Maximina Girão Ribeiro
Philippa de Lancaster pertencia à alta nobreza de Inglaterra, da Casa dos Plantagenetas. Nasceu no castelo de Leicester, em 1360, sendo a filha primogénita dos duques de Lancaster (John of Gaunt e Blanche de Lancaster). Era neta de Eduardo III de Inglaterra e irmã de Henrique IV.
Foi educada em Inglaterra e viveu a sua infância, tal como os irmãos mais novos, entre os vários castelos que possuíam, com vastas propriedades rurais e algumas residências que poderiam servir, eventualmente, de abrigo para a família e respectiva comitiva que sempre os acompanhava. Esta itinerância da família, a par da convivência de Philippa com as amas dos seus irmãos, filhos do casal Lancaster, bem como com todo um vasto séquito, detentor de dados culturais relevantes, são aspectos que trouxeram a Philippa, desde muito cedo, um acréscimo substancial de conhecimentos. Sabia ler e escrever, aprendeu latim para poder ler os livros litúrgicos, assimilou as orações religiosas com sua mãe, ouvia os músicos da sua casa senhorial e participava em todas as actividades culturais que se desenrolavam pelos diferentes espaços onde viveu.

Durante vários anos, o duque John of Gaunt desenvolveu negociações com outras casas reais e nobres para que a sua filha Philippa encontrasse um marido à altura da sua hierarquia social.
Foi na sequência do Tratado de Windsor, assinado em 1386, entre Portugal (D. João I) e o rei de Inglaterra (Ricardo II) que os dois países se comprometeram a manter uma amizade perpétua e uma assistência mútua e que, também, como reforço desse acordo se estipulou o casamento entre o monarca português e a filha do Duque de Lancaster, John of Gaunt.
Assim, foi concedida a D. João I a mão de Philippa de Lancaster. Esta aliança diplomática, a mais antiga do mundo proporcionou, desta forma, o casamento entre o rei português, o fundador da dinastia de Avis e a inglesa, Philippa de Lancaster.

Philippa chegou ao Porto na segunda semana de Novembro de 1386, acompanhada por um numeroso séquito de nobres ingleses e portugueses que a conduziram ao Paço do Bispo, onde ficou instalada.
O rei chegou dias depois, alojando-se no convento de S. Francisco, para conhecer a jovem loura, de olhos claros, recatada, prudente e austera, que haveria de ser a mulher com quem iria viver, durante 28 anos.
Neste primeiro encontro e, na presença do bispo, trocaram presentes: relicários em ouro, guarnecidos de pedras preciosas.
Depois, D. João I seguiu para Guimarães, ficando D. Filipa três meses, na cidade do Porto, à espera do casamento que só se realizou, em Fevereiro de 1387, na Sé do Porto, tendo D. Filipa 27 anos e o rei português, 30 anos.
A cidade preparou-se para o casamento real e para receber os muitos convidados esperados, promovendo obras vultuosas que trouxeram alterações urbanísticas e com iniciativas populares, quando o povo, cheio de brio e por iniciativa própria, cobriu as ruas poeirentas e sujas de «desvairadas verduras e cheiros» que, além de servirem de ornamento, também atenuavam o fedor característico das cidades medievais, sem esgotos ou regras de higiene.
Fernão Lopes, na “Crónica de D. João I”, dá-nos “notícia” do dia do enlace matrimonial, explicando que os noivos saíram do Paço Episcopal, cada um montado num cavalo branco, cavalgando lado a lado. Iam ricamente vestidos, tendo nas cabeças coroas de ouro, trabalhadas com pedras preciosas e pérolas. A abrir o cortejo, iam homens com pipas e trombetas e outros instrumentos improvisados que produziam um enorme alarido.

A seguir iam as donas e as donzelas da cidade, entoando cânticos. Por todo o lado, por onde passava o cortejo nupcial, o povo acotovelava-se na ânsia de poder ver os nubentes. Chegados à Sé, foram recebidos por D. Rodrigo, bispo da cidade, que procedeu à cerimónia de casamento. Após este acto, o rei e D. Filipa, agora já rainha, recolheram ao paço episcopal para saírem depois para o banquete, o qual foi partilhado com o povo, que se regozijava com tantos festejos e abastança de manjares e iguarias.
Filipa de Lencastre voltou outras vezes ao Porto, sendo sempre festejada a sua presença, na urbe. Decorria o ano de 1394 e D. João I estava já há uns meses na cidade, quando D. Filipa veio juntar-se ao marido, estando já perto do final da sua quinta gravidez. Permaneceu na cidade mais de 9 meses, após o nascimento deste filho.
Calculamos que foi com uma certa emoção que voltou a ver o burgo que a acolhera quando, pela primeira vez, pisou terra portuguesa, depois de deixar a sua Inglaterra natal. A população voltava agora a saudá-la, mal atravessara as portas da cidade e entrava no burgo muralhado. Entrava agora, na cidade, mais segura de si, mais madura. Já não era a tímida Phillipa, mas a Filipa, a rainha de Portugal que vinha grávida do seu quinto filho – nascia, no Porto, o Infante D. Henrique, a 4 de Março de 1394 e no Porto também foi batizado, na Sé, alguns dias depois do seu nascimento, talvez a 8 do mesmo mês.

Também, entre Abril de 1398 e Janeiro de 1399 esteve a rainha, no Porto. A cidade tornou-se-lhe ainda mais familiar. O Porto representou para D. Filipa de Lencastre o início do conhecimento de Portugal e das suas gentes: aqui foi acolhida com admiração e entusiasmo pela população do burgo; aqui conheceu o homem com quem se casou; aqui teve um dos seus filhos, talvez aquele que é o mais conhecido e reconhecido em todo o mundo; aqui aprendeu as primeiras palavras em língua portuguesa; aqui conheceu o duro granito, as águas do Douro e o coração aberto dos portuenses…
Fotos: Pesquisa Google
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01out15
Descendo dos Lencastre do Porto.