Com um formato inovador, já que foi a primeira vez que este evento literário, “À Palavra com” no Museu de Ovar, não foi moderado pelo seu mentor e dinamizador, o escritor Carlos Granja, mas sim, por Ana Maria Ferreira, docente na Escola Secundária Júlio Dinis em que o escritor Bruno Vieira Amaral naquele dia 4 de dezembro tinha estado durante a tarde numa animada sessão com alunos. A tertúlia, marcada pelo ritmo da estreia da professora que acabava de chegar de um congresso internacional sobre a Língua portuguesa realizado em Coimbra, em que curiosamente a escritora Lídia Jorge tinha feito referencias à inovação da literatura de autores e livros como “As Primeiras Coisas” do escritor que veio a Ovar.
Clarificada a sua relação com a literatura e com a exposição pública, em que Bruno Vieira Amaral realça o facto de não depender da escrita, nem de contratos exclusivos com editores, o que o leva afirmar, “dá-me mais liberdade” e, “sinto-me livre”. Ainda que considere uma aspiração legítima viver dos livros, insiste que, “fica-se prisioneiro”. E ainda que reconheça que prémios literários como o José Saramago 2015 que venceu, promova visibilidade, que admite, “é bom para vender livros”. No entanto, disse o autor, “tudo isto são mecanismos para gerir” pelo escritor.
Ainda que valorize estas ações de interação com os leitores a exemplo dos próprios festivais como novidade recente, para Bruno Vieira Amaral, “o escritor hoje não tem peso”, porque, como afirmou, “a sociedade despolitizou-se e por isso, dos escritores já não se espera hoje “ter opinião politica “. Os escritores devem sim, “escrever livros relevantes”, uma mudança de estatuto que considera, “não é necessariamente mau”.
Reconhecendo ter abandonado a poesia, o escritor assume-se em vários registos, adiantando que a linha da sua escrita “é resultado de ouvir os outros”, “a mim interessa-me muito as pessoas” disse ainda, para partilhar com os leitores presentes, que o seu primeiro romance As Primeiras Coisas é narrado na primeira pessoa, porque, “foram motivações muito fortes para escrever este livro. São muito pessoais” assumiu Bruno Vieira Amaral, sobre a sua obra literária que trata uma história num bairro do Fomento à Habitação da Margem Sul em que cresceu com a família, no Vale da Amoreira, no concelho da Moita de onde quis fugir, regressando décadas depois como narrador que “tinha vergonha de voltar ao bairro” que se destinava aos trabalhadores da CUF/Quimigal e acabou por ser ocupado por moradores de bairros de lata e retornados de África, no caso do seu pai, de Angola.
Um regresso ao bairro que funcionou como uma fundamental cura “através das suas memórias”, porque, só “damos conta da mudança de tempo, quando regressamos, não é quando viajamos”. Este livro “é a história da reconciliação pessoal” acrescentou o autor, que partiu destas suas memórias, transformando-as literariamente.
Bruno Vieira Amaral nasceu em 1978. É licenciado em História, é crítico literário, tradutor e autor de Guia para 50 personagens da Ficção Portuguesa, é ainda editor-adjunto da revista Ler. A sua primeira obra literária As Primeiras Coisas, foi considerada o livro do ano em 2013 seguindo-se distinções como, o Prémio PEN CLUBE Narrativa, Prémio Literário Fernando Namora e o Prémio Literário José Saramago 2015.
Texto e fotos: José Lopes (*)
(*) Correspondente “Etc e Tal Jornal” em Ovar
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