A sátira há muito perdeu o seu lugar próprio no Carnaval de Ovar. Era mesmo uma das principais componentes do entrudo vareiro que se destacava nas primeiras páginas dos jornais quando se referiam à festa do Carnaval na cidade de Ovar. Foi o fim de um certo Carnaval mais popular em que havia mais envolvimento entre os participantes no cortejo e o público que delirava com as dezenas de piadas de cariz local ou nacional em que os temas políticos eram abordados de forma satírica e com particular atualidade. Um valioso património da história do Carnaval de Ovar que, como resultado de sucessivas medidas de reorganização da participação dos foliões desta área carnavalesca, por parte da Comissão de Carnaval e depois da Fundação de Carnaval (entretanto extinta por decreto-lei), foi criando objetivamente todas as condições para limitar o número de piadas.
Passou a ser obrigatória a inscrição prévia da piada a apresentar tanto no cortejo da chegada do Rei de Carnaval como nos corsos do domingo e terça-feira de Carnaval com respetiva maquete. Uma condição para integrarem a classificação por um júri e assim beneficiar dos prémios monetários. Mas, as novidades nesta relação com as piadas carnavalescas foi evoluindo ao ponto de ser definido que as piadas coletivas passariam a desfilar só no cortejo da chegada do Rei enquanto no cortejo do grande desfile do Carnaval só podiam sair as piadas individuais e devidamente dispersas ao longo do cortejo, por entre grupos carnavalescos ou escolas de samba. Uma espécie de estigmatização desta importante componente do Carnaval de Ovar que merecia melhor enquadramento para, com a devida dignidade, assegurar e estimular os seus protagonistas foliões a participarem com o entusiasmo que os caraterizava.
Esta tradição, porque é de uma tradição do Carnaval de Ovar que se fala, acabou por desaparecer literalmente dos cortejos do domingo gordo e da terça-feira. Resta assim, como único espaço para a sátira, o cortejo do Rei, mas apenas para piadas coletivas. Uma oportunidade que têm cabido aos vários grupos carnavalescos aproveitarem e de certa forma preservar com piadas em que se destacam naturalmente as de cariz político.
Entre os vários foliões veteranos ainda vivos que se afirmaram através da sátira no Carnaval de Ovar ao longo da própria história do entrudo na cidade vareira. Recordamos, Manuel Maria Lopes da Silva, o carismático piadista “Manuel Cachimbó”, que satirizou as mais diversas situações da vida politica, social, económica e local. Uma figura marcante da sátira carnavalesca que guarda uma exemplar intervenção no Carnaval sempre com a sua veia poética nas quadras das piadas que de forma acutilante atingiam cirurgicamente alvos que o público imediatamente identificavam e aplaudiam.
Piadas vêm à memória, tão atuais para os tempos que correm cerca de três décadas depois de ter deixado de sair para dar alma a esta componente do Carnaval de Ovar. “Trabalhador descontente” título de piada para equipado de operário que era afinal, afirmar na quadra dirigida ao então primeiro-ministro Cavaco Silva e à míngua dos aumentos salariais pela tabela de contrato, “O calor deste cavaco / Debaixo desta panela / Não chega a cozer o naco / Que me deram por tabela!”.
Na mesma linha, “Cavaco Duro” lançava a ironia a vários políticos da época, “Cavacos para a fogueira / Bom para fazerem carvão / Mais duro que os de “Nogueira” / Este é mais que “Durão”. Ou “Acidente democrático” em que diz, “Eu que tanto trabalhei / Pra de nada me valer / Sem a “esquerda” fiquei / E a “direita” faz-me sofrer”. Ao pacote laboral, que hoje com outras siglas continuam a restringir a legislação laboral, o Manuel Cachimbó sempre vestido a preceito com fantasia adequada à piada, transportava a piada, “Aguenta Zé” em que dizia, “Que grande é o meu «pacote» / E tão pequena a barriga / Aguenta! É sempre o mote / Duma já velha cantiga!”.
Com piadas mais ou menos elaboradas, e quadras mais longas ou curtas, o folião Cachimbó não deixava de exercer esta espécie de exercício de cidadania carnavalesca. Mesmo com frases muito sintéticas dizia tudo que lhe ia na lama e no pensamento. “Vou à desforra” era uma referência às presidências, “Com ajuda da Esquerda / Equilibro a “Direita” ou “Pau ensebado”, em que através do típico artesanato madeirense deixava a corrosiva sátira à luta pelo poleiro de forma muito coreografada, “Mascarados de democratas / Concorrem ao governo!”.
Foram muitas as edições do Carnaval de Ovar que contaram com foliões como Manuel Cachimbó que ajudaram a fazer história desta grande festa que as gentes vareiras agarraram em mãos e trazem até aos dias de hoje, ainda que em prejuízo desta mais-valia que era a sátira carnavalesca.
Texto: José Lopes
(Correspondente do “Etc e Tal Jornal” em Ovar)
Fotos: Reproduções do arquivo de Manuel Cachimbó
01fev15








