Menu Fechar

E agora, o que faço? (I)

Carla Ribeiro

Em Março festejámos o dia da Mulher. Ouvimos, notícias todos os dias que nos falam de Mulheres que morrem nas mãos dos seus companheiros, maridos ou namorados.

Mas, não importa o que são, apenas que por eles estas Mulheres são mutiladas, molestadas, violadas e tantas vezes mortas.

Às vezes ficam marcas no corpo, que jamais desaparecem, pois estão ali, sempre visíveis.

Tapamo-las para ninguém ver, para ninguém se aperceber.

Usamos a roupa como se fosse o telhado da nossa casa que tudo esconde do que lá dentro se passa.

Sofremos no silêncio, as ofensas verbais, os maus tratos físicos, até as violações. Choramos, às vezes de tanta dor até nos mutilamos, mas sempre sofremos.

Não importa o sexo, apenas que somos vítimas e não encontramos a porta para sair desta violência.

Tantas as vezes que pensamos contar a alguém, mas o medo que não acreditem e riam de nós sufoca-nos e não nos deixa caminhar.

Ganhamos forças e lutamos, mas e agora o que faço?

Onde coloco eu o medo, que não me deixar caminhar.

Onde deixei eu os meus sonhos?

Quem sou eu, que não me reconheço?

Que vou fazer, se gostar de outra pessoa? Será que vai voltar a magoar-me?

E, agora, o que faço?

Tantas vezes esta pergunta não teve resposta dentro de mim.

Até que um dia resolvi deixar o medo na gaveta, vestir o meu sorriso e partir a minha procura, bem dentro de mim.

relatos 01 - 01abr15

Ah! Como Amo o meu filho, e como precisa ele de mim, preciso reencontrar-me e recuperar a minha identidade, como se do meu “BI” se tratasse.

Mas afinal, mais do que ele de Mim, preciso Eu de Mim, pois sem me reencontrar não vou ser capaz de o Amar em plenitude.

Sim, tudo isto é estranho, mas como posso eu Amar o próximo, se não tiver ainda aprendido a Amar-me.

É urgente que eu me reencontre no meu ser, que recupere a minha identidade.

E tantas foram as vezes que, por medo, eu pensei em desistir.

Não, eu não posso, Eu Não Quero, Amo demais o meu filho, e se eu preciso do seu Amor, muito mais necessita ele do meu.

Eu não tenho culpa, foi a primeira frase que dentro de mim eu escrevi, pois não podemos culpar-nos pelos comportamentos das outras pessoas, e muito menos de quem nos agride.

Hoje é um insulto, amanhã outro e mais outro, discussões que já nem sabemos porque começam, ciúmes doentios, mas de nada somos culpados, pois não podemos deixar que alguém nos diminua, nos empurre para o chão, pois não consegue conviver com a nossa beleza.

Sim, porque eu sou bela, bem dentro de mim, onde não deixo entrar qualquer pessoa, para que não me possam magoar.

Basta de nos insularem, basta de tantas lágrima, tanta dor, tanto sofrimento, tantas noites sem dormir, em que no silêncio as lágrima me inundam.

E um dia uma bofetada, que nos faz acordar e dizer que chegamos ao fim da linha.

É urgente mudar, é urgente acordar.

Já não confio nele, ele já nem me respeita.

Onde estão as promessas, o Amor outrora prometido, o respeito, a cumplicidade, as palavras bonitas que um dia me fizeram sonhar.

Onde está a pessoa que um dia me levou ao altar?

Que monstro é este que apenas me usa, que me trata como um objeto?

Não conheço esta pessoa, mas que pessoa é esta, se de pessoa lhe pudermos chamar.

Não suporto mais o seu cheiro, tocar na sua roupa com perfume de outra mulher, as vezes até os cabelos dela, o batom na camisa.

Tenho nojo, tenho muito nojo, não suporto mais

Não quero mais viver assim.

Tanta traição, tantas mentira, como posso eu continuar a viver assim?

Não quero mais sofrer, não suporto mais a sua presença, sinto-me violada, tenho nojo…

O meu corpo retrai-se só de pensar que está para chegar, aquele cheiro nas roupas, o seu ar de riso, de gozo, arrogante e dono do mundo, acha que tudo pode, só não percebeu ainda que já me perdeu, pois não é meu dono.

