Ivo Ribeiro / Tribuna Livre
SORRI SEM QUERER
Escorregou de mim
Fugiu-me sem querer
Num acontecimento inédito
Absolutamente sem querer
Sorri!
Vagueava com norte
Porém sentia-me pior que tudo
Sentia-me no mundo
Envolvido por gente
Que como eu deambula pelo espaço
Mas sempre sentindo-me só
E a culpa foi de um rapazinho
Que vendo o mundo enquadrado
Me viu pela janela do seu autocarro
Autocarro de férias onde como ele
Outros seguiam sorrindo
Colhendo da infância doces frutos;
E foi nessa amena cavaqueira em que seguiam
Que de momento
Entre as cabeças que iam pelo passeio
Suspensas no vazio do todo
Que ele me acenou de sorriso maroto
E eu a banhando a cabeça
Já que o frio não me permitira tirar dos bolsos
As mãos que a tanto custo
As quis aquecer
Enfim, para sempre me ficará na memória
Este tão simples acontecimento
Que por ser tão simples
o meu dia mudou.
RECICLASTE-ME
Antes deitaste-me fora
Despejaste-me num leito de um riacho
De um rio
Do mar…
Fui garrafa de plástico à deriva no mar
Fui pedaço de pedra afundado na minha alma de tão perto estar distante
Fui enfim,
Tábua de madeira
Do porão de um navio
Que já na sua partida fora condenado
Desde a sua última cortina posta
Os astros o tinham escrito
Que virias a ser perfurado
Teus alicerces abatidos
Por uma parte de metal,
E uma outra de sentimento
Forte
Carregado
Expulso e sentido.
E eu pergunto porquê?
Foi de me ter deixado levar com a brisa que as orelhas me sopraram,
Foi de ter permitido a viragem do leme
Ou foi de me ter recusado a apontar os canhões
Contra ti…
Que eu tanto gostava
Eras nau da minha frota
Eras os mantimentos da armada
Eu a ti por vezes socorri
Por vezes mesmo te serviste de consolo
E eu te fiz porto de abrigo
Mas valeu a pena?
“Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”
Assim dizia Fernando Pessoa na sua mensagem
Mas a mensagem que aqui deixo,
Essa é outra
Um tanto feita com sabor a sal
Como de sal são feitas
As ruas da amargura nas quais eu me sigo
Pé ante pé
Balanço após balanço
Mas tento
Tento não!
Sou feliz à minha maneira
Por muito traste que possa parecer
Fui jogado como pedra da calçada
Como meus irmãos me encontrei
Desabafei
No sítio me coloquei
E oh p´ra mim
Cá estou!
Fazendo agora parte
Da cúpula de uma igreja
Tão simples e humilde por não ser catedral ou sé
Ou algo assim desse género para dar carisma e satisfação a um pensamento
Absorto, perdido, e julgado
Mas estou mesmo por cima de ti
Algo que assim nunca antes o desejaria
E cá estou eu
Altivo forte
Mas consciente que se cair provoco estragos
E volta tudo
Cai o teto
Vem tudo parar ao solo
Cá em baixo
Ao chão
Em poeira se desfaz
E aí…
Aí já acabou o tempo
Foi-se
Perdeu-se
Jamais voltará
Jamais
Jamais te quererão de novo e se assim o fizerem
Respondo– te
Foi tarde
Será tarde
É já tarde
Pois o tempo
Do presente que te falo
É só um
Este meu instante e mais nenhum
Passa a ser história
Enquanto se pensava ser ainda futuro
Perde-se
E foi-se…
Como tantas,
Tantas outras coisas.
DE CABEÇA ALUADA
Lá segue ele
Vai
Trilho fora
Caminha por aí fora
De olhos quebrados
E postos no chão
Mas não só os olhos
Outro tesouro ele leva partido
Seu coração
Maltratado
Pobre coitado
Tanto merecia
Tão pouco arrecadou
Cai no primeiro passo de salto
Saltou por cima
O salto de alto
Vermelho com o seu sangue
De vermelho o ser
Se fundiu tudo num só
Virou amor
Deixou de o ser
Para agora ser dor
E como o rio
que corre para o mar
assim corre ele
de braços caídos
mas forte
sua dor é sofrimento
Seu carinho é batalha
Teu é meu
Já que seu é também,
Meu, Ai
Pobre do homem
Que agora se pensa
Em desesperadamente saltar
Para o mundo das ilusões sem sequer antes experimentar o mundo do desejo
Do pecado e da tentação
Já que tudo
É uma linha
Tudo um limiar
E por ser assim mesmo
Que haverá ele de fazer
Eu digo!
Seguir em frente
Como tenho feito até agora.
01jan15
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Parabens