Na passagem dos 30 anos da vida artística de Marcos Muge, o espaço museológico dos Bombeiros Voluntários de Ovar (BVO) acolheu uma exposição deste multifacetado artista ovarense em que se pode ver e rever vários dos seus projetos e obras de arte com particular influência na cerâmica e azulejaria, mas também na madeira que tem marcado as suas mais recentes intervenções artísticas, como é o caso da obra “As mãos de Deus”, localizada no adro da Igreja Matriz de Ovar construída na base de uma árvore de cedro então derrubada pelo mau tempo. Obra de arte que acabou por ser adquirida pela Câmara Municipal de Ovar.
Com a presença de vários amigos do artista e representantes de entidades locais, a inauguração da exposição alusiva aos 30 anos de carreira aconteceu no dia 17 de janeiro, com Marcos Muge a situar no tempo cada uma das obras de diferentes técnicas de arte ali expostas entre algumas das relíquias do património que integra a frota museológica dos BVO.
Projetos artísticos de Marcos Muge que, ao longo destes anos de vida dedicados às artes, fizeram parte de várias exposições e da construção de um curriculum construído a pulso e reconhecido fora da sua terra com distinções como: 1º Prémio “Ano Internacional da Paz” na SFUAP, em Almada, e Menção Honrosa na Exposição “Barreiro” (1986); Menções Honrosas FARAV (1994 a 1999); 1º Prémio FARAV (1995); Medalha dos Serviços Distintos “Grau Prata”, Liga dos Bombeiros Portugueses (1996); Prémio Azulejaria Contemporânea, ao Encontro de Jovens, IPJ na FIA, na FIL (1997) e Prémio, Cerâmica Contemporânea, Budapeste – Hungria (1999).
O percurso do artista bem representado na exposição em que predominam os painéis de azulejo, as peças de cerâmica, telas, acrílicos sobre papel ou em madeira gravado a quente. Com temas religiosos, exercícios de cidadania ou figuras, como o projeto sobre o pugilista vareiro Santa Camarão, que representam o espirito irreverente, insubmisso e critico deste apaixonado pela arte, que faz questão de manifestar a sua gratidão ao “Amigo Mestre Martins Correia pela sua lição de vida e transmissão livre do saber e pensar o que é a Arte para as pessoas”. Percurso de resistência a muita incompreensão e tantas vezes esquecimento na sua própria terra, em que nasceu a 1 de setembro de 1968, que nesta mostra restrospetiva dos 30 anos de vida artística, mereceu palavras de reconhecimento e admiração por parte do historiador Alberto Lamy, que testemunhou a importância da carreira artística de Marcos Muge que há muito acompanha.
Já José Fragateiro, presidente da Assembleia da União das Freguesias de Ovar, S. João, Arada e São Vicente de Pereira Jusã, destacou que as obras do Muge são “trabalhos com significado… dizem algo para ser interpretado”. Fragateiro reconheceu que Marcos Muge “merecia mais destaque por tudo o que tem feito”. Mas como diria depois João Natária, em representação da Associação Humanitária dos B.V. de Ovar, “ninguém é profeta na sua terra”, referindo que o autor dos trabalhos ali expostos, “não tem sido aproveitado” quando, como lembrou Natária, “Ovar tem um património a degradar-se e o Muge já deu provas que é capaz de assumir tais trabalhos de recuperação”. Uma justa referência ao trabalho que o artista vem desenvolvendo em intervenções em Altares-Retábulos, esculturas policromadas e com folha de ouro, médias – grandes telas, frescos e azulejos com datas desde o século XVI em Igrejas e Capelas, em diferentes cidades ou as mais recentes intervenções na Igreja Matriz e em Capelas dos Passos na cidade de Ovar.
