A situação de improviso do posto de vendagem do peixe na praia do Furadouro que se arrasta há vários anos na praia do Furadouro após a obrigatoriedade do peixe pescado através da arte xávega ter de ser vendido em lota sob controlo da Docapesca, é afinal a imagem da decadência desta própria arte de pesca costeira que no caso do Furadouro e do Torrão do Lameiro, se limitam agora à atividade de três companhas, entre elas, o “Jovem” e “Pedro, O Pescador”. Barcos que mantem esta atividade tradicional em ambas as praias da União de Freguesias de Ovar.
Com poucos sinais, desde logo por parte do Governo, que apoiem a manutenção da arte xávega, cujo resultado das dificuldades que se avolumam para se manter uma tal atividade económica, mas também social e símbolo de um património que vários municípios vão descobrindo ser necessário preservar. No Furadouro, povoado ao longo de séculos em função da atividade da pesca e da indústria a esta atividade ligada, o cenário que envolve a área em que funciona o Posto de Vendagem do peixe capturado na praia local, no Torrão do Lameiro, Esmoriz e Torreira, está ironicamente “decorado” com o barco “Deus Te Salve” ali depositado depois da destruição na ré de que foi alvo curiosamente em terra e assim continua a degradar-se sem poder ir ao mar a exemplo do “Srª da Graça” que tem idêntico destino por entre as dunas mais acima daquele local.
O local então encontrado para o funcionamento de forma improvisada da Lota foi uma área a norte no Furadouro junto ao Parque de Campismo e do Complexo Desportivo do Furadouro, e ali continua até aos dias de hoje bem perto do acesso à zona da pesca no areal que os tratores ao longo dos anos foram fazendo, rasgando o cada vez mais frágil campo de dunas.
O improviso para na altura legalizar a vendagem do peixe que passou igualmente a obedecer às medidas da malha da rede do saco de arrasto permitidas por lei, foi beneficiando de pontuais intervenções, mas nunca perdeu a imagem de um local pouco próprio para tal atividade comercial. Já que tudo funciona ao ar livre sem o mínimo de condições de higiene, existindo também ao lado um estacionamento de automóveis e caravanas.
A situação pouco recomendável para a venda do produto do trabalho dos pescadores sujeitos igualmente à precariedade da sua atividade tem originado polémicas e mesmo muita disputa politica, com sucessivas promessas adiadas para se encontrar uma solução mais adequada, que ao mesmo tempo represente melhores condições para a manutenção e atividade da arte xávega e comunidades envolvidas.
Não é a primeira vez que o Mercado Municipal do Furadouro que tem estado desaproveitado desde a sua construção, tem surgido como solução para albergar o Posto de Vendagem do peixe. Proposta que sempre mereceu rejeição por parte dos pescadores que seriam obrigados a um maior percurso entre a praia e o Mercado. Uma alternativa ao atual local que ainda provocaria a circulação de tratores pelos arruamentos do Furadouro com o cheiro a peixe a inundar a via pública, com consequência particularmente inquietantes na época balnear.
Apesar da falta de condições há muito identificadas e denunciadas, sobretudo a falta de condições higiénicas a que o peixe está sujeito com o calor e o pó que afetam igualmente vendedores e compradores, incluindo quem ali trabalha em representação da Docapesca de Aveiro cujas instalações funcionam através de um gerador a gasóleo para a ligação de um computador e respetiva impressora fundamental naquela atividade de registo de vendas de pescado.
Uma situação difícil que noutras épocas do ano, é marcada por chuvas ou lamas que nas instalações do Mercado Municipal do Furadouro seriam em grande parte evitadas, proporcionando melhores condições e mais dignidade a esta atividade tradicional que no caso da lota no Furadouro, ainda que em nome da salvaguarda desta arte de pesca, as medidas continuam a ser no sentido de se minorar o atual estado de coisas.
Aparentemente sem viabilidade para as propostas que insistem no recurso ao Mercado do Furadouro a resposta, nomeadamente do Município de Ovar passa, segundo recente decisão do seu Executivo, por um protocolo de colaboração entre o Município e a Docapesca para a cedência e utilização de um contentor monobloco em que será instalado o Posto de Vendagem no Furadouro com participação da Associação de Pesca Artesanal da Região de Aveiro. A Câmara Municipal de Ovar assume também a pavimentação do logradouro no sentido de melhorar as condições de higiene do local, assim como a construção de um coberto com vista a proteger o pescado do sol e da chuva.
Não deixando de serem medidas precárias para atenuarem o cenário pouco condizente com a venda de peixe, para os autarcas, estas soluções apontadas visam “melhorar as condições de higiene existentes no Posto de Vendagem de Peixe do Furadouro, cumprindo ainda o desiderato de proporcionar e dar continuidade à Arte Xávega dos pescadores do Furadouro, apoiando-os na prossecução de uma atividade secular e identitária de Ovar”.
Critérios diferentes nos apoios às comunidades piscatórias
Bem diferentes dos critérios que justificaram apoios a outras comunidades piscatórias a norte e a sul de Ovar, estão bem patentes os investimentos de que beneficiaram a praia de Mira, com quatro apoios à pesca artesanal com instalações sanitárias, vestiário e duche que servem oito companhas e ainda um quinto edifício com 245 m2, com a lota e serviços administrativos da Docapesca. Já a Vagueira (Vagos) beneficiou da edificação de dois armazéns de apoio de pesca para quatro companhas com instalações sanitárias, vestiários e duche e um terceiro edifício de 220 m2 e dois pisos dedicados ao posto de vendagem, bem como um espaço de exposição permanente da arte xávega e das vivências associadas a esta tradição.
A norte do Furadouro, a comunidade piscatória de Espinho também beneficiou de quatro armazéns de apoio de pesca em Silvalde para apenas três companhas. Uma constatação bem demonstrativa de como tem sido encarada a arte xávega em Ovar cujos autarcas não seguiram os exemplos de Mira, Vagos ou Espinho na procura de financiamentos para o setor e assim se têm limitado a medidas pontuais e precárias, que no caso do Furadouro pouco ou nada garantem grande futuro a esta arte que dizem querer preservar.
Texto e fotos: José Lopes (*)
(*)Correspondente “Etc e Tal Jornal” em Ovar
Obs: Postais antigos sobre a praia do Furadouro do sitio www.delcampe.net
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