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E agora João Duque?

José Lopes / Tribuna Livre

Na sua coluna de opinião no jornal Expresso (Economia) de 28/11/2015 “Confusion de Confusiones”, João Duque perguntava sarcasticamente, no seu estilo corrosivo agravado certamente por ter dificuldades em digerir a nova realidade governativa à esquerda, “E agora Manuel?”, o recém-empossado ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, a quem cobrava de imediato, que garanta a permanência em Portugal de empresas e grupos económicos, como os exemplos que dá (Mondeléz Internacional, proprietária das marcas de bolachas Triunfo e Proalimentar ou a produtora de roupa interior Tryumph Internacional), que anunciaram mudarem-se para a República Checa e para a China respetivamente, à procura de mão-de-obra ainda mais barata e leis laborais, ainda mais estimulantes para empresários sem escrúpulos na exploração dos trabalhadores em condições desumanas.

A estes promotores do capitalismo assente no empobrecimento dos trabalhadores e operários, João Duque, quer governantes sensíveis e submissos aos interesses das multinacionais, que cinicamente fazem chantagem a países como o nosso, no sul da Europa, que durante décadas lhes vem dando benesses fiscais e patrimoniais com áreas de implantação praticamente oferecidas como condição para atrair investimento ou mão-de-obra especializada e barata cada vez mais à mercê da ambição desmedida de lucros e condições de trabalho fragilizadas e desequilibradas pela sucessiva desregulamentação laboral, sempre em nome da necessária competitividade.

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Que graça tem afinal este “confusio” colunista do Expresso que numa irónica referência à eventual simpatia que Caldeira Cabral, seu colega docente da Universidade do Minho, possa manifestar para com as PME, afirmava, “já era altura da exploração capitalista multinacional sair de Portugal, dando espaço para as tuas queridas startups e PME nacionais, também tão ao gosto dos teus apoiantes parlamentares…”. O mesquinho achincalhamento ao novo governante, curiosamente foi poupado aos anteriores governantes da direita, confrontados também com algumas idênticas deslocalizações e fugas de saqueadores de mão-de-obra barata a exemplo da Tovartex em Ovar (multinacional alemã).

Um caminho e uma governação com um compromisso alternativo à continuação da austeridade pode incomodar o colunista, mas a necessidade de dignificar, salvaguardar e promover postos de trabalho, não é certamente na lógica neoliberal de desvalorização do trabalho, bem pelo contrário, depois do fracasso e do insucesso económico da governação que prosseguiu a desregulamentação laboral, que impôs cortes nos salários e nas pensões e ainda nas prestações sociais deixando um país e um povo mais pobre, não atraiu o esperado investimento que desse credibilidade aos “empreendedores” cujo grande empreendimento governativo foi venderem o país aos bocados até serem desautorizados (derrotados) pelo voto em 4 de outubro.

Uma ingratidão do povo dirão estes colunistas, mas goste João Duque ou não, a resposta às multinacionais que ameaçam abandonar este país só pode ser a da maioria parlamentar na defesa da valorização do trabalho e reposição de salários e pensões, garantindo o aumento do salário mínimo mesmo sem o acordo dos patrões e durante uma legislatura, como condição mínima e indispensável de resgatar milhares de trabalhadores e operários do limiar da pobreza em que vivem.

buraco financeiro

E agora João Duque? Perguntará certamente quem semanalmente lê a sua coluna no Expresso à espera de um sarcástico texto, quando, para resgatar a banca não se olha a meios, mesmo quando os banqueiros e governantes nos deixam mais um gigantesco buraco, agora no Banif para ser sustentado por uma injeção de dinheiros públicos à custa dos contribuintes que já há três anos o governo da direita lá enterrou 1100 milhões de euros, ao ponto de Passos Coelho, ”anunciar na altura que o Estado ainda ia lucrar com a operação” ao mesmo tempo que ignorava os sucessivos avisos da Comissão Europeia, que recusou oito planos de reestruturação deste Banco, como denunciou recentemente a deputada bloquista Mariana Mortágua que alertava ainda para uma “degradação evidente dos balanços dos bancos”.

A estes respeitáveis empreendedores banqueiros que ciclicamente devolvem os prejuízos da sua gestão ao limitado orçamento do país e a renovados sacrifícios das famílias que são as principais vítimas da ausência de um efetivo controlo público da banca, o novo governo disponibiliza mais uma injeção de 2,26 milhões, segundo as noticias na imprensa.

Mas, perante o estranho silêncio dos comentadores da economia neoliberal sobre o estado caótico em que os anteriores governantes deixaram as contas públicas, a Comissão Europeia, que impõe austeridade e não regateia o resgate dos bancos, depois de aprovar o plano do governo português de ajuda adicional para cobrir mais este “buraco” na banca, arredonda as contas com o Banif para cerca de quatro mil milhões de euros a saírem dos cofres públicos. Um custo elevado para os contribuintes, apresentado pelos novos governantes como necessário para a venda da participação do Estado no Banif ao Santander Totta que não deixará de merecer a simpatia de tais colunistas.

Fotos: José Lopes e Pesquisa Google

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