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Portuenses homenageiam CARQUEJEIRAS! Monumento às MULHERES-ESCRAVAS termina com…DRAMA SILENCIADO

Um movimento cívico de portuenses está prestes a homenagear, com um monumento, as Carquejeiras, “mulheres-escravas”, que calcorreavam calçadas, ruas, vielas e ruelas da cidade do Porto, depois de subirem a íngreme e então chamada Calçada da Corticeira. O referido monumento será colocado ao cimo da referida calçada, ou rampa, mas ainda não se sabe quando.

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Com o apoio, entre outros, da Câmara Municipal do Porto e da Junta de Freguesia do Bonfim, o movimento, liderado pela escultora Maria Arminda Santos (ver entrevista vídeo-gravada, nesta edição do nosso jornal, na rubrica “Convidado”), tem como objetivo, “dar a conhecer aos portuenses um problema social e uma luta pela sobrevivência humana, vivido na primeira metade do século XX”, assim como, “o significativo punhado de mulheres portuenses, frágeis e angustiadas, que, com dignidade, coragem, sacrifício e abnegação, foi sendo desenvolvido pelas Carquejeiras”., e ainda “dar a conhecer os vultos ignorados, que muito contribuíram para o bem-estar da sociedade portuense”.

Assim sendo, este movimento pretende “colocar um monumento que, embora tardio, seja uma recompensa ao árduo trabalho desempenhado pelas Carquejeiras do Porto”.

Antiga calçada da Corticeira
Antiga calçada da Corticeira

Um merecido respeito

Para Maria Arminda Santos, “só calcorreando a cidade é que nos apercebemos dos seus mistérios, glórias e fantasmas, assim como, as controversas atribulações sociais. Recordamos a sua história que se perdeu nos graníticos recantos, nas muralhas, ruelas, escadas, pátios e calçadas… entendemos as suas gentes, as formas e movimentos que lhe imprimiram e configuraram cenários que não voltam mais. São estas figuras anónimas que fizeram a cidade do Porto que, hoje, temos, que queremos de volta ao cenário homenageando-as com respeito e admiração “.

Por isso, “com a apresentação da Carquejeira, que simboliza o sofrido trabalho que desempenharam. Ignorada a sua história, elas merecem ser respeitadas e enaltecido o esforço de que foram protagonistas”.

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“Um drama silencioso e silenciado!”

Mas, o que eram, na realidade, as carquejeiras? Maximina Girão Ribeiro, que também faz parte do referido movimento cívico, revela de seguida todos os pormenores.

“Está em desenvolvimento um projeto que visa homenagear as Carquejeiras do Porto, erigindo-lhes um monumento que guarde memórias antigas e histórias de outros tempos, em que o trabalho duro, quase inumano destas mulheres, fazia chegar à cidade a carqueja que descarregavam dos barcos acostados às margens do Douro”.

“Transportavam-na às costas, desde o rio, subindo a íngreme Calçada da Corticeira (22 por cento de inclinação e 210 metros de extensão) e distribuíam depois esta acendalha por vários pontos da cidade, em distâncias, às vezes, de cinco quilómetros ou mais, com um peso de 40, 50 ou até 60 Kg de carqueja que as obrigava a caminhar vergadas quase até ao chão…

As mulheres “ouriço”, ou “ouriços humanos” como lhes chamou, em 1930, o jornalista Adelino Mendes, contribuíram para que se cozesse o pão que a cidade comia, ou para que se acendessem os fogões a lenha, ou se aquecessem as lareiras das casas mais abastadas da cidade nevoenta e fria”.

“O esforço era brutal e mal pago, mas existiu durante anos! Não sabemos bem quantos, pois é difícil de contabilizar o tempo que durou esta situação desumana. Mas é este esforço, esta situação inqualificável que, na atualidade, queremos homenagear, resgatando do passado e do esquecimento, aquilo que existiu silenciado durante tantos anos.

Este projeto, como um sonho ainda por concretizar, nasceu com Arminda Santos e, à autora e responsável pela iniciativa, juntaram-se outras pessoas, unidas pela mesma vontade.

