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A Europa começou a mudar

Pedro Ramajal / Tribuna Livre

Que doce este vento que sopra da Grécia!

Um povo orgulhoso e nobre, fustigado pela austeridade que lhe foi imposta, resolveu dizer: “Basta! Não podemos, não queremos morrer de fome e de frio para garantir os lucros dos vossos bancos!” Honra seja feita ao martirizado povo grego. E que o seu exemplo frutifique, o que parece que pode bem vir a acontecer também em Espanha. Sim, Podemos, podemos dizer “Não!” à austeridade que nos oprime. Ao dar uma inequívoca vitória ao Syriza, o povo grego veio demonstrar que a democracia não está morta e que, quando um povo quer, pode buscar outros caminhos que não o que lhe dizem ser o único.

Syriza

O Syriza é uma coligação de várias pequenas organizações de esquerda que, inspiradas pelo exemplo e o sucesso do Bloco de Esquerda, decidiram coligar-se em 2004, após um processo que demorou cerca de três anos e à qual se vieram juntar algumas mais. Tal como a UDP, PSR e Política XXI em Portugal, cinco anos antes, privilegiaram o que tinham em comum. O caminho do Syriza, desde os 3,3 por cento obtidos nas primeiras eleições a que se apresentou, em 2004, até chegar ao governo, hoje, foi rápido e fulgurante.

Claro que beneficiou do afundamento do PASOK, corresponsável da situação de catástrofe humanitária a que a Grécia chegou. Ao contrário, o Syriza soube sempre manter a coerência, sobretudo nas questões fundamentais: reestruturar a dívida, impossível de pagar, resolver a crise social e humanitária, a promessa de não fazer acordos com os agentes da troika na Grécia, ou seja o PASOK e a Nova Democracia. E, ao mesmo tempo, os seus militantes estiveram sempre presentes na auto-organização popular desde o fornecimento de eletricidade a quem não a podia pagar até às clínicas solidárias. E, agora que é governo, assistimos, atónitos, a esta coisa estranha que é um governo, logo no primeiro dia de exercício, começar a cumprir as suas promessas. Pode lá ser! As promessas eleitorais, toda a gente o sabe, não são para cumprir, bem pelo contrário, não é verdade Dr. Passos Coelho? Isso “é um conto de crianças”.

syriza - 01

Dizem-nos que a Grécia falsificou as contas para poder entrar no euro, o que é verdade, mas esconde-se que a burla foi assessorada pelo Goldman Sachs e teve a conivência das autoridades europeias. A Grécia dava muito jeito como cliente de armamento à Alemanha e à França. Tal como Portugal, também a Grécia comprou submarinos alemães e houve corrupção, só que lá o ministro da defesa responsável pela compra apanhou vinte anos de cadeia.

grecia - bandeira

Dizem-nos que “os gregos são todos corruptos”. Mas este povo que nos deu a democracia, é o mesmo povo que, mesmo sob ocupação nazi recolheu, porta a porta, mais de um milhão de votos para eleger um governo de salvação nacional. Este é o povo que se organizou para poder sobreviver. O povo mais martirizado, a primeira das cobaias da aplicação da austeridade. Este é o povo grego, que teve a coragem de dizer “Basta!”

Ainda outro dia, no Prós e Contras (RTP1), ouvi a uma médica grega radicada em Portugal: “aos portugueses, falta-lhes genica e orgulho”. Estamos sempre a tempo de contrariar este diagnóstico. Basta seguir o exemplo grego.

01fev15

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