Um percurso artístico como auto-didata
Da formação artística e técnica de Marcos Muge constam cursos de Pintura de Azulejo e de Modelação Escultura, no CENCAL, em Caldas da Rainha. Curso de Pintura, Conservação e restauro de Painéis de Azulejo, na Cerâmica Aleluia, em Aveiro e no Museu de Aveiro através do Museu Nacional do Azulejo e Curso de Pintura a Fresco na Fundação Ricardo do Espirito Santo e Silva, em Lisboa. Formação complementar Artística nos cursos intensivos de Jornalismo, Serigrafia, Fotografia e Cinema pelo FAOJ e Fotojornalismo no Centro de Formação de Jornalistas do Porto.
Como pintor, lê-se no catálogo da exposição dos 30 anos de vida artística, “começou como autodidata em 1984, expondo pela primeira vez em 1986, tendo realizado 46 exposições individuais e participado em 30 coletivas, desde a passagem pela galeria de arte do Casino de Estoril em 1987; Farav Aveiro; FIA Lisboa; A Idade do Azul, em Florença, Lisboa e Milão em 1998; projeto A Viagem de Vasco da Gama à Índia sob o patrocínio da C. G. Depósitos; exposição Itinerante 25 Poetas – Liberdade – O Povo no Pensamento dos Poetas em 1990”.
Em 1994 Marcos Muge iniciou definitivamente a sua atividade artística com a abertura do seu próprio Atelier em Ovar, trabalhando aí em, Pintura de azulejo, Pintura de fresco, Escultura e Conservação e Restauro. Este artista, que na obra que cria e executa, integra sempre o conhecimento da investigação, preocupando-se sempre em aliar o erudito à obra final para uma memória futura, está representado na Câmara Municipal de Aveiro, São João da Madeira, Santa Maria da Feira, Oliveira de Azeméis, Lisboa, Murtosa, Portel e Ovar. A obra e arte do Muge está igualmente representada em espaços públicos ou coleções particulares em diferentes países. Entre muitas outras entidades e instituições públicas e privadas constam ainda: Fundação Mário Soares; Fundação Bissaya Barreto; Museus de Ovar, Aveiro e Batista Andrade, na Trofa.
Santa Camarão uma das homenagens promovidas pelo Muge
Tal como está bem patente nesta exposição do Marcos Muge nos BVO a figura vareira que se destacou na modalidade do boxe, José Soares Santa, uma lenda do pugilismo conhecida como Santa Camarão, mereceu, a exemplo de outras figuras como José Macedo Fragateiro que Marcos Muge homenageou em Portel, uma pormenorizada investigação sobre a vida do pugilista por parte deste ceramista desde o início de 2001.
Deste trabalho de investigação meticuloso do Muge, que incluiu depoimentos locais, regionais e de familiares, resultou um valioso “Espólio do Santa” que na altura foi publicado semanalmente no Jornal de Ovar (2004).
Produzida entretanto a escultura do busto do pugilista e 100 serigrafias com assinatura do Marcos Muge que assinalaram os 100 anos na cerimónia oficial que decorreu no Governo Civil de Aveiro. Outros trabalhos por si foram elaborados, nomeadamente a pintura de três painéis de azulejo para as homenagens que planeou e como é de seu timbre, concretizou contra ventos e marés, tendo decorrido uma em Alfama – Lisboa, outra no Pavilhão Fight Clube de Matosinhos e por fim no Governo Civil de Aveiro. Ainda concretizou também uma exposição no Museu de Ovar sobre o Santa Camarão, concluindo este seu projeto de homenagem ao pugilista com quatro galas de Boxe com patrocínios da Associação de Boxe de Aveiro e Porto que se realizaram em Aveiro, Ovar, Porto e Oliveira de Azeméis.
Este foi talvez o seu projeto cultural e artístico mais ambicioso e bem demonstrativo da determinação e persistência de um artista reconhecidamente tão pouco amado na sua terra, talvez quem sabe, pelo desconhecimento do seu trabalho, da sua obra e sobretudo da sua dedicação genuína à arte.


Texto e fotos: José Lopes
(Correspondente “Etc e Tal Jornal” em Ovar)
01fev15