Um importante passo já foi dado com a apresentação da  maqueta do monumento, da autoria do escultor José Lamas, numa sessão realizada na Junta de Freguesia do Bonfim, no passado dia 22 de Novembro. Com o salão nobre repleto de pessoas interessadas no tema e na história da nossa  cidade destacamos, entre os presentes, o Dr. Manuel Pizarro, representando a Câmara Municipal do Porto, o presidente da Junta de Freguesia do Bonfim, o Prof. Hélder Pacheco, o jornalista Germano Silva, o Rancho Folclórico do Porto.”

“É no sentido de dar a conhecer pedaços da história da cidade que surgiu este movimento de cidadãos, que apostam na construção de um monumento, no alto da Calçada da Corticeira (hoje das Carquejeiras), fazendo um resgate do passado para que os presentes e os vindouros não esqueçam o sacrifício e a dura luta que estas mulheres travaram pela sua subsistência e dos seus filhos. É agora a hora de homenagear estas mulheres!”

Da esquerda para a direita: José Lamas, Maximina Girão Ribeiro, Fernando Conceição e Maria Arminda Santos
Da esquerda para a direita: José Lamas, Maximina Girão Ribeiro, Fernando Conceição e Maria Arminda Santos

A (nobre) equipa

O grupo de trabalho deste movimento cívico ou de cidadãos para perpetuar as Carquejeiras, com um monumento, ao cimo da antiga Calçada da Corticeira é formado por José Lamas (escultor), Maria Arminda Santos (responsável pelo projeto), Maximina Girão Ribeiro e Fernando Conceição.

O movimento conta ainda o apoio de Helder Pacheco, Rancho Folclórico do Porto, Valentina Rosa Machado (carquejeira), Odete Machado, Associação de Moradores das Fontainha, Adelino Silva e também do nosso jornal, que tudo fará para que o monumento às Carquejeiras seja uma realidade dentro em breve.

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Mas, sobre as Carquejeiras, e registe-se o nome da única que continua entre nós, alegre e simpática com os seus noventa e tal anos (Valentina Machado), vem de seguida um registo a ter em conta (para ler com atenção) e assinado pela professora, poetisa e nossa colunista, Maria de Lourdes dos Anos

Da Calçada da Corticeira à Rampa das Carquejeiras

Lembro-me muito bem delas (carquejeiras). Chegavam pelo meio da manhã em grupos de três ou quatro  .Vestiam de forma estranha. Traziam um xaile  com duas pontas que se cruzavam  sobre o peito e depois  davam um nó nas costas. Amarrado na anca um outro xaile que prendia a saia de roda, lhe aparava o filho que trazia no ventre, e amarrados nos pés descalços uns trapos sujos e muitas vezes ensanguentados para se dizerem magoadas e assim  enganar os polícias  que aparecessem para as autuar por andarem descalças na cidade.

Claro que vos falo das carquejeiras que iniciavam a sua dolorosa peregrinação na margem direita do Douro, onde a carqueja era descarregada dos barcos rabelos, até às padarias da minha rua do Bonfim: a Santa Clara (que ainda resiste nas mãos da família Coelho), a Padaria Industrial (que deu lugar á vidraria “Carvalho”)e ainda a uma outra no Campo 24 de Agosto, há muito fechada (que chegou a ser propriedade de um familiar).

Sobre a cabeça, um saco de sarapilheira em forma de capuz que as protegia dos picos dos molhos de carqueija seca presos por uma corda que seguravam na testa como humanas  éguas de carga.

Não sei como conseguiam equilibrar a montanha que transportavam e vendiam  para espevitar a lenha e o carvão dos fornos das padarias e das casas de pasto  das redondezas. Em troca recebiam uns míseros trocos que talvez pagassem a malga de caldo  da ceia dos filhos.

