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FURADOURO: Acalmia marítima ajuda ao restabelecimento do CORDÃO DUNAR

Com a primavera a proporcionar dias soalheiros que fazem antecipar momentos agradáveis de praia, em que já se pode usufruir de paisagens balneares com um ainda razoável areal, que aguardam a tradicional época de verão para acolher os fiéis veraneantes de Ovar ou dos concelhos limítrofes, que ao longo dos tempos elegem a praia do Furadouro para fazer praia e férias.

A marca de violenta destruição que ainda no ano passado arrasou a Marginal do Furadouro, provocando elevados prejuízos em equipamentos públicos, parecem ser memórias distantes tal é a aparente normalidade que voltou a esta praia como resultado das obras de reforço de estruturas aderentes frontais e do esforço de restabelecimento do cordão dunar a norte e a sul assumido pela Câmara Municipal de Ovar e a Agência Portuguesa do Ambiente – APA.

Muralha de pedra no Furadouro
Muralha de pedra no Furadouro

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A acalmia marítima que caraterizou o último inverno, em que apenas se manifestaram pontuais “chuveiradas” de ondulação mais agitada, não deixa de ser uma situação verdadeiramente favorável para esta zona da costa, podendo assim recuperar de alguma consolidação de areia que naturalmente muito tem beneficiado das condições atmosféricas favoráveis e que curiosamente quebraram a sucessiva redução de ciclos de tempestades e de pressão erosiva que, nos últimos anos, se abateu prolongadamente sobre o litoral português.

Recuperada a área frontal através do reforço da longa muralha de pedra, enquanto outros sistemas alternativos de defesa da costa vão sendo debatidos os seus prós e contras, incluindo os elevados custos e dúvidas sobre adaptação ao tipo de costa em causa.

A vertente do reforço e restabelecimento do cordão dunar no Furadouro, foi a empreitada que mais beneficiou de um inverno pouco rigoroso, permitindo que as intervenções realizadas a sul do último esporão, através da reposição de areia para tentar travar novas investidas do mar que tinha rasgado com grande facilidade as dunas ali muito fragilizadas, ganha-se alguma consolidação, pelo menos visualmente, uma vez que, nada garante que caso se repitam as condições de intensa erosão de invernos anteriores o mar não volte a escapar-se por aquela “porta” que continua muito permissiva, funcionando como escape à fúria do mar perante a pressão da muralha de pedra ali mesmo ao lado para tentar proteger a área comercial e urbana central do Furadouro.

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Campo dunar artificial

Neste interregno das tempestades a que não tinha escapado a área de um campo dunar artificial, que ganhou forma no espaço em que tinha existido um parque de estacionamento, através da colocação de areia e incluindo estruturas de passadiços que resultaram numa mais-valia para proporcionar qualidade de vida com tal cenário paisagístico e ambiental, foi igualmente reforçado no âmbito dos investimentos para reposição e reforço das estruturas de defesa e proteção dunar, que neste caso passou por mais depósitos de areias.

Mais a norte desta praia, um outro campo dunar tem sido alvo de obras de proteção contra a forte erosão que os rigorosos invernos de cujos rastos de destruição ainda são visíveis marcas por sarar. Mas apesar dos esforços de reposição de estruturas, como prolongamento de passadiço e paliçadas para consolidação de dunas, a empreitada não tem sido facilitada, como se pode observar no local com grupos de estruturas de paliçadas que vão ficando descalçadas e acabam derrubadas.

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Assim se vai mitigando as fragilidades da orla costeira

Com o tempo a fazer esquecer para já, os momentos dramáticos e os cenários dantescos que resultaram dos períodos mais inquietantes provocados pelos fortes galgamentos do mar em invernos pesados que ainda há um ano se fizeram sentir. Também as obras que vão mitigando os danos e as fragilidades desta orla costeira ajudam de certa forma a apagar da memória o pior. No entanto as situações de desequilíbrio resultante da ocupação desordenada do litoral e os fenómenos de erosão costeira mantêm-se.

Tal como as praias de costa baixa arenosas que correspondem a cerca de 40 por cento da orla costeira, com vastas extensões dunares na faixa costeira da Região Centro, as praias do concelho de Ovar e neste caso a do Furadouro, são exemplos concretos da fragilidade de tais sistemas de concentrações de areia que ao longo de séculos vêm funcionando como sistemas de reconhecida eficácia contra o avanço do mar.

Escrevia aliás a revista “Super Interessante”, de janeiro/2013 em «A costa perdida», que, “por ignorância ou incúria, ocultou-se que as estruturas geológicas costeiras não são estáticas e que estão em constante evolução devido a causas naturais, como as correntes junto à costa, as tempestades, a ação dos ventos, a subida do nível do mar, as alterações climáticas, a deformação neotectónica, etc. Além disso, omitiu-se que a ação natural tem vindo a ser fortemente amplificada, nas últimas décadas, pelos impactos resultantes das atividades antrópicas, de que são exemplos a urbanização desregrada, o pisoteio do coberto vegetal dunar, a artificialização das bacias hidrográficas (sobretudo devido à construção de barragens), as dragagens e explorações de inertes, a construção de molhes de portos e as intervenções de engenharia costeira” e acrescenta, “hoje, já não se consegue esconder aquilo que está à frente dos olhos de toda a gente: os fenómenos naturais e as intervenções humanas têm vindo a acelerar a erosão costeira, que acontece sempre que o mar avança sobre terra”.

Paliçada a norte
Paliçada a norte
reforço do campo dunar
reforço do campo dunar

Agora, fragilizada a proteção natural das praias em que há dezenas de anos se trava uma batalha sem fim á vista, a espectativa é ir mitigando os problemas e proteger zonas urbanizadas e expostas ao ataque permanente do mar, continuando a enterrar muitos milhões de euros que vão repondo e reforçando defesas aderentes e esporões que a força do mar vai destruído ciclicamente. Enquanto o recurso à técnica da alimentação regular e artificial de areia, como solução que os especialistas têm defendido ser fundamental para a situação de erosão costeira não ser mais grave, ainda está longe de merecer a devida atenção e opção para combater galopante recuo da linha de costa, que no caso da orla costeira de Ovar, se pode situar entre os 4,5 e 12,5 metros por ano na zona de Esmoriz a Cortegaça e de oito a dez metros no Furadouro.

Texto e Fotos: José Lopes

(Correspondente “Etc e Tal Jornal” em Ovar)

 

01mai15

 

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