A surrealista coincidência da data do desfile do Rei de Carnaval de Ovar e as eleições para a Presidência da República, no dia 24 de janeiro, vai acontecer assumidamente pela Câmara Municipal de Ovar que, não aceita alterar o seu programa de Carnaval e insiste em agitar a cidade de Ovar com o som dos batuques do samba que habitualmente animam o cortejo do Rei de Carnaval em que desfilam os foliões que exercendo uma antiga característica do entrudo em Ovar, como é a sátira politica, se fantasiam com alusões mais ou menos explicitas aos acontecimentos da vida politica atual, local e outros temas tratados com acutilância de forma carnavalesca. Sempre na máxima de que no carnaval ninguém leva a mal.
Mas, caso a Câmara de Ovar não manifeste qualquer flexibilidade nesta sua decisão, para além da afronta despropositada ao dia em que os portugueses são chamados às urnas, não para escolher o Rei de Carnaval, mas para elegerem o ou a Presidente da República, fica também a dúvida como vai este Município assegurar, não só o respeito pelo processo eleitoral, mas o igual respeito pela liberdade de expressão carnavalesca, nomeadamente a sátira politica que, neste dia em concreto, pode violar a própria lei eleitoral e favorecer uma ou outra candidatura no conteúdos das típicas piadas.

Ora, quando neste mesmo dia as urnas para as eleições presidenciais estão abertas entre as 8h00 e as 19h00 e é suposto legalmente as várias entidades competentes, desde logo os autarcas garantirem todas as condições de liberdade e segurança, para que o processo eleitoral decorra com a desejada tranquilidade e normalidade democrática, há dúvidas como tal poderá acontecer, quando ao mesmo tempo, no caso do período da tarde, a livre escolha do futuro presidente ou presidenta possa decorrer com civismo e sem condicionalismo de vária ordem.
Sendo conhecida a influência social da vivência carnavalesca, que em Ovar acaba por estar presente durante quase todo o ano na sociedade ovarense. Tal realidade não se deveria sobrepor a um acontecimento político decisivo na vida coletiva dos portugueses, como é a escolha do futuro chefe de estado no atual quadro político nacional.

Este tema foi aliás o mote da intervenção de um munícipe que na sessão extraordinária da Assembleia Municipal de Ovar no dia 17 de dezembro, em que fez um apelo ao executivo municipal para reconsiderar a data do desfile do Rei de Carnaval no dia 24.
A intervenção de Pedro Damião que aqui se transcreve, ainda que tenha sido uma pedrada no charco, numa sessão municipal em que os seus deputados municipais, regimentalmente ficaram “impedidos” pela ordem de trabalho de se pronunciarem, acabou por funcionar como um alerta para a coincidência de datas, que não conseguiu sensibilizar o executivo municipal para que as eleições presidenciais em Ovar não se transformem numa “palhaçada” ou num “convite à abstenção”, como afirmou este cidadão na sua intervenção na Assembleia Municipal, em que dizia textualmente:
“Confirma-se que “Este executivo gosta, sente e vive o Carnaval de Ovar”. Confirma-se que 24 de janeiro será o dia da chegada do Rei do Carnaval segundo o programa do Carnaval de Ovar 2016 organizado e promovido pela Câmara Municipal de Ovar.
E confirma-se também que é no mesmo dia que os portugueses são chamados às urnas para elegerem o próximo Presidente da República.
Como ovarense e reconhecendo a evidente influência que os festejos carnavalescos têm nesta comunidade, custa-me acreditar que os senhores autarcas responsáveis por esta festa, particularmente esta da chegada do Rei de Carnaval, que tem um cariz mais popular e tradicionalmente satírico, tenham insistido com tal rigidez na coincidência da data, mesmo que o anúncio da data das presidenciais tenha sido posterior ao do programa de carnaval. Como também me custa acreditar, que o Sr. Presidente da Câmara, assim como o Sr. Vereador da Cultura, as senhoras e senhores deputados municipais estejam disponíveis a pactuarem com tal grotesco cenário de verdadeiro desrespeito para com um ato político decisivo para o país e que por isso, nos deve merecer responsabilidade e exemplar exercício de cidadania, em vez de pactuarem numa estranha desvalorização do ato cívico de votar em condições que dignifiquem, o que considero ser, um importante momento para se poder escolher em liberdade, um novo Chefe de Estado no quadro atual do país.