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O caminho do calvário fazia-se subindo a rampa  (a pique) da Corticeira, depois atravessavam as Fontainhas e subiam outra (menos íngreme) rampa dos Padeiros onde, com alguma sorte, aliviavam parte da  pesada carga  Seguiam-se a Rua do Bonfim e S. Roque da Lameira até á Praça das Flores. Finalmente, era o regresso e o descanso na escadaria da Igreja do Bonfim para comerem um naco de carne gorda e a broa que traziam no bolso do avental de estopa  que as abrigava do frio, da chuva e também do calor dos dias de verão para que o suor não lhes afogueasse e “cortasse” as coxas .

Eram as carquejeiras. Eram as heroínas que conheciam  os nomes dos pássaros da Praça da Alegria,  as pedras das ruas da cidade, as peixeiras que apregoavam o nevoeiro e o mar  que traziam nas canastras e até  os guarda noturnos que terminavam o seu trabalho na madrugada e com elas se cruzavam em S. Lázaro ou no Largo do Padrão. Lembrar as Carquejeiras é escrever um hino a coragem ao amor e á abnegação das Mulheres que ajudaram a escrever a História do Porto e do Douro.

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CARQUEJEIRAS

Amarrava na anca a dor de parir

no peito guardava o amor a florir

ás costas carregava o nascer do fogo

e trazia o Douro correndo nas veias

Inventava margens em tempo de cheias

trepava a escarpa pra chegar à cidade

escondia os pés em trapos rasgados

vendia seus passos no calvário da rua

sobre as pedras cansadas da miséria nua

 

Guardava na boca o cheiro a pão quente

prometia fartura ao filho que trazia no ventre

escondia o rosto no saco de sarapilheira

fazia do seu corpo velha besta carrejona

Sabia de cor cada janela que se abria

chamava pelo nome os pássaros que ouvia

e repartia com eles o seu naco de broa

sonhava o sol em cada negra  madrugada

rezava aos  santos uma prece praguejada

 

Na margem do Douro, os rabelos pariam

as dores de viver que  nelas cresciam

construíam montanhas  de carqueja

com ela fizeram armas, sonhos e suor

lágrimas, escravatura , sustento e amor

e com ela foram queimando o fogo da vida

Elas  foram mães, santas mães como Maria

foram mulheres, amantes e guerreiras

e deram o nome á Rampa das Carquejeiras

Maria de Lourdes dos Anjos

 

Texto: José Gonçalves

Fotos: Fernando Conceição

 

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 CARQUEJA: Planta subarbustiva, sem folhas, da família das leguminosas, espontânea em Portugal e muito usada como acendalha ou combustível (Dicionário Porto Editora)

 

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6 Comments

  1. Joaquim lino

    Grande amante da cidade que me viu nascer, lá do alto do Miradouro de Santa Catarina, tenho uma página no Facebook, “Porto a penantes”, para dar a conhecer os seus recantos menos conhecidos e mais encantadores. Esta homenagem, que tem sido sucessivamente adiada, é uma obrigação que os tripeiros têm como reconhecimento de mulheres únicas que fazem parte da história da cidade.
    Já subi a rampa das Carquejeiras muitas vezes, e estarei disponível para através da minha página divulgar e dar os empurrões que forem necessários para esta obra arrepiar caminho…
    Bem hajam pela iniciativa!

  2. Amilcar RAimundo

    Li uma crónica domingueira no JN, o que mais me custou a acreditar foi a complacência, anuência, dormência de tanta gente que não encontrou solução para evitar o calo concâvo horrivél destas mulheres!

  3. JOAQUIM OLIVEIRA DA MOTA

    Se for verdade e nao ficar so pelo papel….sera uma homenagem das mais MERECIDAS que conlheco…nao esquecer nunca que foram autenticas ESCRAVAS autenticas HEROINAS daqueles tempos….GRANDES MULHERES da minha grande cidade do Porto…PARABENS aos autores.

  4. Maria Rodrigues

    Dar hoje visibilidade às carquejeiras é dar voz a quem não a teve no seu tempo. Patrimonializar a sua imagem é manter viva a sua memória.
    Como muito bem disse Jean Paul Sartre, “nous ne savons pas si c’est l’être qui dure ou si c’est la durée qui est l’être” (não sabemos se o que dura é o ser ou se o ser é a própria duração).
    Que vivam as carquejeiras!

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