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O Homem e a Máquina

Benigno Sousa / Tribuna Livre

Características essenciais do ponto de vista biológico: relação entre vida, matéria e espírito: A vida do ponto de vista orgânico ou biológico: podemos comparar o nosso organismo vivo a uma fábrica, máquina ou computador. Somos de facto como uma fábrica, só que, a nossa fábrica viva não fecha para férias, labora 24 sobre 24 horas. É uma “fábrica que funciona em piloto automático e, por outro lado, produz uma série infinita de operações extremamente complexas com elevadíssimo grau de precisão. Funciona segundo o programa código genético. Contudo, a nossa autonomia não impede que não sejamos autossuficientes; somos organismo desenvolvido mas dependentes do exterior – ecossistema; mas quanto mais evoluídos mais autónomos, maior é a nossa dependência do exterior para nos assegurar o grau de evolução e esse grau de autonomia. Neste sentido podemos dizer que quanto maior é a nossa evolução maior é a nossa fragilidade.

Podemos dizer que, enquanto fábricas, somos um sucesso garantido num sistema autogestão. Apesar de sermos autónomos, há numa determinada altura em que vamos falir. Quando falimos, no momento da nossa morte, tudo aquilo que era um sucesso garantido deixa de o ser.

Continuando com a analogia” fábrica e organismo vivo”, concluímos que o organismo é como uma fábrica completa em constante laboração; todas as suas funções que para além de produtora é também consumidora. As células têm a missão de viver – a todo o custo – puxando a vida sempre para este lado – lado da própria vida.

Foto: jornal "Público"
Foto: jornal “Público”

Entre organismo vivo e uma máquina, vemos que o organismo vivo ao contrário de uma máquina é em diferentes aspetos, simultaneamente, máquina artificial e (mais originalmente) uma máquina não maquinal. Isto nos oferece a autenticidade e ao mesmo tempo nos distingue – pela aleatoriedade que nos permite infletir no infinito – do resto de todos os seres.

Podemos dizer, o que faz uma máquina é o seu número (maior ou menor) de peças, feitas cada vez mais com um maior grau de precisão/fiabilidade. As peças enquanto entes individuais são de fiabilidade enorme, mas, pelo contrário, no seu conjunto (enquanto peças) é de uma fiabilidade e precisão duvidosa, pois, basta uma peça avariar que a máquina automaticamente erra: deixa de ser fiável e para. Podemos concluir que a autonomia da peça é tão maior quão maior for a durabilidade dos seus constituintes e faz com que as máquinas tenham vida bastante reduzida.

Por outro lado, podemos dizer que a máquina viva (organismo vivo) a relação é contrária. A nossa máquina é igualmente constituída por peças. Mas essas peças são de fiabilidade muito menor. As nossas peças são na sua individualidade muito mais imperfeitas. Para além disso não funcionam todas da mesma forma – cada uma funciona duma forma distintamente diferente quando comparada com outros seres da mesma espécie. É através desta relação que hoje vemos uma certa dificuldade em encontrar um ideal para o funcionamento de cada corpo. Da mesma forma que não há números perfeitamente unívocos quanto à regulação da tensão Arterial ou quanto aos níveis do colesterol e que formem desta forma um padrão também ele unívoco e aplicável a todos os humanos; de facto, não há nenhum ser humano que tenha os seus níveis de regulamentação perfeitamente iguais a outro.

Podemos dizer, em termos de conclusão, que em conjunto, uma máquina artificial é de uma fiabilidade muito menor e que, no conjunto a nossa máquina (a máquina biológica) tem maior fiabilidade – 70/80 anos de idade. A máquina biológica tem ainda uma outra vantagem: raramente vai à oficina.

A nossa máquina tem o poder de uma autorreparação e uma autorregeneração. De facto, mediante contágio ela está constantemente em produção (células) fazendo com que nem nos apercebamos do próprio contágio. Este aspeto originário faz com que ninguém possa vencer este jogo por nós.

vida um jogo

De facto, a vida é como um jogo: um jogo entre a organização e a desorganização. O jogo da vida consiste como dizia Heraclito em “Viver da Morte e Morrer da Vida”. Vivemos com a pouca fiabilidade das nossas peças enquanto algo de individual, por outro lado, conseguimos gerir uma boa parte dessa desorganização: Se fossemos máquinas à mínima desorganização, ou ao mínimo contágio parávamos.

É pelo facto de haver agentes desorganizados que o organismo vivo se organiza e vive por um tempo bastante considerável até. No entanto, morremos da vida porque é pela força da nossa organização que ao acaso acabamos por avariar na pluralidade do próprio organismo e assim, falecemos.

Uma outra característica que diferencia o organismo vivo das máquinas é o facto das máquinas artificiais serem absolutamente previsíveis. As máquinas e as peças que as constituem têm toda a informação que nós demos anteriormente e por isso funcionam segundo um elevado grau de previsão, já calculada por nós. Quanto a nós, organismos vivos, também somos cada vez mais previsíveis – todos os dias, uma grande parte do nosso dia é previsível. No entanto, há momentos da nossa vida que somos muito mais encantadores – a nossa previsibilidade não é absoluta e por isso somos livres. De facto, mediante a previsibilidade diária o panorama pode alterar-se – há uma infinidade de possibilidades que nos permite optar pelas possíveis, pelas menos possíveis e até pelas impossíveis, ao contrário do que acontece com os limites de uma máquina artificial.

maquina organismo

Esses momentos mais encantadores da nossa vida são precisamente os momentos em que somos não máquinas. Infletimos verdadeiramente no espaço da liberdade e por isso a vida é conjunto de possibilidades. Essas possibilidades permitem-nos infletir nas suas representações e é pela decisão que nasce a verdadeira angústia.

Voltando à comparação com os limites da máquina, vemos que o ser humano tem a capacidade de se guiar, segundo a sua própria razão, num leque de infinitas possibilidades. Pelo contrário uma máquina nunca se poderá guiar pelo infinito, mas pelo contrário mediante mais ou menos variáveis introduzidas pelo ser humano. Uma máquina artificial perante um sinal de trânsito avariado não tem a possibilidade de escolher ou deliberar mediante um conjunto de experiências que adquirimos empírica ou inaptamente (não interessa). De facto ela bloqueia mediante a incerteza, ao passo que o ser humano age mesmo na incerteza.

Não é que esta reflexão seja perfeitamente legítima de falar acerca de tema tão amplo quão liberdade contudo, permite fugir um pouco do túnel sem saída que nos vemos mediante abordagens funcionalistas feitas da realidade; é bom porque nos faz verdadeiramente humanos democráticos.

Fotos: Pesquisa Google

01mai15

 

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