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O General Sem Medo

Pedro Ramajal / Tribuna Livre

Fez cinquenta anos que a PIDE o assassinou.

Na altura, eu tinha 14 anos e lembro-me perfeitamente. Os meus pais eram do contra, como se dizia então. Apesar de funcionários públicos, sempre que tiveram oportunidade votaram na oposição. E lá em casa  falava-se de política, embora eu estivesse industriado desde tenra idade que certas coisas que eu os ouvia comentar, não podiam passar das nossas paredes para fora, sob pena de os meus pais perderem o emprego e poderem até ser presos.
Mas lembro-me também, com toda a nitidez, do ambiente que se viveu no Porto nas eleições de 1958 e que vivi nas ruas da minha cidade pela mão do meu pai. Não, não estive na famosa recepção a Humberto Delgado retratada na icónica fotografia da Praça de Carlos Alberto. Creio bem que o meu pai lá terá estado e só não me levou por temer que aquilo descambasse em repressão e um miúdo de sete anos só podia atrapalhar.
Nunca mais esqueci o entusiasmo popular pelo general. Mulheres do povo, trazendo colados no peito selos com a foto do general, uma espécie de antepassados dos autocolantes de décadas depois. Na esquina do passeio dos Cardosas, quando descia em direcção à Ribeira, sorria Américo Tomás. Quando, pouco tempo depois fiz o trajecto inverso, o cartaz já tinha sido substituído pelo candidato da oposição. Num tasco da rua da Madeira, onde entrámos para o meu pai beber um néguinhos, um popular já de provecta idade, pelo menos bem mais velho do que o meu pai, exibia um sarrafo reforçado por uma folha de lata pintada de vermelho nas pontas e dizia ao telefone: “eles que se atrevam a meter-se comigo”, referindo-se obviamente à polícia e reforçava a declaração fazendo soar o improvisado varapau no chão.

humberto delgado

Um vento de esperança e liberdade varria então o país, um ambiente que eu só voltaria a viver dezasseis anos depois, na data mais grata da minha vida, então já ombreando com o meu pai e a minha mãe a festejar a liberdade. Um ambiente como acredito, pelo que vejo e ouço, que se vive hoje na Grécia e, espero bem, se repita a breve prazo no estado espanhol e que alastre como mancha de óleo por esta desgraçada Europa, dominada pelos interesses da finança internacional.
E é porque tenho esta memória que, quando me vejo na necessidade de puxar pelos galões, ou não seja a antiguidade um posto, costumo dizer “eu sou do reviralho desde os sete anos, tá bem?”.
Se Humberto Delgado tivesse tido a mais do que merecida oportunidade de viver a liberdade e a democracia pelas quais deu a vida, não tenho dúvidas de que estaríamos em campos diferentes, ou mesmo opostos, tal como me aconteceu com uns quantos dos meus heróis daquela época. Mas isso que importa? Foi com ele como herói, pela mão do meu pai, que nasceu a minha opção para a vida: sempre pela liberdade, sempre pela democracia, sempre ao lado dos oprimidos. E  sempre, até que a morte nos separe, à esquerda da esquerda.
(Ver o filme de Jorge Campos http://lugardoreal.com/video/o-meu-coraco-ficara-no-porto/)

Foto: Pesquisa Google

Por vontade do autor, e de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

01mar15

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