Como cidadão recuso ter que acreditar que o exercício nobre da política é uma autêntica folia, como também me recuso acreditar, que são os próprios autarcas eleitos pelo voto dos seus munícipes, os patrocinadores de tal circo e incentivo ao descrédito nos políticos e na política que acaba por engrossar o convite à abstenção.
“Mas está tudo pensado para não dar azo à abstenção: as mesas de voto ficam concentradas numa escola da cidade, garantindo por isso, os responsáveis, que a concentração dos milhares de pessoas que habitualmente se deslocam ao centro da cidade para ver os reis e ouvir os discursos não irão ter influência no ato eleitoral.”
Mais uma vez como ovarense, vareiro e gostar de uma boa folia, nada me daria mais prazer em reconhecer também que os próprios autarcas desta querida cidade quisessem ver, sim, as milhares de pessoas que habitualmente se deslocam ao centro da cidade para ver os reis e ouvir os discursos, mas também a reconhecer esses mesmos autarcas a propagandearem a ida às urnas e incentivarem essas milhares de pessoas a quebrarem a abstenção que se abate no concelho.
Resta-me a esperança de que tudo isto não passa de uma brincadeira de mau gosto. Porque de facto nunca poderá ser encarada com a frase, “no Carnaval ninguém leva a mal”.
Certamente que, todas as partes envolvidas no programa do Carnaval de Ovar, autarcas e grupos carnavalescos não vão querer afirmar a “marca” Carnaval de Ovar com uma “campanha” de sátira política carnavalesca num dia em que livremente, se deve exercer, assim se espera, civicamente o exercício democrático para as eleições presidenciais.
Votar, exercendo um dever cívico ao som de arrufos carnavalescos é comédia pouco adequada para o dia. Não me parece, como eleitor, que seja uma decisão responsável, nem muito dignificante, por parte da Câmara, mesmo com eventual concordância dos representantes dos grupos carnavalescos que integram, deduzo, numa comissão do carnaval.
Deixo este apelo para que impere o bom senso, para que o ato eleitoral em Ovar decorra com a normalidade democrática necessária e no respeito pelos eleitores e já agora, pelos diferentes candidatos ao cargo presidencial.
Se me responderem que o programa de carnaval 2016 já é público há mais de um mês, considero ser ainda mais grave até hoje não ter havido uma acertada decisão de mudar o Cortejo do Rei.
Uma responsabilidade que caberá certamente à Câmara Municipal de Ovar e aos grupos e escolas de samba que habitualmente desfilam, para que não se tornem coniventes com tão infeliz espetáculo nesta terra com tradições no Entrudo.
Assim, nesta festa em que a Câmara de Ovar aumentou o investimento com mais 500 euros a cada grupo, num total de cerca de 207 mil euros do orçamento municipal, é expectável que tal apoio ao Carnaval não promova uma tal desvalorização do exercício de cidadania, já que, e recordando as palavras do Sr. Presidente da Câmara, Eng. Salvador Malheiro, sobre esta festa, “Para o sucesso do nosso Carnaval é determinante o esforço de todos. A sua concretização assenta numa verdadeira parceria entre a autarquia e os grupos e escolas de samba. O resultado final só é positivo se existir um verdadeiro envolvimento de todos, numa responsabilidade partilhada”.
Ora assim sendo, para o próprio sucesso desta festa e do bom nome de Ovar só se pode esperar que a data do Cortejo do Rei de Carnaval seja alterada para que o reinado folião em Ovar não se confunda com a eleição do Presidente da República. Nem mesmo confunda os ovarenses se se deve festejar a chegada do Rei do Carnaval ou a saída do Sr. Cavaco Silva da presidência”.
Texto e fotos: José Lopes (*)
(*)Correspondente “Etc e Tal Jornal” em Ovar – Aveiro
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