José Lopes / Tribuna Livre
Confirmada a derrota da direita portuguesa, que no dia 4 de outubro perdeu a maioria absoluta através do voto do povo, eis que um coro de tecnocratas, situacionistas, liberais e ultraliberais, analistas e comentadores, invadiram os órgãos de comunicação social para, através da chantagem aos eleitores que tinham acabado de por fim a um ciclo politico “austeritário” imposto pelo governo PSD/CDS, alertarem até à exaustão com os mais fantasmagóricos argumentos, para os riscos de um governo com um caminho alternativo ao que tem levado o país ao estado de depressão, que a noite dos resultados eleitorais das eleições legislativas anunciou oportunidade para viabilização de um governo com viabilidade à esquerda na Assembleia da República
Intoxicaram-nos então com o chavão da estabilidade. Estabilidade para prosseguir o caminho de sentido único, porque caso contrário, o risco será, dizem, a instabilidade e o retrocesso dos sacrifícios já feitos. Uma ameaça cínica destes ideólogos e propagandistas de serviço da tese da estabilidade para garantir, de preferência através de um bloco central, a consolidação da mesma política de empobrecimento que os portugueses assumiram em mãos colocar um ponto final, ao determinarem a eleição de uma maioria de deputados à esquerda no Parlamento.
Perante tanta arrogância e sobretudo tantos sinais de uma direita que recorre aos mais primários argumentos para fomentar medo e querer manter-se no poder a todo o custo. De que estabilidade falam afinal? Estabilidade para quem?
Se dúvidas houvesse, os mais recentes dados tornados públicos desmistificam estes arautos da desgraça. A Estabilidade de que falam é a dos interesses do capital financeiro, da garantia no pagamento de juros agiotas aos FMI ou ao BCE ainda que à custa de cortes e mais cortes nos serviços públicos e sua consequente descaraterização, nas pensões, nas prestações sociais na desvalorização dos salários.
Querem estabilidade mas à custa da instabilidade social de um país como Portugal, que há dez anos está entre os países com a mais alta taxa de risco de pobreza e exclusão social, como resultado da política de direita que agravou as dificuldades das famílias que já antes da “crise” viviam em situação de pobreza. Segundo o Eurostat, em 2014 a taxa de risco de pobreza ou exclusão social manteve-se excecionalmente alta, atingindo os 2,9 milhões de pessoas ou seja, 27,5% da população.
A estabilidade de que nos falam, não é certamente, ainda segundo o Eurostat, a do aumento da taxa de pobreza ou exclusão social junto das crianças e dos jovens menores de idade, que faz com que uma em cada três crianças portuguesas seja pobre. Drama nas famílias que resulta da manutenção do desemprego elevado e de salários baixos dos pais. Um cenário indigno que lança quase um quarto das famílias com crianças para níveis abaixo do limiar de pobreza a pobreza.
Mas a estabilidade de que falam estes senhores com argumentos a rondar o revanchismo, não tem também como preocupação a instabilidade da população ativa cuja taxa de pobreza ou exclusão aumentou substancialmente, entre os trabalhadores desempregados.
Agravado com a redução de salários, o trabalho temporário e precário ou um salário mínimo (505 euros) que ainda não deslocou significativamente da linha de definição do limiar de pobreza (410 euros), auferido por mais de 700 mil trabalhadores que integram as camadas mais pobres da população que foram vítimas fáceis da governação PSD/CDS. Camada da população que mesmo podendo auferir um rendimento acima do limiar da pobreza, não tem condições para assegurar despesas básicas, situando-se no indicador de “taxa de privação material”, instabilidade tão alheia aos critérios de estabilidade com que nos querem amordaçar e fazer desacreditar de potencial governo diferente com caminho alternativo à pura e dura austeridade que o FMI logo veio alertar para o défice orçamental e o ministro alemão das finanças, logo a seguir à vontade de mudança do povo português, veio cinicamente dizer que as eleições que colocaram a direita em minoria no Parlamento foram um sinal de “encorajamento” das políticas de austeridade.
Os apelos repetem-se, desdobram-se e assumem o ridículo dos argumentos para passarem a mensagem da estabilidade só possível com o que chamam forças políticas “coerentes e consistentes” que assegurem os compromissos europeus e com os credores, mesmo que isso continue a traduzir-se no aumento da pobreza e na fuga dos jovens para o estrangeiro, negando-se a viverem do “assistencialismo” a que nos querem submeter de forma humilhante.
Foto: Pesquisa Google
01nov15
