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Abril-Maio

José Luís Montero

Não tenho culpa nem quero ter culpa. O passado escreve-se com a letra do interesse. O presente escreve-se com a letra gêmea com que se escreve o passado e pela letra começa a corrupção. Festejou-se o 25 de Abril praticamente sem contentes e contentamentos. A pobreza é a única bandeira do presente e a pobreza não pode adornar-se com cravos. Não gosto que o 25 de Novembro enfeita os festejos do 25 de Abril e hoje só existe uma data: 25 de Novembro.

Abril foi esquecido e mil vezes reescrito por quem detesta o Grândola Vila Morena a soar amorosamente aos ouvidos. As vozes ficaram encravadas numa diabrete ocasional do Otelo Saraiva de Carvalho ou no discurso meio morno, meio aquecido do Vasco Lourenço. Depois de quarenta anos que sejam os militares, poucos, nenhuns ou alguns, as vozes do descontentamento é triste. O militar deve viver na caserna e depois de deixar a caserna que viva no calor da sua lareira. Que seja a voz militar a voz do descontentamento é o sinal mais evidente do fracasso e da derrota de Abril. Onde está a Sociedade Civil?… Não cresceu; não amadureceu. Carlucci foi a causa do fracasso e a causa da vitória; da vitória do 25 de Novembro. Agora a História é escrita por uma troica qualquer, no passado a troica chamou-se Carlucci.

frank carlucci

Cansado sem estar esgotado; aborrecido sem estar entediado; abrumado sem estar aplastado, mas, devo reconhecer que a corrupção através da palavra é um pesadelo. Este texto verá a luz do dia no 1º de Maio. Será pouco, muito ou nada lido. Possivelmente, as ruas de algumas cidades vejam desfiles cheios de bandeiras e gritos circunstanciais. Estes desfiles protagonizados pelos sindicatos existentes nada alcançarão. São desfiles sem fervor e sem clamor.

São procissões laicas. Carecem de pretensões maiúsculas. Se os Mártires de Chicago se tivessem comportado como estes sindicalistas ainda não estaria implantada a jornada laboral de oito horas. Os Mártires de Chicago eram uns anarquistas decididos que quando faziam greve, faziam greve. Padeceram; morreram, no entanto, a sua pretensão venceu. Tiveram tática, estratégia e vontade de melhorar as condições de vida e de trabalho. Presentemente vive-se uma situação onde as condições de vida e de trabalho são cada vez mais precárias.

Mártires de Chicago
Mártires de Chicago

O sindicalismo existente e dominante fechou-se entre quatro paredes. As greves são tão diminutas que produzem o efeito contrário. Evidenciam unicamente que a casta sindical carece de prestígio da mesma forma que a classe política. Subordinaram-se aos interesses parlamentários do partido afim e nem o partido faz nada, nem o sindicato mexe a palha. Corromperam a palavra; a História; a ação. Ultrajaram o compromisso. Não são como os Mártires de Chicago; não são aqueles anarquistas.

Estamos no tempo dos desfiles de vaidades. A Avenida da Liberdade viu-se profusamente fotografada no festejo do 25 de Abril. Não foram protagonistas as ideias de Liberdade; o protagonista foi um académico metido a político. O êxtase fotográfico aconteceu quando o académico Sampaio da Nóvoa estacionou à frente do velho Café Nicola. Ele estacionou; sorriu; falou com quem se aproximava – não muitos transeuntes- e pensou, talvez, estar a pisar calçada histórica.

cafe nicola

Se levanta-se a vista observaria que por cima do Nicola também viveu o grande Eça. No entanto, hoje o velho Café Nicola nem é o que foi; nem é ainda que exista. Sampaio da Novoa desconhece o presente; desconhece que tanto o Café Nicola como outros espaços emblemáticos da cidade de Lisboa já não são tal. Os turistas que estavam comodamente instalados no Nicola nem o votam, nem sabem a que se dedica.

No dia 1º de Maio que acontecerá? Também desfilará? Que reclamará? Qual será o seu grito de guerra? Dirá como dizem os corruptores da palavra e da História que é um dia de festa? Perguntará aos trabalhadores de hotelaria se trabalham oito horas diárias? Não se sabe, nem se saberá.

Mas, por aqui e por além renascem os ideais dos Mártires de Chicago. Atrevem-se, neste momento, conjuntamente com outros sindicatos de pouca entidade, a preparar uma greve geral durante o Outono em Espanha. Não é brincadeira, nem será uma greve das típicas em que aparece o secretário do sindicato a fotografar-se pela manhã. Será greve e será séria. Durante as greves sobram as fotografias. Será mais ou menos rotunda e conseguida, mas, os ditos sindicatos grandes, tal como os portugueses, quando convocam greve?.. Como dizem na minha aldeia, no dia de São Nunca.

Os Mártires de Chicago merecem ter herdeiros à altura. Não merece a pena, nem resulta efetivo festejar sem saber o que verdadeiramente se festeja porque corromperam a palavra. Recuperar a memória ajuda-nos a conhecer as calçadas que pisamos.

Fotos: Pesquisa Google

01mai15

 

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4 Comments

  1. Alberto Costa

    Os sindicatos em Portugal são uma anedota! Gritam abusos onde muitas vezes há necessidade de convergencia para um futuro melhor e encolhem-se perante certas situações que podem perigosamente chegar perto dos seus quintais!

  2. felizarda

    agradeço ter a possibilidade de ler ETEcTAL além da pouca cultura que tenho.E muito orgulho em ser do País que sou,mas me sinto confusa e triste por ver o meu País com tanto

  3. Fernanda Lança

    o que mais se vê é as centrais sindicais e , por arrasto, os sindicatos, estarem ao serviço de forças partidárias e apenas trabalharem em função delas. Os trabalhadores são peões com que se joga a belo prazer

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