E nesta luta constante cresce em mim o Amor-próprio, a necessidade de um novo caminhar.

Não vai continuar a achar que sou um objeto sem vida, sem vontade, que usa a seu belo prazer.

Não é meu dono, não posso viver assim algemada, a uma dor que me destrói.

relatos 02 - 01abr15

Não, eu não sou a sua puta.

Eu era a sua Mulher, a sua Amante, a mãe do seu filho, hoje apenas um objeto…

É urgente eu mudar, e foi assim que comecei a mudar.

E nesta luta constante, neste medo, nesta vontade de apenas desistir, continuei a caminhar, numa busca incessante para me reencontrar.

Preciso de me encontrar, preciso de me reconhecer.

É urgente esta mudança em mim, para poder continuar a caminhar.

Devolver o brilho ao meu olhar, redescobrir o Amor por mim, devolver o sorriso ao meu rosto, e jamais deixar que me possam desta forma magoar.

Pode parecer um caminho tortuoso, difícil, carregado de dor, mas que cada um terá que decidir fazer.

Há tantas portas para fechar, outras tantas para abrir, e o muito que temos para descobrir.

Mas eu nunca vou desistir, vou trilhar este caminho.

relatos 03 - 01abr15

Seguiremos este caminho no próximo mês

Contínua em Maio

Obrigada

Até breve com novos “sentir”, novos “amar”…

 

Fotos: Pesquisa Google

 

01abr15

44 Comments

  1. Ro Coutinho

    Boa noite !
    Obrigada por partilhar tão bela e sofrida escrita. Admiro você demais !! Você é linda !!

    Beijinho no coração !

  2. Oliveira Ribeiro...

    Carla… o que li… não é novidade, mas o que vou dizer é novo; Chora, MULHER, tu sabes chorar tão bem quanto sofrer… chora, para que de novo te possa ver nascer um sorriso sublime… que diz muito da tua coragem… quem sou eu, para falar da mulher! …quem? Ninguém! …mas, parecendo que não me importo… importo e muito… porque nunca pus a mão numa mulher… e entristece-me quem a toca para a fazer sangrar… mesmo pelo coração… mesmo pela razão! Beijo

  3. Carla Ribeiro

    Judite
    Mt obrigada pela tuas palavras e pelo teu carinho
    Espero que continues a acompanhar esta minha caminhada de escrita
    Bjnhs

  4. Carla Ribeiro

    Fausta,
    que saudades linda,
    Obrigada pelas tuas palavras
    Parabens a ti ela tua nova caminhada, mt sucesso
    Bjnhhs

  5. Carla Ribeiro

    Ola João
    deveria mesmo ser assim,
    mas ainda ha mt para fazer para mudar mentalidades
    é essa a mensagem que quero passar, a força que fui buscar onde nem sei k a tinha pk sim eu venci, e sim eu voltei a recuperar a minha identidade
    Bjnhs amigo
    aquele enorme abraço

  6. Judite Esperança

    Lindo Carla!
    Tenho acompanhado a tua escrita através do FB.
    Pelo que percebi, a tua vida mudou…para melhor!
    Muita luz e muita paz para ti.
    Beijinhos
    Judite Esperança

  7. Maria Gautier

    Olá…
    Boa noite amiga,Carla.
    Descreve bem a triste realidade da vida de muitas MULHERES 🙁

    “Mas eu nunca vou desistir, vou trilhar este caminho.”

    Continue amiga…beijinhos
    Obrigada!

  8. Fer Pinto

    Só tenho umas palavras !!!
    Continua com a certeza que a poesia e os textos que escreves , fazes chegar a toda a amizades que te rodeiam .
    Parabéns pelo excelente texto.
    Noite feliz .
    Beijos Carla,

  9. Francisco S

    Como sempre bem escrito ,com sentido e por favor continua a mostrar as proprias mulheres que nao se devem calar ,devem ser iguais ,obrigado amiga por este texto

  10. Ju

    Muito bom, Carlinha!
    Tu és uma lutadora
    a Amiga, a MULHER que admiramos e que sabemos que podemos sempre contar.
    Bj

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.