Menu Fechar

MMXV: O ano do “vira o disco e toca o mesmo”?

José Gonçalves

(diretor)

MMXV, ou o ano de campanhas eleitorais, da redistribuição de “rebuçados”, espaçada que foi a ação por quatro anos de austeridade, os quais “troikaram” num número assustador de desempregados e de milhares e milhares de pessoas no limiar da pobreza, das quais trinta e tal por cento são… crianças.

A operação de cosmética que a coligação governamental se prepara para fazer nos próximos meses, ou seja, até ao final do verão, altura em que serão realizadas as eleições Legislativas, vai não só colocar à prova a eficácia dos discursos e dos programas dos partidos da oposição, mas também a memória dos portugueses.

Pergunta-se: Será que já se esqueceram dos problemas que afetam a Justiça, o Ensino, a Saúde, a Administração Interna, enfim toda uma série de trapalhadas que conduziram o nosso país por caminhos politicamente nunca antes percorridos? E a corrupção? O caso BES e dos Vistos Dourados? A polémica prisão preventiva de Sócrates? O descrédito da classe política? O crescente número de emigrantes? Os cortes nas reformas e nas pensões? Resumindo: o rol de decisões ultraneoliberais que penalizaram os portugueses sem dó nem piedade?

trapalhadas

Trapalhadas

Sabemos que os milhões que saíram às ruas contra a Troika e a mais que “troikana” política do governo de Coelho abalaram o executivo, mas foi de consequências práticas tão efémeras, que os governantes, depois de “aliviados”, desataram a rir-se e a prosseguir, com o beneplácito do situacionista Presidente da República, a rota da austeridade, mesmo com a demissão de alguns ministros.

Não fosse, em determinados e sérios casos, o papel da Comunicação Social, e a maior parte do povo português nada saberia sobre a corrupção que grassa no País, isto entre outros jogos de bastidores (por exemplo o arquivamento do processo pouco ou nada transparente relativo à compra dos submarinos) que acabaram sempre por lixar o “mexilhão”.

Para o senhor que, há tempos, mandou lixar as eleições (recordam-se?), os próximos meses serão decisivos, porque ele não quer abandonar o poder, independentemente, de, até no próprio partido (PSD) ter pesos-pesados contra a sua política e postura num Estado de Direito Democrático, confrontando uma série de vezes o Tribunal Constitucional e este dando-lhe como resposta uma série de negas que o deixou nervoso e muito revoltado. Paciência!

As trapalhadas no seio da coligação que apoia o governo (Paulo esteve quase a bater com Portas), foram contudo, acompanhas por outras trapalhices, não menos mediáticas, como a postura de António Costa face ao, então, líder do PS, António José Seguro. Diz-se que foi a vitória pouco expressiva (?!) dos socialistas nas “Europeias” que obrigou Costa a tirar o tapete a Seguro, mas, nem todos pensaram assim, e viram nesta atitude um ato de oportunismo que, meses mais tarde, o levou – como toda a gente adivinhava – à liderança do maior partido da oposição. Soube a traição, mas há quem diga que a coisa teve outro paladar. Ainda estamos para saber qual?!

coligacoes

Coligações

Mas, ainda relativamente aos partidos que apoiam o governo, a dúvida mantém-se quanto à possibilidade de irem colgados às eleições, ou se, pós o ato chegarão a um entendimento parlamentar, na oposição ou no governo. Mais certo: na oposição.

Relativamente ao PS –  continuo  a falar de partidos do denominado “arco da governação”, o objetivo do PS quanto à conquista de uma maioria absoluta, parece ser desiderato de difícil concretização, pelo que falta, gora saber , com quem os socialistas, caso vençam as Legislativas sem maioria , se irão entender?!

No primeiro caso, e devido a alguma intermitência de Paulo Portas, Coelho quererá, por certo, levar o PSD isolado, muito embora, o CDS – em quebra nas sondagens – lute – sem dar muito nas vistas – pela coligação. Isto do “sem dar muito nas vistas” é adiantar-se nas nogociações e comprometer-se perante o seu eleitorado. Portas é, quer queiramos, quer não, um “animal” político e, normalmente, joga sempre pela certa, mesmo às vezes contradizendo-se.

No segundo caso, e no que ao PS diz respeito, os socialistas poderão encontrar – como enfatizou Costa – um acordo à esquerda, deixando assim de lado entendimentos com a direita. Mas, se fosse agora, a coisa não seria fácil tanto numa hipótese como na outra, contudo, durante a pré-campanha e, principalmente no período oficial da mesma, se saberá quais as soluções do PS para a resolução desta questão, não sendo, porém, ainda líquida a vitória dos do Largo do Rato nas Legislativas.

populismo

Populismos e populistas

A confusão é grande. Por estas e por outras, as pessoas vão confiando cada vez menos nos políticos por mais sérios que estes sejam. Este cenário é, assim, favorável ao aparecimento de candidaturas populistas, como a de Marinho e Pinto ao Parlamento Europeu pelo MPT; MPT, força partidária que, depois, abandonou, para, recentemente, formar o Partido Democrático Republicano.

