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Estética poética do espírito

Benigno Sousa (leitor) / Tribuna Livre

Ao longo da História a Arte surge como uma constante da atividade humana. Genericamente pode considerar-se como «algo que o homem acrescenta à natureza”. Segundo Lalande, “a arte designa a produção do “Belo” através de obras realizadas por um Ser consciente”. De facto, a atividade estética foi sempre componente do universo humano. A arte e o homem são indissociáveis, porque através dela o homem exprime-se, compreende-se e realiza-se melhor.

A Estética é considerada uma reflexão Filosófica sobre a arte. Etimologicamente este termo deriva do grego aisthesis, que significa sensibilidade. Antes de se designar como tal, existia já na Antiguidade uma reflexão sobre arte e belo; o termo “Estética”, só apareceu no século XVIII com Baumgarten, passando a estar ligada tanto à reflexão filosófica, como à crítica literária e à história da arte. E só recentemente adquiriu um estatuto autónomo e um método próprio. Não podemos, contudo, estudar os valores estéticos isoladamente mas nas suas estreitas relações, quer com os valores religiosos, quer com os estéticos-políticos.

Falta-nos o espaço para dizer com precisão qual o domínio que fica atribuído à Estética concebida como ciência distinta da história, da crítica e da técnica. “A Estética, no sentido estrito, reside no conhecimento buscado pelo prazer que decorre do facto de conhecer, aplicando-se a todas as coisas conhecíveis, a todos os sujeitos capazes do conhecer com desinteresse e em gozar desse conhecimento”. Deste modo, a Estética não indica somente à arte mas também para a natureza e, de uma maneira geral, para todas as modalidades da beleza.

A ciência manipula as coisas e renúncia a habitá-las, é esse pensamento ativo e admirável, engenhoso, desenvolto, uma opção em tratar qualquer Ser como objeto em geral. A experiência estética abre caminho à ciência e a ação. A ciência clássica visava unir-se através das suas construções e a procurar para as suas operações fundamento transcendente ou transcendental. Ela situa-se na origem e no ponto em que o Homem completamente misturado com as coisas experimenta sua familiaridade com o mundo. A Natureza desvela-se, que produz o Homem em inspiração para aceder à consciência. A meditação sobre o corpo, a visão, a pintura, traz rastros dos olhares, com gestos do Homem vivo e do espaço que o atravessa e anima.

A Estética encontra encruzilhada de formas do pensamento. Esta é, sem dúvida, a razão do encanto estético. Pensar é experimentar, operar e transformar, verificação experimental em que os nossos aparelhos registam e produzem. E a nossa embriologia e biologia estão cheias de gradientes e que não se vê ao certo como se distinguem do que os clássicos chamavam ordem. O gradiente é olhar tangente sobre o qual surgirão cristalizações imprevisíveis. Esta liberdade de operação é fazer ponto da situação; que se pergunte porque é que o instrumento funciona aqui, falha ali, em suma, esta ciência fluente que se compreenda a si própria.

O pensamento operatório torna-se espécie de artificialismo absoluto, como se vê na ideologia cibernética, na qual as criações humanas derivam do processo natural de informação, mas concebido com base no modelo das máquinas humanas. Dizer que o mundo é por definição nominal, o objeto X das nossas operações, é tornar absoluta a situação de conhecimento do sábio, como se tudo aquilo que foi ou é só o fosse para entrar no laboratório. É necessário que o pensamento da ciência se coloque de novo num aí prévio sobre o solo do mundo sensível e do mundo trabalhado.

Arte é uma função essencial do Homem: começa no momento em que Ele cria para representar ou expressar, aproxima-se, assim, de uma impressão. É ato pelo qual alguma coisa se transporta para a matéria e aí se inscreve qualquer coisa do Universo ou algo de si; fala linguagem libertadora, invoca imagens libertadoras da subordinação, da morte, da destruição da vontade de viver que perpetua na memória o momento de prazer, torna-se uma realidade visível, contra o feiticismo das forças produtivas, contra escravização contínua dos indivíduos, a arte representa o objetivo derradeiro de todas as revoluções: a liberdade e a felicidade do indivíduo.

O conceito de Belo é a sensação de Bem e de Verdade, que surge no decurso do processo cognitivo como unidade ou síntese significativa dum ser ou conjunto de seres por ela abrangidos. A experiência do Belo implica «emoção estética»; uma apreciação de natureza intelectual relativo aos objetos estéticos – o juízo de valor estético. É a sua pretensão à universalidade. Contudo, sabemos hoje que ao longo da história surgiram definições quase contraditórias do conceito de Belo.

Estéticas metafísicas e Estéticas não sistemáticas. Com o Classicismo podemos encontrar as raízes das primeiras no platonismo. Estéticas metafísicas são normativas. A Ideia de Belo é um sistema determinado de modelos, a prática artística um conjunto de regras. Desenvolve uma conceção didática das artes cujas regras e cânones passam a ensinar-se no Academismo. Os objetos do mundo sensível só existem em imitação ou participação de um modelo inteligível, a Ideia. É o arquétipo de todas as coisas belas, existindo como conceito universal, absoluto, independente da realidade sensível como manifestação superior da alma, subordinando-se ao Bem e ao Verdadeiro. A Beleza é racional e moral. Contra o dogmatismo das Estéticas absolutas, apoiadas pela história e pela sociologia, as Estéticas não sistemáticas insurgem-se contra os modelos de Belo, abrindo-se aos vários estilos e à incessante criação e renovação das formas.

A arte é a liberdade. Uma criação. Um sentir e um pensar algo que o espírito vê a profundidade na inspiração. É a experiência da reversibilidade das dimensões de uma localidade global onde tudo é ao mesmo tempo da qual altura, largura, distância, e são abstraídas, de uma voluminosidade que se exprime com uma palavra – uma coisa está aí. Ela não é construção, artificio, relação industriosa com um espaço e num mundo de exteriores – É o grito da luz!

 

01fev15

 

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