa)

Assim, Lisboa, torna-se uma cidade mais melancólica que o próprio Fado e mais grisalha que uma terra permanentemente banhada pelo nevoeiro. Perde o encanto, o charme e o espírito exótico que apaixona os visitantes. Por perder, perde o cheiro a cloaca velha misturado com alecrim e rosmaninho. Os manjericos também deixam de ser cantados quando a Primavera toca o sino da Alma e altera o sangue. Lisboa fica triste e entra no baú dos lugares onde reina a “esperteza saloia”. Pobre Lisboa… Pobre cidade; pobre País que permite que as aves de rapinha se instalem no centro nevrálgico do seu Ser.

Possivelmente, dentro de uns anos, apareça um novo letrista de Fados e nos conte, desde a alma profunda, quando a Baixa Pombalina falou Alemão e como deixou de falar Alemão e Português porque o cidadão da esquina não paga arroz encharcado por arroz de marisco, nem paga preços típicos dos países ricos. Talvez, padeça, então, uma nova invasão de gambozinos que descubram que o negócio está no arroz de carqueja sem esse 10 por cento misterioso que aparece em muitas faturas de bons viajantes. Portugal está, realmente, numa crise profunda.

 

Fotos: Pesquisa Google

 

01nov/dez14

 

 

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