Consequência deste “mudar de camisa”, Marinho e Pinto, com o seu PDR, está a léguas – segundos as mais recentes sondagens – de atingir, nas Legislativas, os votos conquistados nas Europeias. As pessoas, além de se cansarem de um discurso agressivo – principalmente para com os jornalistas e sendo ele jornalista como enfatiza até à exaustão -, estão fartas da mesma lenga-lenga, a qual não revela mentiras, é verdade, mas é mais do mesmo… é o vira o disco e toca o mesmo.

Mas, se o PS tentou ultrapassar a crise interna, resolvida com eleições primárias, conseguindo manter António Costa a liderar as opiniões como potencial primeiro-ministro de Portugal, isto mesmo depois da “bomba” relacionada com a prisão preventiva de José Sócrates, já do Bloco de Esquerda não se pode dizer o mesmo.

Assumindo, tarde e a más horas, erros antigos (o não ter feito parte das reuniões com a Troika e o apoio à candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República) e de resultados muitos negativos nas eleições legislativas, autárquicas e europeias, o Bloco “bicéfalo” deu lugar a um Bloco de blocos, imagem que o descredibilizou, e ainda o descredibiliza, pelo que a campanha eleitoral que, agora, se inicia é, com certeza, um grande desafio quanto à sobrevivência do movimento.

nova assembleia

Uma nova Assembleia

À esquerda surgiram, entretanto, outros movimentos, como o caso do “Livre”, que teve uma votação digna de registo nas Europeias, e sob a liderança do ex-eurodeputado Rui Tavares, reforçou-se com a presença de outros movimentos de Esquerda, sendo de destacar a adesão da ex-deputada bloquista, Ana Drago, e do também ex-bloquista Daniel Oliveira.

Será que o “Livre” terá expressão eleitoral que façam dele o tal “fiel da balança” para a formação, ou legitimação, de um governo de esquerda? Por certo, o “Livre” elegerá alguns deputados – tendo em conta os resultados das Europeias, elegeria dois -, mas com dois ou três ou até quatro deputados fará a diferença e conseguirá ser uma força congregadora das esquerdas?

Por seu turno, o PCP (CDU) vai crescendo, embora as últimas sondagens – ainda que o indiquem como a terceira força política nacional – não registem uma percentagem muito acima do habitual (11 por cento). Seja como for, os comunistas têm vindo, pelo menos, a consolidar o seu eleitorado.

Ora, endo em conta este cenário, o quadro político-partidário na tAssembleia da República será bem diferente do atual em meados de 2015, ano também de campanha para a Presidência da República.

palacio de belem

Belém na mira…

O “adeus” ao situacionista Cavaco Silva será, para muitos, um “alívio” e a melhor notícia para 2016. Mas quem o sucederá? Quem entrará na corrida a Belém? Diria, não perca as cenas dos próximos capítulos de uma “novela” que tem sempre um ator para entrar em cena, mas que nunca entra: Marcelo Rebelo de Sousa. Uma das curiosidades dessas eleições será, assim, a de saber se o senhor avança ou não como candidato da direita, ou do centro direita. Há já quem faça apostas, mas ainda não são muitos os apostadores… são mais os comentadores. Quem já se adiantou na corrida, foi o social-democrata e atual presidente da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Pedro Santana Lopes. Não são conhecidas, à data deste artigo, qualquer tipo de manifestações publicas de apoio a esta candidatura, mas que o Homem teve coragem em dar a cara a um ano das eleições Presidenciais… lá isso teve!

E Guterres, será ele o candidato da esquerda, ou do centro-esquerda? Não! Ele disse, recentemente, que continuaria na ONU (disse…. “recentemente”, não quer dizer que diga o mesmo daqui a cinco ou seis meses) E, Carvalho da Silva, o histórico líder da CGTP e católico comunista, correrá para Belém como independente de esquerda? Qual será o candidato do PCP? Jerónimo de Sousa, que em 2016 poderá abandonar a liderança do partido? Marinho e Pinto estará também na linha de partida, ele que começa a estar habituado a participar em tudo que de eleições se trate? E qual será o candidato tipo “José Coelho” da Madeira? O Tino de Rãs? Haverá alguma candidata à Presidência? Sim, uma mulher?

Pois. Esperem sentadinhos, mas não por muito tempo. Os candidatos vão estar ao lado dos partidos que, potencialmente, os apoiarão na caminhada (“corrida” é muito cansativa!) até Belém, é só estarmos atentos e descobrimos logo, ou, quanto mais não seja, co alguma atenção aos comentários de certos políticos comentadores.

E pronto. O ano será de festa. De rebuçados, chocolates, música pimba, e muito, muito discurso. Esperemos que daqui a um ano não estejamos, aqui, a escrever que 2015 foi mais um Vira o Disco e Toca o Mesmo.

Será?

Acho que nim!

 

 15jan15

 

 

Partilhe:

1 Comment

  1. Carlos Madureira (Funchal)

    Uma excelente análise que, para o ano, se comprovará, em meu entender, acertada. Já agora, e como é o diretor que escreve, parabéns ao “Etc e Tal” pelos seus cinco anos e pela renovação gráfica na página principal do jornal

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.