Raul Brandão, nome grande da literatura portuguesa, foi autor de uma extensa e diversificada obra literária que se espraia pela ficção, historiografia, livros de viagens e teatro. Nasceu no Porto, na Foz do Douro, no nº 12 da Rua da Bela Vista (actual Rua de Raul Brandão), sendo filho e neto de pessoas ligadas ao mar, facto este que muito influenciou a sua obra, onde a temática marítima é muito relevante. A Foz do Douro marcou-o, não só pelo mar e as actividades a ele ligadas como, também, pelas suas gentes que muito bem soube retratar.
Nas suas Memórias descreve assim a terra que o viu nascer: “Esta Foz de há cinquenta anos, adormecida e doirada, a Cantareira, no alto do Monte, depois o farol e sempre ao largo o mar diáfano ou colérico, foi o quadro da minha vida. Aqui ao lado morou a minha avó; no armário, metido na parede como um beliche, dormiu em pequeno o meu avô, que desapareceu um dia no mar com toda a tripulação do seu brigue, e nunca mais houve notícias dele. […] O que sei de belo, de grande ou de útil, aprendi-o nesse tempo, o que sei das árvores, da ternura, da cor e do assombro, tudo me vem desse tempo… Depois não aprendi coisa que valha. Confusão, balbúrdia e mais nada.”
No Porto passou a sua infância e adolescência e fez os seus primeiros estudos, nomeadamente no Colégio São Carlos, que funcionou na Rua Fernandes Tomás, do qual não guardava boas recordações, segundo relatou nas suas “Memórias”. Depois, frequentou a Academia Politécnica do Porto e, em 1888, ingressou na Escola do Exército, em Lisboa. Assim, a sua vida dividiu-se entre uma carreira militar, com longos períodos de tempo no Ministério da Guerra e, paralelamente, a sua carreira literária como escritor e jornalista, função que também exerceu, ao longo de quase toda a sua vida.
Em 1896, foi colocado como Alferes no Regimento de Infantaria nº 20, em Guimarães, cidade onde conheceu Maria Angelina, com a qual veio a casar, em Março de 1897. Sobre ela escreveria nas “Memórias”:
“Ninguém te vê e fazes-te sentir em toda a casa. Aquece-la. Estás em toda a parte, e ao mesmo tempo a meu lado. És como o ar que respiro.”
A Casa do Alto, na freguesia de Nespereira, nos arredores de Guimarães, foi sempre um refúgio de tranquilidade para o casal, situada em pleno meio rural. Este ambiente contribuiu também para que Raul Brandão tomasse consciência da realidade camponesa e das condições difíceis em que viviam as comunidades agrícolas.
Mais tarde, foi transferido para o Porto, voltando ao lugar onde nascera, a Foz do Douro e, em 1901, pediu nova transferência, desta vez para Lisboa, onde se relacionou com intelectuais e anarquistas e se empenhou na área do Jornalismo.

Além de outros grupos a que pertenceu, foi um dos fundadores da revista “Seara Nova” (1921), juntamente com Jaime Cortesão, Raul Proença e Aquilino Ribeiro, entre outros, participando sempre activamente em vários movimentos de renovação literária.
Da sua vasta obra destacamos os seguintes títulos: “Húmus”, “Os Pescadores”, “El-rei Junot”, “O Doido e a Morte“, “O Rei Imaginário“, “Os Pobres“,…livros marcados por uma escrita vigorosa e uma forte dimensão humanista, em que revela preocupação com a sorte dos mais fracos, condenando a exploração do homem pelo homem e denunciando o estado da sociedade, tudo isto com alguma influência dos grandes romancistas russos, do final do século XIX. Para lá de retratar múltiplas vivências, desde a sua infância passada entre lavradores e gente do mar, até à observação da realidade social sobre a qual reflectiu, demonstrou sempre uma forte sensibilidade e uma defesa constante dos oprimidos e dos explorados.

Já quase no final da sua vida e, em parceria com a sua mulher Maria Angelina, escreveu a interessante obra infanto-juvenil “Portugal Pequenino”, onde duas personagens, o Russo e a Pisca, viajam no país, dando a conhecer Portugal aos jovens, apresentando uma visão panorâmica do País, nas suas diferentes vertentes. Raul Brandão viria a falecer em Lisboa, no dia 5 de Dezembro de 1930.
Deixo aqui as palavras de Raul Brandão que nos fazem refectir sobre a nossa passagem transitória pelo mundo dos vivos: «Aqui não andam só os vivos – andam também os mortos. A humanidade é povoada pelos que se agitam numa existência transitória e baça, e pelos outros que se impõem como se estivessem vivos. Tudo está ligado e confundido. Sobre as casas há outra edificação, e uma trave ideal que o caruncho rói une todas as construções vulgares. Debalde todos os dias repelimos os mortos – todos os dias os mortos se misturam à nossa vida. E não nos largam.» in “Húmus”.
Texto: Maximina Girão Ribeiro
Fotos: Pesquisa Google
Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.
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